Será amanhã o começo das hostilidades: KENNETH ANGER na Cinemateca, em Serralves e na ZDB

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Um estudo obrigatório da Ondina sobre o “Mago”

Serve o presente post para destacar dois eventos únicos, ligadíssimos, bizarros (cada um a seu modo) e imperdíveis: 1) começa amanhã na Cinemateca o ciclo dedicado a Kenneth Anger (que virá à Cinemateca, tocará ainda theremin com os Technicolor Skull, dia 6 em Serralves e 9 no Palácio Valadares em Lisboa), o mais perverso e inventivo dos cineastas ocultistas, um nome muito bem blindado e também, desde os anos 40, oculto, culto e fenómeno de peregrinação (só) para iniciados, cineasta para todos aqueles que sabem que o cinema não é aquilo que passa nas salas (nunca foi), mas aquilo que atravessa a nossa mente e espírito quando liberto do corpo, Anger, o homem que protagonizou o cruzamento místico entre Mickey Mouse, a homossexualidade, Aleister Crowley, a suástica, Cristo, Marlon Brando, Hitler, o crucifixo e o candelabro judaico. Anger, que descreve a podridão de Hollywood no livro Hollywood Babylon (Nova Iorque, Dell, 1975).
2) Está já disponível nalgumas livrarias (também secretas) a magnífica dissertação de mestrado da nossa Ondina Pires dedicada ao mítico filme de Kenneth Anger, Scorpio Rising, de 1964. Título do livro: Scorpio Rising: Transgressão Juvenil, Anjos do Inferno e Cinema de Vanguarda (Lisboa, Chili com Carne). (E, para já, a estranha morada para o adquirir, antes de ser apresentado na ZDB, dia 15 deste mês, é: R. dos Fanqueiros, 174 – 1º Esq.)
Poucas palavras acrescentaria a este duplo fenómeno: vinda de Anger e livro sobre Anger (da Ondina, obviamente). Anger é talvez o cineasta mais venerado e inspirador para Martin Scorsese, que prefacia a edição DVD (Vol.1) da obra do “Magus”, como também é conhecido (Ed. Fantoma Films, em cópias restauradas na Universidade da Califórnia). Bom, enquanto Scorsese prefacia Anger, eu prefacio a Ondina (e esse prefácio transcrevê-lo-ei – uma parte – de seguida). A Ondina, sobre Scorpio Rising, começa por citar da bíblia do cinema underground americano escrita por P. Adams Sitney, Visionary Film: The American Avant-Garde 1943-2000 (Oxford University Press, 2002):

Scorpio Rising é um filme mitográfico. Conscientemente, ele cria o mito do motociclista em comparação a outros mitos: a estrela morta de cinema, Dean, a viva, Brando, o salvador da humanidade, Cristo, o vilão da humanidade, Hitler. Cada um destes mitos é evocado com ambiguidade, sem moralismos. A partir de imagens de Hitler e de um soldado nazi, da utilização de suásticas e outra simbologia Nazi, Scorpio… tira partido do êxtase nietschiano de força e poder. Scorpio Rising é a versão mais sofisticada que Anger alguma vez conseguiu do diálogo erótico. [Cinemateca, dia 7, 21.30]

Scorsese, por seu lado, é absolutamente enfático e inequívoco na apresentação que faz da colecção Anger: nunca viu como em Scorpio Rising uma tal alquimia entre som, música e imagem. E vai mais longe – admira a perfeição de cada corte, a montagem, a cor (do outro mundo, irrealmente) cada movimento de câmara, cada textura, e quase nunca o cinema lhe pareceu assim: tudo o que ali acontece é INEVITÁVEL ! (nas suas palavras). Inevitável como a Virgem Maria numa obra-prima renascentista. Diz ainda Scorsese, num texto lindíssimo, que o mundo de Anger vem do passado e regressa à (nossa) superfície como que numa invocação.

Mais umas palavrinhas sobre o livro da Ondina (excerto do meu prefácio) e parte de Scorpio Rising (a não perder):

«O livro aqui proposto partiu de uma dissertação de mestrado rara e ousada (não por causa do tema, mas pela sua originalidade), que tomou como objecto de estudo o filme Scorpio Rising (1963), a obra cinematográfica de Kenneth Anger contextualizada, e as mutações decisivas da cultura juvenil na América dos anos 50, a década em que, como escreveu o artista Dan Graham em Rock My Religion, nasceu uma nova classe: o adolescente consumidor, rebelde, ocioso, liberto do ciclo trabalho-desemprego inerente à família do pós-guerra.

     Gosto de pensar em Scorpio Rising, desse obscuro e luminoso vanguardista que é Kenneth Anger, como um filme que balança, ou melhor, faz o desejo balançar, entre a eternidade sádica e a perversa finitude do cristianismo. Numa primeira abordagem, Scorpio Rising aproxima-se da eternidade sádica, mas fá-lo por via de uma passagem, um trânsito quase obrigatório, pelo fulcro também assaz perverso (e transgressivo) do cristianismo, citando eu, neste ponto, um conhecido título de Slavoj Žižek: The Puppet and the Dwarf: The Perverse Core of Christianity (2003). Ao balançar entre a eternidade sádica e a finitude sacrificial crística, Kenneth Anger diz-nos talvez que uma se alimenta da outra, Cristo do Anticristo, o crente do céptico, etc.

     Mas, «aberto» o filme, que é um fantástico propulsor de leituras, também podemos (seguindo a estratégia de Ondina Pires, com a eficaz concisão que caracteriza todo o livro), com a preciosa ajuda de Nietzsche, defender o contrário: o filme celebra antes a obsessão por uma perfeição vitalista, perfeição que pressupõe sempre uma estetização acompanhada de inúmeros fetiches (todos recenseados no livro, que nada deixa passar em claro), ou, como diria Cioran noutro contexto, este objecto de Anger pressupõe uma obsessão estética de onde não se pode sair incólume; portanto, algo aqui se posiciona contra a beatitude, piedade e castidade crísticas, que Nietzsche desprezava e nem em Wagner perdoaria (veja-se o seu ataque ao Parsifal, entre outros textos).

    No significativo capítulo intitulado «Kenneth Anger e as suas implicações para o cinema de transgressão americano» (situado no final da Parte II), Ondina Pires faz menção a um tópico determinante da sua pesquisa e argumentação: há uma relação estreita (de causa e efeito, intercambiáveis, digamos, não se distinguindo uma do outro) entre a transgressão formal anti-mainstream, correspondente ao novo discurso cinematográfico de autores como Anger, Warhol, Paul Morrisey e Jack Smith e a representação de sexualidades alternativas. Ora, é este paralelo entre a sexualidade alternativa, a homossexualidade neste caso concreto, e um formulário cinematográfico radicalmente inovador (novo, inédito, sem precedentes e à beira da reinvenção do próprio cinema), que instaura no texto de Ondina a análise da presença da sexualidade no filme, ou seja, a análise dos modos dessa presença e a forma como vão, digamos assim, travestindo a narrativa e o enredo. Que se liga à extrema masculinização das personagens e seus feitos, misoginia que dos seus interstícios veicula os signos omnipresentes da homossexualidade.»

[ Ler o resto no livro ]

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Anger. Foto de Inauguration of the Pleasure Dome (1954).

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