TO WHOM IT MAY CONCERN: Ninguém pode alimentar-se um segundo que seja de LIXO: o LIXO é aquilo que se deve dejectar imediatamente e POR INTEIRO no LIXO (reflexão de Kant a Derrida)

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(Paul McCarthy)

Quando lemos a terceira crítica de Kant (Kritik der Urteilskraft, Livro II, §48), certificamo-nos de que a arte pode tratar de qualquer assunto, lidar com qualquer assunto, ainda que sem moral, abjecto e eivado pelo horror. Mas há um sentimento, uma protuberância, uma espécie de excrescência com qua a arte não é capaz (nunca) de lidar: o asco, que é, como diz Eugenio Trías (Lo Bello y lo Siniestro), uma das categorias do sinistro. Diz Kant na sua terceira “Crítica”: “As fúrias, as doenças, a devastação e a guerra, etc., podem ser descritas como males belos, belíssimos e como tal mesmo representados em quadros; há apenas um tipo de fealdade que nunca pode ser representada conforme a sua natureza sem destruir por completo a satisfação estética, a beleza artística, trata-se do asco”. A tese é muito conhecida e pode assim explicar-se: a representação do asco é impossível, pois o asco representado é o próprio asco (não permitindo a representação). O objecto que intenta “representar” o asco, torna-se asco. Kant tem razão, mas devemo-lo alargar da arte à cultura, da cultura ao humano, às relações humanas: perante a imundície, o asco e o sinistro, eu não escolho o que lá vejo de “bom” do que vejo e sinto de “mau”. No asco/sinistro, eu não escolho. Simplificando, quando vomito (todos nós quando vomitamos, no fundo) não escolhemos no vomitado o que queremos de novo voltar a comer. Não escolhemos ainda o que queremos preservar. Não há nada a preservar – já tudo foi no seu devido momento dejectado, expelido. E tudo isso deve ser mantido longe de nós.
Há algo aqui que se pode relacionar com o “arquivo”, pois o asco está em todo o lado, e, desse modo, ele, o asco, no “arquivo” contribui para a implosão do próprio “arquivo”. De certo modo, e interpretando-o eu livremente, Derrida (Mal d’Archive), socorrendo-se de Freud, mostra-nos que uma paixão arqueológica pelo “arquivo” pode redundar num “mal de arquivo”, algo que leva à sua destruição desde dentro. É isso que temos de combater, eliminando porções do “arquivo”, vomitando-o, dejectando-o, expelindo-o. Porque, como também nos diz Derrida, num “arquivo” não há separação absoluta, ou seja, “o princípio arcôntico do arquivo é também de consignação e de reunião“. Mas, reunião com o quê e com quem? Com o que vomitamos, dejectamos e abjeccionamos? Não, isso nunca. Portanto, em nome da validade do conceito de “arquivo”, devemos periodicamente amputá-lo, limpá-lo pelo menos daquilo que Kant não hesitaria em denominar “asco” ou “sinistro” sob pena de ser o próprio arquivo a desaparecer.

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(Paul McCarthy)

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3 Responses to TO WHOM IT MAY CONCERN: Ninguém pode alimentar-se um segundo que seja de LIXO: o LIXO é aquilo que se deve dejectar imediatamente e POR INTEIRO no LIXO (reflexão de Kant a Derrida)

  1. Jose Nunes diz:

    Não é possivel.Este Sr. Carlos Vidal não existe.

  2. jlcr diz:

    É um cretino.

  3. Sergio diz:

    É um filho da puta isso sim.

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