Coisas que nascem nos posts (2)

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Sei que devia ser conciso. Mo-no-ssi-lá-bi-co, de preferência. Tenho o discurso de cor, pronto a ser dividido nas muitas, muitas parcelas que venham a ser precisas. Imagino que ninguém alguma vez irá reconstruir o fóssil estilhaçado das minhas palavras, da minha história. Mas se estás a seguir-me, improvável espectador, já agarrei a tua atenção; posso alongar-me por mais uns dias, meio segundo de cada vez, fonema a fonema, frame a frame. A urgência do que te conto não tem nome, mas o meu ritmo é inescapável. Tal como a minha vontade de saborear o verbo para lá do osso do essencial. Tem paciência. Como eu.
As criaturas do ínterim. Agora, parece-me apenas natural que as tivesse descoberto. Fotógrafo de tantos casamentos, festas e funerais, repositório de infindas expressões. Como não as vislumbrar de chofre, mais tarde ou mais cedo? Sobretudo depois de trocar a lenteza dos químicos pela claridade instantânea das câmaras digitais; quando me passou a ser igual recolher uma ou cem imagens do mesmo beijo, do mesmo arremesso de bouquet. Era inevitável.
Mas foi uma só, uma só imagem que me revelou a horda que agora reina em mim. Numa igreja, como depois me pareceu tão irónico. Uma avó com o recém-nascido ao colo, um novelo de tule encapsulando o seu pequeno passageiro em trânsito para o seio do Senhor, os sorrisos da família, o empenho ausente do padre, a magnífica luz que se despenha dos vitrais. E a objectiva: soft focus, mais e menos profundidade de campo, panorâmicas, detalhes, todo a mística da cerimónia em gloriosos 16,7 megapixels. Clic, clic, clic, clic. Como um fantasma passavelmente vestido, deslizo entre a criança, a pia baptismal, os pais, os fiéis já de imaginação presa ao banquete que se avizinha. Os belos clichés da minha profissão. Nunca poderia um Domingo assim assustar a minha vida para sempre. Ou.
Até ao dia seguinte, quando selecciono os instantâneos a vender. Entre as poses hieráticas, os momentos ternurentos e os sorrisos, uma outra imagem: a avó de rosto distorcido pelo que só pode ser ódio. Ela cospe um esgar de repugnância pelo recém-nascido ao seu colo. A captura daquela criatura mais animal que humana não parece fruto do acaso, instante sem significado de um qualquer espasmo muscular. Há nesta fotografia uma essência primitiva, uma força sem peias que nenhuma das outras sequer sugere. Passo em revista as demais imagens daquele baptizado: um décimo de segundo antes, lá está de novo a avó derretida em amor incondicional, segurando a criança como um tesouro de cristal. Mas atrás dela um parente qualquer parece bocejar num instante e no seguinte urra com a boca congelada em planos sem simetria, exibindo, rugindo os dentes afiados do pânico.
Há mais imagens assim. Da avó. Dos convidados e até do sacerdote, como se uma revoada de súcubos se tivesse infiltrado na nave daquela igreja pelos interstícios dos sorrisos, pelos centésimos de segundo entre a beatitude e o aborrecimento, pela hesitação entre duas sílabas inócuas de uma conversa sobre futebol, por um piscar de olhos distraído do tenente daquele espaço. Em todo o baptizado, apenas Cristo e o bebé se mantinham imunes à invasão.
Julgo agora que já carregava na memória respostas às questões que só então arriscaram uma visita à superfície. Quantos retratos felizes maculados por caretas sem explicação não teria antes encontrado sem os ver mesmo? Quantos gigabytes corrompidos? Nos armários, nos discos rígidos que logo passei em revista, centenas e centenas de instantâneos rejeitados pela mesma razão, outros tantos rostos tingidos pela mesma mácula no exacto momento de abertura da câmara ao mundo. Durante anos, tomara aquelas aparições por defeitos técnicos, prestando-lhes tanta atenção quanto a um reflexo imprevisto ou a uma dedada numa lente: aberrações imputáveis apenas ao fotógrafo, nunca ao mundo fotografado. Enganara-me, soube de súbito, com o susto do banhista que se afunda num lago sem ondas e o descobre infestado de predadores esfaimados. Havia ali não acaso mas propósito; não conjunções de pequenos nadas por capricho elevados à luz, sim um zodíaco de constelações negras, soletrando augúrios ainda por revelar.
Mas que descobrira, afinal? Bem pouco, quis convencer-me logo depois do primeiro arrepio. Apenas as infindas capacidades expressivas do rosto humano. Melhor: a forma descontínua como as nossas expressões aquiescem à vontade que as comanda. Ao passarmos de uma máscara para outra, não escolhemos a rota mais directa; deixamos que os músculos que definem expressões e estados de espírito sigam os seus próprios caprichos, libertamo-los por fracções de segundo da sua missão. É assim, concluí eu, que o olhar instantâneo da fotografia nos apanha “a fazer caretas”. A súbita liberdade dos nossos corpos num piscar de olhos incautos. Um tic anómalo mesmo antes de tudo voltar ao normal com o tac da rotina sem sustos.
Apesar deste lenitivo, sentia ali mais. Tanta coisa para ler nos rostos assombrados do meu portefólio de imagens arruinadas. Significado, intenção, inteligência. Maldade? Como se o alfabeto calculado de rictos, sorrisos e esgares que usamos a cada instante carregasse consigo um subtexto oculto, um fluxo de mensagens em código que só a suspensão do tempo consegue desvelar. Na vida secreta dos nossos rostos, via emergir os contornos de um continente antes profundo, massas de magma ainda quente aguardando o desembarque dos exploradores para se fixar em milhões de mapas espantosos.
Como um naturalista empolgado pela descoberta de todo um novo ramo da Zoologia, lancei-me à caça. Em que outros habitats poderia descobrir as minhas ariscas entidades, vindas à luz deste mundo apenas pelo tempo de um deslizar de obturador? Cedo descobri que quase todos os meus DVDs estavam infestados. De quando em vez, a pressão na tecla de pausa iluminava mais um breve fugitivo daquele mundo de durações infinitesimais. Os enredos resumidos nas contracapas desdobravam-se afinal em milhões de scripts alternativos: na história de amor irrompiam os arrepanhos canibais; os confrontos de sangue viam a sua ferocidade dissolvida em sorrisos e ademanes de farsa; diálogos anódinos explodiam em trocas de ameaças de caninos em riste, os seus elencos de estrelas agora tribos de símios encenando paradas espasmódicas nas margens das deixas – e estas de súbito irrelevantes, escusadas, artificiosas até à inutilidade – juncadas de diálogos sem argumentista.
