O J’accuse do Lopes da Mota

Para poupar novos arremedos estilísticos, em defesa do senhor que parece, segundo as vozes do costume, que não fez pressão nenhuma, nem aqui nem em Felgueiras. O mesmo que não está, segundo me dizem, às ordens do senhor que não fez pressão nenhuma em Macau, que, por sua vez, não estaria às ordens do senhor que, miraculosamente consegue ser sempre apanhado pelas revistas de coração, mas que também não teve nenhuma influência no licenciamento do Freeport… como dizia, para poupar novas vergonhas. Escrevo eu, desta vez, o  accuse cá do burgo.

Senhor Presidente da República,
Permiti-me que, agradecido pela bondoso acolhimento que me dispensou,
me preocupe mais com a vossa glória e vos diga que vossa estrela, tão feliz
até hoje, está ameaçada pela mancha mais vergonhosa e inapagável. Saístes
são e salvo de baixas calúnias e conquistastes corações. (…) Mas que mancha
de lodo sobre o vosso nome pode imprimir este abominável processo Lopes da Mota!
Desde logo um Conselho Superior do Ministério Público se atreve a absolver os procuradores do Freeport, numa
bofetada suprema em toda a verdade, em toda a justiça. E não há remédio;
Portugal vai conservar esta mancha e a história vai registar que semelhante
crime social foi cometido ao amparo da vossa presidência. Já que se agiu sem
razão, falarei.
É meu dever: não quero ser cúmplice. Todas as noites eu veria o espectro do
inocente que expia, cruelmente torturado, um crime que não cometeu. Por isso
me dirijo a vós, gritando a verdade com toda a força da minha rebelião de
homem honrado. Estou convencido de que ignorais o que ocorre. Mas a quem
denunciar as infâmias desta turba de malfeitores, de verdadeiros culpados,
senão ao primeiro magistrado do país?!  E eu acuso
o Conselho Superior do Ministério Público por haver coberto esta ilegalidade, cometendo
o crime jurídico de absolver conscientemente um culpado – o Sindicato dos Magistrados de Ministério Público.
Eu não ignoro que ao formular estas acusações atraio sobre mim os artigos da Lei de Imprensa, que se referem aos delitos de difamação.
Voluntariamente, ponho-me à disposição dos Tribunais. Um só sentimento me
move: o desejo de que se faça luz. O meu ardente protesto nada mais é que um
grito de minha alma. Que se atrevam a levar-me aos Tribunais e me julguem
publicamente. Assim espero.
Émile Zola, Chelas, 13 de Maio 2009.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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10 respostas a O J’accuse do Lopes da Mota

  1. Moi aussi! diz:

    Et moi aussi!

  2. Carlos diz:

    Foge Fatinha, foge!

  3. E o que é um “prazo razoável” para a PGR concluir o processo disciplinar? O prazo da prescrição?

  4. jacuzzi diz:

    olha que a verdadeira Zola de Chelas ainda te espeta com um processo em cima por plagiarismo avant la letre.

  5. Pingback: Para poupar novas vergonhas « O Insurgente

  6. Governo de Salvação Nacional com um programa e um tempo limitados. Objectivos: rever a constituição, PGR eleito pelo parlamento, audição parlamentar aos candidatos a ministro, reforma do sistema judicial, reforço da cidadania.

  7. Paulo Ribeiro diz:

    só não sei porque ninguém se espanta. penso, aliás, que deve existir aqui um monstruoso engano auditivo de massas. que raio. onde é que certos ouvidos estavam com a cabeça? vejamos: a-brir um pro-ce-sso dis-ci-pli-nar. pois claro. é culpado! mas, hilário, hilário mesmo, é o espanto político que me causam comunistas a exigir, como se tudo brotasse de uma alucinação, modelos à americana. fico ferido de assombro. o meu amigo quintela, deve saber, que, estes modelos só assentam em países, onde, tudo o resto é muito flexivel, ok! em portugal portugaleiro, vexa, levaria meio ano, ou mais, para ter governo. e, ao invés de governo de salvação nacional, haveria, isso sim, mil confusões a florescerem em todas as esquinas da pátria. faz sentido.

  8. pauloc diz:

    NRA,só te podes esconder por detrás do Zola,pq se não levavas com um processo em cima.Li, e pensei que ias assinar e,eu a pensar que ‘este gajo está fodido’ porque o tipo é um forte fanfarrão para com os fracos, e fraco para com os ‘fortes’-os do dinheiro,entenda-se!

  9. Camelo no buraco da agulha? diz:

    Entra o bastonário da OdA e salva a situação: é perigoso viver nesta ‘ambiguação’ 😉

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