A política escavacada

Há quem detecte no nosso Presidente uma ideologia conservadora. Mas eu creio que é bem pior do que isso. A ignorância humanística de Cavaco Silva é tão radical e auto-suficiente que tende a transformá-lo num ente apolítico. Ele vê a política como um subproduto infeliz, uma poluição fadada a obscurecer e macular o verdadeiro centro da existência humana: o Trabalho. Assim, não consegue compreender que assuntos como o «emprego, a segurança, a justiça, a saúde, a educação, a protecção social e o combate à corrupção» sejam vistos de formas diversas por cidadãos e organizações com pontos de vista políticos antagónicos.
E lá desata ele a incitar «consensos» que não existem porque não podem nem devem existir. O PR não percebe que um sistema democrático funciona bem quando apresenta diferentes formas de solucionar os problema de um país, cabendo ao voto popular escolher uma.
Este não é um inocente e consensual apelo à concórdia: é sim um convite à ultrapassagem e à obsolescência da própria democracia. Aquilo a que Cavaco chama «querelas político-partidárias» é o ruído do normal funcionamento da vida política moderna; se calhar é um barulho que incomoda o sono ao inquilino do palácio de Belém. Mas não é por isso que o vamos desligar.

Auto-gamado daqui

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4 Responses to A política escavacada

  1. carlos fonseca diz:

    Tudo o que Cavaco sabe está reflectido nos seus discursos. É um tecnocrata froixo. O contributo dele, no passado, para os problemas de hoje atestam a falta qualidade para a governação e a política.
    Cá vamos ‘cavacando e socrateando’…até ver.

  2. Antónimo diz:

    A propósito do discuso de Cavaco, o Público Online titulou que Cavaco disse que se fossem “tomadas as medidas correctas a crise seria ultrapassada”. Bem digno de La Palisse e do querido Almirante Tomás.

  3. rosarinho diz:

    Eu cá vou observando, cada vez mais como ET.
    O meu mundo é cada vez mais outro (embora já me tenha apanhado a agradecer – nem sei muito bem por que razão (?) – haver alguns que não tenham enchido os seus bolsos no meio de tanta perversão…).
    Não me revejo em nenhum partido da esquerda à direita, da direita à esquerda…
    Só não perco é a capacidade de me indignar… de abrir a boca com estupefacção ao desenrolar de tantos enredos… e tanta subversão… há CÚMPLICES em todo o lado, até de quem menos se espera, até nos que são mal-tratados e integram a multidão… e correm tão depressa, como os “amados” líderes, para se lançarem num gigantesco e “alegre” mergulho para dentro do ABISMO SEM FUNDO…

    Eu cá sou crescentemente ET, uma “Outsider” por opção…

  4. Patricia diz:

    Não votei Cavaco nem gosto muito do seu estilo da fazer politica,mas efectivamente quem tiver a paciencia de assistir aos debates na AR,verifica que se perde muito tempo a discutir o acessório,a aproveitar a cobertura televisiva para ver quem consegue maiores audiencias,a criar factos politicos de noticias de jornais para o diz tu e agora digo eu.È decerto estes espectáculos e não a discussão do essencial que afasta os cidadãos da politica,e que por vezes ouvimos dizer que os politicos são todos iguais.

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