in memoriam

eve
Eve Kosofsky Sedgwick faleceu no dia 12 de Abril. Só soube hoje…
Quando há 10 anos exactamente, me cruzei com a edição em castelhano do seu livro “Epistemology of the closet” li algumas das mais encantadoras páginas sobre a minha própria sexualidade.
Sempre me senti mais próximo da teorização de Sedgwick que do trabalho de Judith Butler. Existe um livro dela “Touching Feeling: Affect, Pedagogy, Performativity” (2003) que tem sobre a temática da performatividade uma das leituras mais lucidas que conheço.
Quanto ao “Epistemology of the closet” foi editado em Portugal – pela Angelus Novus – o ensaio de abertura da referida obra (existe ainda na revista brasileira Pagu uma edição de maior acessibilidade).
Há alguns anos, num trabalho científico sobre vivência gays e lésbicas na cidade de Coimbra, escrevi (as referencia bibliográficas são da edição da Angelus Novus):

O ensaio ‘Epistemologia do Armário’ de Eve Kosofsky Sedgwick é um dos textos fundamentais da ‘teoria queer’ ao propor “que muitos dos ‘nós’ principais do pensamento e da cultura ocidental do século XX estão estruturados – de facto fracturados – por um crise crónica, hoje endémica, de definição da homo/heterossexualidade, sobretudo a masculina, e que está datada desde o final do século XIX” (Segdwick, 2004:11)
Bem no início do seu ensaio Eve Kosofsky Sedgwick reforça o olhar bifocado sobre a metáfora do armário afirmando que, ao mesmo tempo, “o armário responde às necessidades representacionais mais intímas” (Segdwick, 2004:9) e por outro lado “o armário é a estrutura que melhor sintetiza a opressão gay deste século” (Segdwick, 2004:11)
Assim para os homossexuais o armário, e as suas múltiplas construções societárias, constituem uma forma de resistência, como pois como afirma Sedgwick “a epistemologia do armário conferiu à cultura e à identidade gay uma maior consistência ao longo deste século” (Segdwick, 2004:8) criando modelos específicos (invisíveis e codificados) de sociabilidade urbana, como sejam as formas de ‘engate’ em espaço público urbano.
Mas o armário é também o símbolo da mentira, da opressão pois a “a robustez do armário é permanentemente confirmada” (Segdwick, 2004:12) estando sempre presente no modo como as vivências sociais e espaciais se constroem, pois como afirma Sedgwick “ele continua a afirmar-se como um elemento fundamental do seu relacionamento social; por mais corajosos e francos que sejam, por mais afortunados quanto ao apoio das suas comunidades, serão poucos os gays em cujas vidas o armário deixa de constituir uma presença central”. (Segdwick, 2004:8) num jogo, louco e esquizofrénico, em que “estar dentro do armário e sair do armário são imagens que interagem com regularidade” (Segdwick, 2004:11).
É neste jogo de entrar e sair do armário, de assumir – em ritmos, registos e espaços diferenciados – pois como disse alguém um dia o mais difícil assumir é perante o “eu homossexual” – é neste jogo com o armário que se faz o quotidiano dos homossexuais, nesse quotidiano de espaços públicos, semi-publicos e privados.
Este jogo é estranho, difícil e muitas vezes cheio de regras desconhecidas, cheias de incoerências fortes, como seja do discurso “senso-comum” que continuamente nos remete para a invisibilidade do espaço privado, uma “incoerência (…), enfaticamente contida nos termos da distinção entre público e privado” mas que ao mesmo tempo “corrói o actual quadro que regula a existência gay” (Segdwick, 2004:10) codificando “um sistema excruciante de “double blinds” – duplo contrangimento ou duplo entrave – oprimindo sistematicamente as pessoas, identidades e comportamentos gay, minando os próprios alicerces da sua existência através de restrições contraditórias impostas ao discurso” (Segdwick, 2004:11), ou seja uma sociedade que coloca lésbicas, gays no “quarto” (dizendo que esta questão é um aspecto estritamente privado) e oprimindo – com as crítica públicas à constituição de ‘ghetto’ urbanos – qualquer forma de visibilidade, e que controla assim os discursos e os espaços de afirmação e de visibilidade.

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