A exposição de atrocidades?

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Inevitável, nos obituários de J. G. Ballard, parece ser a remissão para as duas mais conhecidas longa-metragens baseadas em romances seus: O Império do Sol e Crash. Se o filme de Cronenberg é uma obra-prima, e prova de que é possível aderir integralmente ao espírito de uma obra literária sem deixar de se produzir grande Cinema, já o outro terá sido um semi-fracasso: o onirismo sombrio e cruel do romance perdeu-se, substituído por uma aventura juvenil escorreita e sentimentalona (além de se ter sumido, algures na sala de montagem, o cameo do escritor).
Não deixa de ser estranho que um ficcionista tão visual, tão dedicado à criação de belíssimas e intensas paisagens – sem esquecer o seu habitat natural, as cidades e labirintos de betão – apenas tenha dado origem a um grande filme. Mas tal não aconteceu por falta de tentativas. Começando pelo que o próprio Ballard chamou «without doubt, the worst film ever made», When Dinosaurs Ruled the Earth, e talvez terminando em High Rise, prestes a ser produzido desde os anos 70. Pelo caminho, muita tralha ficou: desde o mauzito e português Aparelho Voador a Baixa Altitude, de Solveig Nordlund (de quem estava capaz de jurar que também vi uma execrável curta baseada no conto Thirteen to Centaurus), ao muito bom, muito bizarro e quase invisível Atrocity Exhibition – adaptado do “romance” homónimo, que Ballard tinha por «infilmável». Até há uns meses, a razoável versão da BBC de The Enormous Space estava integralmente disponível no YouTube. Pode ser que agora alguém a deixe lá ficar mais uns dias, à laia de homenagem…

Auto-gamado daqui

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2 Responses to A exposição de atrocidades?

  1. Também desapareceu do Youtube uma versão de Thirteen to Centaurus, uma adaptação para a série Out of the Unknown.

  2. Pingback: cinco dias » Viagem a Orion

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