“Não haverá no mundo um número suficiente de terroristas enquanto existir o capitalismo imperialista americano”

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Cá volto eu a falar dos Straub, Jean-Marie e Dinièle Huillet, cineastas, do comunismo e do necessário elogio do terrorismo. Volto ao assunto no momento em que acaba de sair o volume 4 da obra cinematográfica dos Straub pelas Éditions Montparnasse, caixa que contém, entre outros, os filmes dedicados à escrita e à visão de Cézanne (dois pujantes filmes onde são utilizados os diálogos entre o pós-impressionista Cézanne, talvez aquele que mais longe levou o problema da pintura enquanto crítica a um suposto sistema retiniano-passivo que nos constituiria – e o Impressionismo é o mais radical exercício retiniano que a pintura até hoje produziu – e Joachim Gasquet, diálogos retirados do livro deste último sobre o pintor): vemos pois Cézanne, de 1989, e o absolutamente obrigatório Une Visite au Louvre, de 2007. É então oportuno saudar esta ocasião retomando o discurso que os Straub enviaram a Veneza, Festival de Cinema, 2006, aquando lhes foi atribuído um Leão de Ouro Especial pela obra global (e a pretexto do belíssimo Quei Loro Incontri, 2005). Jean-Marie enviou ao festival 3 mensagens:

Primeiro)
Vem este prémio demasiado cedo para a nossa morte e demasiado tarde para a nossa vida.
De qualquer modo, agradeço a Marco Müller [director da Mostra] pela sua coragem. Mas que espero eu disto? Nada. Nada de todo? Sim, espero uma pequena vingança. Uma vingança «contra as intrigas da corte» como se diz em La Carrosse d’Or [Jean Renoir]. Contra tantos rufias.

Porquê Pavese [de quem os Straub partiram para o filme Estes Encontros com Eles / Quei Loro Incontri] ?
Porque escreveu:
Comunista não significa apenas querer ser. Somos demasiado ignorantes neste país. Necessitamos de comunistas que não o sejam, que não se apropriem desse nome.
E ainda:
Se em tempos era necessário fazer uma fogueira para produzir chuva ou queimar um vagabundo para salvar uma colheita, quantos proprietários necessitamos de queimar e matar em estradas e praças para que o mundo se torne justo e possamos dizer as nossas palavras?
(…)

Segundo)
Eu estive:
1. No Festival de Veneza (como jornalista) em 1954, e escolhi escrever sobre três filmes:
Sansho Dayu / O Intendente Sansho [Mizoguchi]
El Rio y la Muerte [Buñuel]
Rear Window [Hitchcock]
Nenhum prémio!
2. No Festival de Veneza (curtas metragens) em 1963 com o meu primeiro filme, Machorka-Muff (1962): nenhum prémio.
3. No Festival em 66 com Nicht Versöhnt / Não Reconciliados, 1965.
A projecção foi paga por Godard.
4. No Festival com Crónica de Anna Magdalena Bach !
5. No Festival para uma retrospectiva em 1975 (pretendida por Gambetti) de todos os nossos filme até Moses und Aron (1974), incluído.
Por fim, no Festival com Quei Loro Encontri para um Atroador Leão.

Terceiro)
Além disto, não posso estar festivo neste festival onde vejo tanta polícia pública e privada em busca de um terrorista – Eu sou o terrorista, e digo-vos, parafraseando Franco Fortini: não haverá no mundo um número suficiente de terroristas enquanto existir o capitalismo imperialista americano.”

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7 Responses to “Não haverá no mundo um número suficiente de terroristas enquanto existir o capitalismo imperialista americano”

  1. JMG diz:

    “Se em tempos era necessário fazer uma fogueira para produzir chuva ou queimar um vagabundo para salvar uma colheita, quantos proprietários necessitamos de queimar e matar em estradas e praças para que o mundo se torne justo e possamos dizer as nossas palavras?”

    Como é evidente, as fogueiras nunca produziram chuva e a queima de vagabundos nunca salvou colheitas. O resto, mesmo num registo irónico e alegórico, dá calafrios.

  2. Chico da Tasca diz:

    “Se em tempos era necessário fazer uma fogueira para produzir chuva ou queimar um vagabundo para salvar uma colheita, quantos proprietários necessitamos de queimar e matar em estradas e praças para que o mundo se torne justo e possamos dizer as nossas palavras?”

    Dado que todos somos proprietários, quanto mais não seja de nós mesmos, e dado que que a comunalhada a primeira coisa que faz quando abocanha o poder é roubar as pessoas delas mesmas reduzindo-as a nada, e dadas as palavras acima transcritas, que não são mera figura de retórica, e representam na sua essência a essência do Mal que está subjacente ao Comuno-Fascismo, digo :

    Um comuna bom é um comuna empalado !

    É por isso que uma potência como os Estados Unidos foram são importantes na luta contra as Forças do Mal que o Comuno-Fascismo é !

  3. Carlos Vidal diz:

    Chico da Tasca, vamos lá a ver uma coisa, esse seu nome interessantíssimo é um heterónimo, um pseudónimo, o que é?
    Qual é o jogo? Diverte-se? É claro que você não pensa o que escreve, porque ninguém pensa o que você escreve.
    Será que é um verdadeiro homem de esquerda que anda por aqui a fazer testes? Um trabalho de campo?
    Um sociólogo brincalhão?
    Mas, de qualquer maneira, continue, a sua comentalhada está entre o que com mais piada leio pela blogosfera.
    Malhe neles e com força!

  4. Mariam diz:

    Sempre a fogueira. estes gajos adoram fogueiras.

  5. Luís Antunes diz:

    Esse Cassete Vidal ! Mandava – o p ‘ra Sibéria! Também tenho obras de Richard Strauss ( Pierre Boulez na regência), Franz Lehar , as sonatas “quaze una fantasia ” , do surdo ( interpretadas por Maria João Pires ) ,Bela Bartok, a primeira gravação , baseada nos manuscritos , da Sinfonia inacaba de Schubert, canções de Shubert interpretadas por Fiescher – Dieskau , Robert Schumann……

  6. Luís Antunes diz:

    Obrigado , Cassete Vidal ! Bin Laden conta contigo!

  7. Pedro diz:

    O titulo da thread diz tudo.

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