Decepção. A excepcional descoberta acabara de se revelar apenas mais uma regra corriqueira: qualquer grande plano de um rosto humano em movimento, a falar, a expressar ou fingir emoções, é decomposto pelas artes cinematográficas em 25 fragmentos por segundo. Descendo a esse reino do tempo quântico, feito de momentos descontínuos, colados apenas pela ilusão da persistência das imagens na retina, rasgam-se as fendas sem mesura por onde mergulham até nós os esquivos habitantes do ínterim. Com uma ressalva: os filmes de animação. Os rostos artificiais passam de uma expressão para outra sem desvios, sempre lógicos e imunes a desperdícios. Ao que parece, os desenhos animados ainda não têm alma que chegue para engendrar espectros.
E claro que não fora o primeiro a cair no alçapão que me precipitou neste mundo. A dor da enfermeira de celulóide enxertada no rosto do Papa de Velazquez, à mercê da crueldade combinatória de outro pintor, sempre atento aos dramas do instante. Muybridge e Marey, iniciais fotógrafos do tempo, recenseando os quanta intermédios do movimento de homens e animais – ou comprimindo-os em dunas que deslizam à velocidade das rodas oleadas do cronógrafo. As primeiras emulsões sensíveis à luz tinham logo revelado aos olhares mais curiosos o que ali se agitava, nas imagens entre as imagens.
Pronto. Teria assim ficado com mais um bricabraque para decorar conversas mortiças. Nada mais. Repeti esta fórmula da tranquilidade à laia de canção de embalar. Mas as aparições persistiam, bem depois de desligadas as minhas retinas. Começara a sonhar com elas; acordava suado e frio, quase, quase a compreender uma palavra muda que me gritavam dos cristais líquidos de um qualquer monitor sobreaquecido, dos meus dossiês festivos e agora jamais pacíficos. Era como tentar ler textos em Latim, palavras a milímetros das nossas – mas na realidade à distância de séculos – quase entendidas, quase a compor significados e ideias. Mesmo sem o conseguir, a proximidade do sentido deixava fantasmas no meu entendimento, ecos de uma biblioteca sempre a crescer algures numa cave sem acesso. Sabia, julgava saber, imaginava saber, que os cidadãos do ínterim queriam falar comigo, expor motivos, desejos, vidas ocultas a um dos poucos que os vislumbrara. Assustava-me a ideia. Mas como resistir depois de contaminado?
Pior. Como não os procurar no mundo, sem mediação da tecnologia? Queria certificar-me de que não estava em presença de um mero, sigamos o jargão da tecnologia, artefacto, imagens vítimas do ruído que se imiscui na compressão – jpeg, mpeg, nomes de campos de refugiados que guardam contingentes de rostos corrompidos, desfigurados – aleijões caídos nas lutas fronteiriças dos reinos das imagens digitais. Como desejava encarar pelo menos um deles sem um ecrã de permeio.
A minha invenção pareceu-me feliz, como todas as artimanhas dos simples: comecei a treinar as pálpebras até conseguir piscar os olhos numa cadência desvairada. Por certo que não atingiria sequer as 16 imagens por segundo de que dependiam as primeiras ilusões dos Lumière; mas parecia-me armadilha suficiente. E foi-o.
De óculos escuros a ocultar a presença do meu rudimentar estroboscópio, sai à rua e iniciei a caçada. Apenas a conseguia sustentar por escassos minutos de cada vez – depois, os músculos de que assim abusava desistiam, derretendo-se em pequenos sofrimentos em paragens inéditas. Mas não era fácil surpreender conversas mantidas em público. Nos passeios, nos comboios, nos nadas que enchem as cidades, todos corriam embrenhados em solitárias conspirações, evitando olhares alheios, falando mais para os seus telefones de bolso do que para o companheiro de viagem ou para o cônjuge aborrecido. Mas o primeiro restaurante em que entrei revelou-se a reserva de caça perfeita: entre o álcool e a necessidade de ultrapassar o burburinho amplificado pelas paredes de azulejos, todos ali berravam, esquecida qualquer veleidade de discrição, sem mãos pudicas a esconder conversas revestidas a espinhas e espuma de cerveja. E o álcool também relaxa os censores que guardam as improváveis pontes, propiciando a passagem das criaturas. Ali, elas eram legião.
Fico parado, amparo-me ao balcão escorregadio, pestanejando por detrás das lentes fumadas como que nos pródromos de um ataque de grand mal: hipersensível à luz, pálido, indiferente às chamadas de atenção de quem quer passar. Compreende: nunca os tinha visto assim, à solta no mundo. E os meus olhos intermitentes revelam-me agora muito mais: eu vejo-os a conversar entre eles. Não que consiga entender o que dizem, mas capto com nitidez plena a forma como eles se encaram, como a um esgar ínfimo responde uma réplica instantânea na outra ponta da sala, em ondas telegrafadas que ricocheteiam nos azulejos com cenas campestres, esgueirando-se entre as corriqueiras confidências sobre o jogo da véspera, o último escândalo do governo. Sim. Circulam diálogos subterrâneos, usando as conversas normais como a onda portadora de uma emissão de rádio: sons, gestos eloquentes, modulações de timbre, tudo ali é um veículo para as trocas de significado que realmente importam. Não há em parte alguma ruído capaz de calar a clareza daquele sinal.
Quanto tempo terei ali ficado, de olhos a piscar, janelas assustadas ante a visão de um novo mundo a emergir do mar da tranquilidade de todos os dias? O suficiente para ser também visto. Isso é certo. As ondas ganham centro comum: o significado que se aclara à medida que as portas da cave se entreabrem: o que eles berravam mudos, quase em uníssono: “ele sabe!”

