Com um dia de atraso, eis o meu comentário sobre o comunicado do Procurador Geral

Perante as contradições deste comunicado que afirma não haver pressões sobre os magistrados do Freeport, mas ao mesmo tempo diz que um outro magistrado (antes Secretário de Estado de um governo de Guterres) está em investigação por suspeita de pressões, não podemos deixar de reagir com extrema contundência. Ou seja, para aqueles que não se inquietam grandemente com o facto de, depois de ouvir uma majestosa sinfonia de Brahms, passarem para um concerto para piano e orquestra de Beethoven sem que a orquestra mude substancialmente de efectivos, ideias interpretativas e respectiva massa orquestral (intensamente romântica), sugiro a seguinte integral destas obras, que julgo uma das melhores de sempre (e aqui dizer que se trata da “melhor” é impossível, mas talvez eu a esteja a sugerir como tal): trata-se da interpretação de Wilhelm Kempff, provavelmente o “proprietário” mais destacada da obra pianística de Beethoven, com a Orquestra Filarmónica de Berlim e direcção de Paul Van Kempen, uma preciosidade de 1954, na Deustsche Grammophon. Mas, para quem prefere ou exige uma experiência interpretativa de reconstituição filológica radical, ligada a uma verdade da época sem quaisquer concessões, indico de imediato a espantosa interpretação fruto de uma profunda e séria investigação musicológica, interpretação e direcção orquestral de Arthur Schoonderwoerd (que utiliza um pianoforte vienense J Fritz de 1807 – concertos 4,5 e 6 – e uma réplica de pianoforte A. Walter de 1800, no concerto nº 3), acompanhado pelo pequeníssimo ensemble (com instrumentos de época) Cristofori (dois CDs para já: o 4º e 5º concertos em 2005; o 3º e 6º em 2008; para os próximos meses, anunciam-se os restantes: o 1º e 2º concertos).


Estas obras e esta integral, um dos picos mais altos da história da música, são habitualmente interpretadas, como disse, por uma grande massa orquestral, julgada apropriada ao romantismo. Mas, Schoonderwoerd optou por um procedimento totalmente distinto. Baseou-se em estudos de Stefan Weinzierl, e teve em consideração as pequenas dimensões da sala de concertos do palácio do príncipe Leibkowitz onde estas obras foram apresentadas. Estudou as condições acústicas deste espaço (teve em conta o tempo de reverberação de 1,6 segundos com a sala cheia), tudo pesado optou surpreendentemente Schoonderwoerd pela seguinte distribuição instrumental (abandonando a orquestra sinfónica, claro): 2 violinos, 2 violas, 2 violoncelos, 1 contrabaixo, 2 flautas, 2 clarinetes, 2 oboés, 2 fagotes, 2 trompas, 2 trompetes, tímpanos e o pianoforte solista, em suma, pouco mais de vinte instrumentistas (!!!). Reposta provavelmente a verdade destas obras, recomendo a qualquer amante de Beethoven os discos de Arthur Schoonderwoerd (edição Alpha, Alemanha), pois nunca estes concertos foram assim ouvidos. Pode estranhar-se entretanto um outro facto – o falar-se de um concerto nº 6, quando julgamos saber que Beethoven escreveu apenas 5 concertos para piano e orquestra. Schoonderwoerd baseia-se em vários manuscritos existentes nas Bibliotecas Nacionais austríaca e britânica, e devolve-nos este concerto nº 6, em tudo idêntico ao único Concerto para Violino e orquestra do compositor (o Op. 61, enquanto a versão para piano é Op. 61 a), pois Beethoven sempre admitiu que esta obra podia ser trabalhada solisticamente por um ou outro instrumento. O resultado é admirável. Uma integral para todos os tempos.

beethovenkempen

beethovenschoonderw

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

6 Responses to Com um dia de atraso, eis o meu comentário sobre o comunicado do Procurador Geral

Os comentários estão fechados.