Bem-vindos à Bela Vista

Esta noite houve tiroteio na Bela Vista. Jovens dali e de outros bairros da grande cidade dispararam nas ruas sujas e pobres do mais famoso bairro de Setúbal. Disparar. Destruir. Existir. Oiçam a música de Caetano, demasiado amaricada para aquelas ruas, vejam o filme de Kassovitch. Vão para o sofá e comam pipocas. Escutem os discursos policiais, as moralidades fáceis da comunicação social, as parvoices ditas pela Presidente da Câmara de Setúbal. É fantástico quando uma candidata alegadamente comunista peroa sobre os criminosos estarem a dar mau nome ao bairro. Deixem, sobretudo, de pensar que há algo de bom na Bela Vista. Tudo é mau, num bairro miserável onde as pessoas podem ser cercadas, revistadas e executadas, para afastar os nossos medos. Os habitantes da Bela Vista podem ser maioritariamente honestos e trabalhadores, a lei pode proibir que se matem criminosos com balas na cabeça, mas o que é que isso interessa? Essa gente não dá votos. A maioria deles nem pode votar. Os discursos Paulo Portas e da Presidente da Câmara de Setúbal, e o seu maravilhoso fatinho saia e casaco, têm todos o nosso apoio. Escondam os pobres. Controlem os negros. Os assaltantes assustam-nos. Graças a Deus que há a polícia para os espancar. Felizmente, podem ser cercados e impedidos de sairem do seu “sítio”. Um permanente Estado de Sítio nos “bairros problemáticos” da grande Lisboa é a única política possível.  A lei é impotente, para essa canalha, é normal que na maior parte das circunstâncias essa gente possa ser morta . Só haverá segurança, se depois de construirem as nossas casas, e as limparem, os seus filhos poderem ser mortos. Sejamos justos, não há futuro para essa gente. Agora voltem para o sofá e animem-se, o telejornal está a acabar e a novela vem já.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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