Observatório da fala

Vocábulos mais odiosos adicionados à língua corrente: “tipo” e “mega”. Tudo agora é tipo tudo; e já não chegavam os superes e os hiperes, agora temos os mega (só porque os arquiduques caíram em desuso, suponho). Outra tendência abominável do moderno português de Portugal: a reprodução de discussões por vezes longas e encadeamentos de factos que podem ser intermináveis (ou seja, de “cenas” em geral) em discurso directo, por pura incapacidade de descrevê-los e resumi-los de forma inteligível. É tipo assim: Eu disse: (entre aspas, o que quer que seja) e depois ela disse: (idem) e a seguir eu disse: (idem, ad infinitum, ad nauseam). Pelo contrário, um aparente cultismo está a ganhar terreno: quando eu era pequenino, ouvi muitas vezes dizer que “você era da estrebaria”, mas apesar disso o “vocês” era omnipresente, isto porque o “vós” só se ouvia numa de três situações: na representação dos clássicos da língua, na igreja (sim, eu ia à igreja quando era pequenino) e no falar rural do Norte (que os lisboetas da classe média como eu classificavam genericamente como “saloio”). Hoje não é assim: embora as formas verbais da segunda pessoa do singular não tenham voltado à superfície, o pronome “vós” tornou-se cada vez mais usado (acabo de ouvi-lo na rádio, por exemplo, numa situação em que seria impensável há alguns anos) e as formas de tratamento do português (ainda) mais complexas: tu, você, o você que não confessa o seu nome e se esconde por trás de um nome próprio, o Senhor, V.Exa, vocês, vós… o país mais ocidental da Europa tem um protocolo digno do Extremo Oriente.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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7 Responses to Observatório da fala

  1. Paulo Ribeiro diz:

    gosto particularmente quando o figueira é raptado por um desses movimentos proustianos, por um desses processos regressivos e fatais, que, levantam o véu sobre o passado do revolucionário “tipo” norte-coreano, quando ainda lhe dava para a santa e provinciana pusilaminidade do pequeno-burguês. norte-coreanismos à parte, o que eu sempre quis perguntar ao figueira, sem crispações, é o seguinte: quando é que o figueira começou a conceber a sua fantasia homicida? ao carlos vidal nem pergunto, intuo que nasceu com ela (caso perdido)! mas o figueira é diferente. ora, não me venha com “fugas” (ó apreciador, seu melómano!). qualquer revolucionário, seja homem de bem ou um pulha, é um assassino. felismente, na maioria dos casos, falhado. mas é assassino!

  2. ezequiel diz:

    mega perspicaz! ih ih 🙂

  3. António Figueira diz:

    Dear Paulo Ribeiro,
    Unfortunately, my busy, busy schedule prevents me from replying to a busy, busybody like yourself.
    Kind regards, AF

  4. Estes ataques arbitrários a formas de falar diferentes das próprias é um fenómeno curioso. Esteticamente, é legítimo. Mas aqui um fundo de crítica moral que não tem qualquer legitimidade. Veja-se uma análise por parte dum linguista dum fenómeno paralelo: http://languagelog.ldc.upenn.edu/nll/?p=1431

  5. Politikos diz:

    A língua é uma realidade dinâmica, evolui, promove e despromove vocábulos. Tem modas mais ou menos perenes. Além de que a maior parte dos exemplos que dá me parecem mais da linguagem oral que da escrita, o que faz alguma diferença. E o que dizer, na escrita, dos seus «superes» e «hiperes» e já agora porque mantém o pobre do «mega»no singular?!… 😉

  6. Paulo Ribeiro diz:

    بعد ذلك يفضّل هو الفرار? [إ] لذلك? هو يسمحني أن يقول إلى هو أنّ لا يصبح هذا. هو مخادعة. من قاتلة!

  7. Camelo no buraco da agulha? diz:

    PR
    Que falta de urbanidade!
    Até parece koiza do Extremo Oriente… xiça.
    Se fosse em MP3… até dava p’ra meter avós com voz emcima de vós! Falso & fatal 😉

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