Eu fumo o que eu quiser

Escrevo enquanto enrolo a ganza que vou fumar assim que der por terminado o dia de trabalho. Conheço, fumo, aprecio, e só não planto porque a minha gata daria rápida e ligeiramente cabo dos meus esforços agrícolas, ou a cannabis é mesmo boa e ela sabe, ou simplesmente é uma planta porreira para bolsar uma bola de pelo de vez em quando. A minha gata, como eu, é adulta, toma as suas decisões em consciência, e sabe melhor do que o Estado o que é melhor para si.

mgm-cartaz

Depois do Porto, é já este sábado que a Marcha Global da Marijuana, da qual sou mandatário, sai à rua em Lisboa, Braga e Coimbra. A marcha realiza-se, desde 1999, no primeiro sábado de Maio, em mais de 200 cidades, e denuncia em primeiro lugar que o facto de a cannabis ser considerada uma substância ilegal tem consequências sociais e sanitárias bem mais gravosas do que se fosse um produto legal. A Marcha parte do Largo do Rato às 16h00, com destino ao miradouro de Stª Catarina (Adamastor), onde alguns mandatários e convidados vão fazer intervenções pela legalização.

Na verdade, a Marcha da Marijuana, concentrando-se na mais inofensiva das drogas ilegais (e mesmo se o não fosse, a decisão continua a ser minha de consumi-la), é uma denúncia mais vasta das políticas proibicionistas que à escala global têm não só entregue o negócio das drogas às máfias do narcotráfico; como misturado, com consequências terríveis, os mercados de drogas duras e leves; precarizado e marginalizado as condições de acesso dos consumidores às substâncias; sido pretexto para guerras e acções militares imperialistas; corrompido sistemas políticos inteiros; comprometido a economia e a independência de nações, veja-se a importância do cultivo da folha de coca na América Latina, ou a importância para a economia marroquina do charrinho que vou fumar daqui a pouco; atrasado ou impedido o desenvolvimento de políticas de redução de danos e riscos sérias e comprometido políticas de prevenção informadas; criminalizado um consumo consciente e socialmente inofensivo; enchido as prisões de consumidores de drogas leves; negado os benefícios da produção da cannabis, da sua utilização médica para algumas das doenças mais graves e até algumas das que não têm cura, do seu potencial como fonte de fibra ou de produção de pasta de papel e de substâncias convertíveis em energias renováveis; diabolizado uma planta em função de um ideal erradicador das drogas que além de tonto, utópico e, no que me toca, indesejado (quero mesmo fumar a ganzinha), tem o perigo evidente de achar que uma planta, ou as substâncias, são o “mal”, em vez de se concentrarem, para mais nesta sociedade de consumo e da ideologia do prazer imediato, no razonamento do uso que delas fazemos (coisa que aliás faria bem à taxa de alcoolismo).
Despenalização da posse, consumo e cultivo de cannabis e de todos os produtos derivados desta planta, bem como a criação de regulamentação para o fornecimento, comércio e compra legal por adultos e uma regulamentação para estabelecimentos públicos onde o consumo por adultos seja permitido, tudo isto eu subscrevo. E nem sequer apenas para a cannabis, que os problemas mais sérios estão nas drogas mais duras e nas novas drogas sintéticas, seguramente não no meu charrinho.

Petição à Assembleia da República solicitando a legalização da canábis para auto-cultivo (cultivo para consumo próprio) e a sua venda em estabelecimentos autorizados a maiores de idade.
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