Para acabar de vez com o assunto “Câncio – José Sócrates”

1. Vejo que, hábil e tacticamente, Fernanda Câncio vai-se aproveitando de uma mais do que legítima onda de indignação face ao seu jornalismo, ampliando dia-a-dia uma absurda e conhecida vitimização. Eu tentei não falar do assunto, tão patético me parece discuti-lo, como se viu num outro meu post, onde disse ir dissecar o caso e acabei por falar de um tema, esse sim, sério: a fotografia segundo Susan Sontag. Houve quem reparasse e percebesse as minhas intenções, outros não. Como o assunto me parece absurdo e inútil, e Câncio capitaliza-o para ampliar espaço e voz, contando neste blogue com surpreendente solidariedade, não acrescentaria nada ao que atrás escrevi numa caixa de comentários apropriada. Repito-me portanto, voltando ao assunto, para, se possível, o arrumar:

2. «Eu, como crítico de arte e ensaísta, posso prefaciar todos os catálogos da minha mulher ou companheira. Todos. Todos mesmo todos.

Já como crítico de arte num jornal ou numa revista de arte não posso seleccionar, para que eu próprio as analise, todas as exposições da minha mulher ou companheira, e sobre elas escrever sempre sempre as maiores maravilhas. Nesse sentido, porque não também dedicar-me a desancar noutras mulheres artistas e em críticos que não apreciam a obra da minha mulher ou companheira?

Como resposta, recebi uma ideia estúpida:

Não se deve “trazer para o assunto questões como relações familiares, de namoro…….” Ora, deve-se trazer, sim. Explico.

Isto pode passar-se tanto com marido e mulher ou namorada e namorado, como com pai e filho (uma “relação familiar”, portanto): nunca por exemplo Alexandre Pomar, no “Expresso”, escreveu críticas sobre a pintura do seu pai, nem nunca o vi escrever sobre o irmão Victor Pomar. Acrescente-se que isto, por vezes, nem passa por relações pessoais. Outro exemplo: um crítico prefacia um catálogo. No seu jornal, não vai escrever sobre essa exposição.

Outro caso: Augusto Joaquim, ensaísta já falecido, marido da genial (opinião minha) Maria Gabriela Llansol, também já falecida, prefaciou-a várias vezes. E escreveu muito sobre Llansol nos livros da autora. É também verdade que escreveu sobre a sua mulher em jornais, evidentemente, mas em dossiers sobre ela, Llansol, de quem ele era magistral exegeta. Mas não tinha carreira de crítico literário e, mesmo que tivesse essa carreira ou profissão, não iria recensear os livros da mulher semanalmente, por muito que os achasse obras cimeiras da literatura portuguesa que eram e, felizmente, são».

3. Por fim, não gosto absolutamente nada de “debater ideias”, frase usada e abusada para tudo e para nada. Um exemplo que me agrada muito. Deleuze, conferenciando, expunha as suas teses; seguidamente, nos momentos de perguntas ou críticas (julgo que por mais de uma vez), repetia sempre Deleuze – se lhe colocassem objecções – “você tem toda a razão. Concordo com tudo o que disse. Passemos pois ao ponto seguinte”.

Também eu concordo com tudo, mas mesmo tudo, o que dizem aqueles que defendem o jornalismo e a voz “independente e livre” de Fernanda Câncio e com ela se solidarizam. Passemos pois ao ponto seguinte.

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7 Responses to Para acabar de vez com o assunto “Câncio – José Sócrates”

  1. Brilhante na explicação. Mas não deveria ser preciso explicar o óbvio.

  2. Luis Rainha diz:

    Agora, deixei de perceber. Qual é a diferença entre escrever sobre a mulher num dossiê de jornal a ela consagrado ou opinar sobre um namorado político numa coluna de opinião? E note-se que a Fernanda Câncio nunca fez isto: ela é suficientemente esperta para evitar escrever elogios directos ao quase-engenheiro.
    “Magistral exegeta” ou mera escrevinhadora de crónicas assim-assim, não estariam sujeitos à mesma reserva, ao mesmo pudor?

    Por outro lado, já é para aí a quarta vez que explicas a tua brilhante/sarcástica/sontaguesca elipse/paráfrase/paralipse. Isso dá-te um certo ar de Mário Soares a apontar para si mesmo enquanto descreve os seus feitos de grande estadista:-)

  3. almajecta diz:

    Não assunto, queres tu dizer.
    Lá se vai a pintura de ideias bem como os princípios do idealismo romântico classicista.
    Sai uma dose de “linguage” em moderneirice mui á moda da áfrica do sul.

  4. Carlos Vidal diz:

    Luís, é muito pertinente a observação do teu segundo parágrafo (não contei as vezes).

    Quanto ao problema do dossiê e da coluna de opinião: parece-me que não se trata só de uma coluna de opinião. Há uma coluna de opinião, há colunas de “biografias” cirurgicamente “certas” no tempo e modo (Min. da Educação, Vital Moreira, etc).
    Mas, em substância, a diferença é total entre coluna de opinião semanal e um dossiê que pode sair uma vez numa década, etc.

  5. Camelo no buraco da agulha? diz:

    CV

    “tão patético me parece discuti-lo”

    dito por outras palavras?

  6. Camelo no buraco da agulha? diz:

    Tanta explicação, tanta repetição, tanta vaca fria,

    “Como o assunto me parece absurdo e inútil”

    tanta falta de ocupação, tanta inutilidade, tanta patetice, até torna o caso quase-patético.

  7. publicas-me isto? diz:

    É pá que granda jornalista da treta.

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