G20 summit – Commedia dell’arte internacional

 

–         “Ora bem, meus amigos! Eu estive lá e vi tudo com os meus olhos que a terra há de comer.”

 

Sempre desejei começar uma crónica à laia do historiador e professor José Hermano Saraiva. Não vou botar grande discurso porque não tenho tempo mas vou dar uma cor local ao encontro dos “big bosses” mundiais.

 

O dia 1 de Abril de 2009 foi um dia deveras interessante e não foi mentira. A coisa começou de mansinho, pela manhã. Ranchos de malta afreakalhada e com boas intenções assentou arraiais nas zonas estratégicas da City: tendas, tupperwares, slogans patetas, cães cheios de  pulgas, malabaristas, corneteiros, pandeiros… Uns quantos moços ditos “anarquistas” escrevinharam coisitas nas paredes do Banco de Inglaterra tais como “Money is for losers!” .Pobres moços, românticos e trôpegos, como diria José Cid. Todavia, estes manifestantes não ficaram em casa a “rosnar” contra o capitalismo. Eles tentaram de forma ingénua e antiquada protestar contra o injusto e obsceno desfalque de milhões de doláres/euros, o qual prejudicou quase toda a gente por este mundo fora.

 

Entretanto, em 10 Downing St. era um vaivém de carros topo de gama, a primeira dama para a esquerda, a segunda para a direita. Muitos sorrisos, muito Pepsodent ou Colgate, sei lá eu. Mas a estrela que todos queriam almejar era o simpático e bem apessoado presidente Obama. É espantosa a sua popularidade – Obama é já um ícone global! Ok, ele tem carisma, também tem boas intenções, blá, blá mas ele representa um dos países mais capitalistas do mundo e, como toda a gente está fartinha de saber, a porcaria da recessão começou com os bancos americanos! Então porque é que Obama é visto como um santo com físico de actor de cinema? Ou como o Kennedy negro? Ou será que estávamos tão fartos da administração Bush que acreditámos ter encontrado uma luz no fundo do túnel? Ou será ainda que existe um forte sentimento de culpa dos brancos em relação às coisas atrozes feitas no passado relativamente aos negros? Por exemplo, a história horrível da escravatura?! Apre! Que eu hoje estou muito perguntadeira.

 

Entretanto, lá para a uma da tarde, os acontecimentos já estavam a ferver em lume brando. Alguns manifestantes desataram a berrar que nem vitelos desmamados contra os cordões policiais  e, daí a pouco, mimosearam polícias e circunstantes com garrafas e outras doçuras quejandas. Por outro lado, para quê tanta polícia? Para fazerem frente a pessoas desarmadas? Que diacho de democracia é esta? Bom, a coisa foi subindo de tom mas nunca chegou a ser altifalante. Os espectadores comodamente sentados em frente dos televisores, a roerem a unhas e a pelarem-se por um Maio de 68 em Abril de 2009. O tanas! Niente, rien, nothing.

Muitos dos idealistas foram presos, um homem faleceu mas com um ataque cardíaco, os cães foram apanhados de surpresa para serem desparasitados e lá para as seis da tarde a malta dispersara.

 

Por sua vez, os líderes mundiais haviam absorvido os cocktails de camarão, o caviar e pousavam para os repórteres fotográficos, estilo revista Nova Gente. Porque a boa da porca da política é feita nos bastidores. Pela frente é só conversa de chacha para espectador acreditar. Foi aí que se deu o pitoresco incidente do primeiro-ministro italiano Berlusconi a chamar “Mister Obama! Mister Obama!” em altos berros como se estivesse numa trattoria. A rainha Isabel II foi mesmo patusca e mostrou cara feia. Está no You Tube para toda a gente ver.

 

Quanto ao primeiro-ministro francês Monsieur Sarcozy, também deu o ar da sua graça ao fazer beicinho e pedir alvíssaras para o povo francês – ora bem, ele está é com medo! Ai dele se não levasse um bom quinhão para França. Nã, que os franceses são tesos!

 

No final, todos pareciam muito satisfeitos, em particular Gordon Brown e Obama, muito juntinhos em frente dos documentos, a “irmandade anglo-saxónica” mais uma vez vencedora.. Segundo as opiniões dos comentadores foi tudo um grande sucesso – a recessão vai ser vencida, os pobres vão ser ajudados, os paralíticos vão caminhar sobre as águas e por aí fora. Espero sinceramente que sim mas como diz o provérbio: “Ver para crer como São Tomé!”.

 

Como nada mais tinha a fazer pela City rumei a Camden Town para assistir a um concerto dos míticos The Fall. Mark E. Smith, poeta, músico e mentor da banda, estava melhor do que nunca – ele sim, anarquista de boa cepa – a “cuspir” as suas palavras sarcásticas, a vociferar a descrença em qualquer tipo de associação política, a esconder-se atrás dos amplificadores para dar a maior projecção possível aos seus fabulosos músicos:

-“REFORMATIOOOON…POST  TLC ehhhhhhhhhhhhhhh … BRRRRRRRRR!”

 

Londres, 5 de Abril de 2009

 

 

 

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1 Response to G20 summit – Commedia dell’arte internacional

  1. zenuno diz:

    Olá!
    Gostei da tua visão das coisas. 🙂
    Bjs.

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