O resto da minha queda conta-se em escassas palavras. E depressa, pois pode não te restar muito tempo aí, de atenção pontilhada em mim.
Corri para casa. Não conseguia aquietar as pestanas, devolver a minha visão à quietude do normal. Fechei-me longe da porta, na única divisão sem janelas, escondido dos seus urros em silêncio, das caras distorcidas que agora me procuravam aqui, lá fora, onde quer que fosse. Mas havia naquela casa-de-banho um espelho.
Deveria ter imaginado que as criaturas do ínterim também tinham acesso à escada do meu rosto para emergir no nosso mundo. Claro. Porque não? Estavam ali. Tapei os olhos tarde demais. Se ao menos tivesse tido coragem para os arrancar logo.

Compreende. Eles não me podiam ter deixado livre. Não depois de saberem que eu os conhecia, que sabia onde viviam. Mas é uma coisa nova para eles, tomar conta de um corpo, cuidar de um tempo subitamente inteiro e lento. Como miúdos aos comandos de um 747, incapazes de manobrar flaps, músculos, rotas, os mínimos gestos das gentes contínuas. Estava lá longe quando alguém me encontrou. Depois, vim para este lugar higiénico, tão tranquilo. Não sei como aqui cheguei. Mas compreendo onde estou.

Agora, só me resta aproveitar as minhas janelas para ascender à luz. Por um centésimo, um milésimo do tempo de refluxo do meu próprio sangue, agora correndo em labirintos ruidosos, estranhos, alheios. Uma sílaba de cada vez. Sei que as câmaras de vigilância gravam tudo, dos suspiros das mentes perturbadas aos estremecimentos de corpos quase vagos. E resta-me esperar que haja quem vigie. Que estejas mesmo aí, improvável espectador. Uma sílaba de cada vez. Já agarrei a tua atenção? Posso então alongar-me por mais uns dias, meio segundo de cada vez, fonema a fonema, frame a frame?

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2 Responses to Coisas que nascem nos posts (2)

  1. Caro Luis Rainha,

    Chapeau!|

    Há muito que não lia nada tão bom na blogosfera, não me recordo mesmo de o ter feito. Alongue-se, por favor, por mais uns dias, semanas e por aí fora.

  2. Catarina diz:

    Mestre!
    Haja saúde e fome de espírito para saborear a tua poesia.
    A mim inspira-me.
    Considera-me espectadora vitalícia.

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