leituras do 1º de Maio

Entre o muito que se tem escrito sobre o 1º de Maio e as muito referidas agressões a Vital Moreira ontem na Pública o psiquiatra Daniel Sampaio escreveu parte da sua habitual crónica sobre o assunto. Mais do que discordar, ou não dele, acho interessante a leitura que faz dos acontecimentos.

Muito se escreveu já sobre os acontecimentos do 1º de Maio, em que os incidentes que envolveram Vital Moreira ocuparam o primeiro plano. Passado algum tempo, importa reflectir: o que aconteceu foi um sintoma. Não sucedeu uma demonstração do “sofrimento dos trabalhadores” , como depressa os dirigentes da CGTP quiseram fazer crer, antes ocorreu mais uma demonstração de desrespeito e de falta de atenção ao outro, como vem a acontecer na sociedade portuguesa.
O que é grave é a desculpa sistemática, a pretensa compreensão e a justificação elaborada, surgidas à pressa depois de incidentes que o simples bom senso e a educação mais elementar criticaram sem receio. Como é possível tentar legitimar comportamentos que nunca poderão ser aceites, pelo facto de porem em causa a base do relacionamento interpessoal e o diálogo democrático? Como é possível considerar “agent provocateur” Vital Moreira, como afirma certo politólogo no Público de 3 de Maio?
É certo que os partidos convivem mal com quem os deixa e atinge notoriedade, mas a simples tentativa de “explicar” aquelas atitudes deve merecer condenação. Impressiona verificar como os agentes políticos tentaram tirar partido do incidente, com alguns a não criticar o essencial: a falta de respeito por quem pensa diferente. É este afrouxamento da crítica sobre a quebra das regras de convivência que permite desculpar a indisciplina na sala de aula (por “problemas” dos alunos) ou a agressão do futebolista Pepe, depressa apagada pela desculpa da “cabeça quente”. Convém clarificar: só teremos êxito como educadores quando não transigirmos perante tudo o que colocar em causa a possibilidade de nos ouvirmos uns aos outros.

Daniel Sampaio, Pública, 10 de Maio de 2009

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