Porque devemos rejeitar de uma vez por todas a democracia parlamentar

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Géricault. “A Jangada da Medusa”. 1819.
1.
Porque a democracia parlamentar nos coloca permanentemente diante de um dilema viciado, um falso dilema ou um não-dilema: sendo nós forçados a legitimá-la, então ou nós a legitimamos continuadamente (participando numa forma sádica e perversa de autolegitimação) ou somos lançados para o exterior desse espaço legitimado como não democratas (radicais, loucos e irresponsáveis).
Neste sentido, a democracia parlamentar existe apenas para que nós, num círculo completamente fechado, corroboremos a sua perpetuação como único processo de organização da vida colectiva. Deste modo, a democracia torna-se imediatamente a inversão dela própria: ela apenas nos “pede” e anseia que confirmemos a sua existência eterna, para que ela sirva também eternamente o poder existente, que é, nada mais nada menos, que o poder económico. Ou seja, a democracia parlamentar tem um falso nome – o seu nome verdadeiro é “capital-parlamentarismo”.

2.

2.
Porque a democracia parlamentar é uma falsa sugestão de uma falsa alternância, ou uma alternância sempre entre os “mesmos e iguais”, sendo que apenas um destes “mesmos” pode ocupar, à vez, ora o 1º ora o 2º lugar no processo eleitoral. Mas até mesmo esta “alternância” é falsa, porque o que uma vez é 2º sabe, de antemão, que no próximo acto eleitoral será o 1º. Logo, de forma nada “democrática”, há uma pré-codificação entre o que pode ser e o que nunca pode ser um 2º lugar na disputa eleitoral: se uma outra força que não as “mesmas e iguais” ocupar este 2º lugar, deve sempre dizer-se que a “democracia está em perigo”.

3.
Impondo a sua perpetuação, a democracia parlamentar é, deste modo, a antítese da política, isto se entendermos – e não temos outra definição – a política como risco e invenção: a revolta de Spartacus, a revolta de camponeses liderada por Thomas Muntzer, a revolução francesa, a Comuna de Paris, a revolução de Outubro, a Revolução Cultural, o 25 de Abril, etc. Ora, sabemo-lo muito bem, o voto é a antítese da invenção: o voto não pode ser um acto político, o voto é uma obrigação de Estado e para com o Estado.

4.
A democracia parlamentar exige que sejamos tratados como corpos sujeitos à linguagem, isto é, para a democracia somos apenas entidades biológicas que vivemos e devemos continuar a viver numa espécie de jardim zoológico para a nossa própria protecção. Esta protecção efectiva-se num linguajar muito próprio, predefinido e único: trata-se da conversa sobre os “direitos humanos”. É esta a associação entre corpo e linguagem que nos paralisa e intimida, obrigando-nos a sustentar o capital e o poder económico.
Como diria Marx noutro contexto, não há um átomo de verdade nesta relação arbitrária, forçada e, no fundo, antidemocrática.

5.
Portanto, a democracia parlamentar, ou o capital-parlamentarismo, aprisiona-nos entre os valores da Ética (o linguajar dos “direitos humanos” aplicados ao homem porque este é um “animal frágil”, há ainda uma bioética, uma ética da concorrência, uma ética empresarial e um não mais acabar de linguajar previsível e pré-codificado) da Democracia pré-codificada (se um partido comunista pode vencer ou vence umas eleições, diz-se que “a democracia está em perigo” – veja-se Soares na Fonte Luminosa – logo, a democracia é antidemocrática) e da Piedade (o Estado e o capital são extremamente “benevolentes”, ajudando e cuidando dos “fracos” – até certo ponto, é bem de ver).

6.
Enquanto instrumento de perpetuação de si própria, a democracia é a perpetuação do Estado e do estado de todas as desigualdades. Por isso um movimento alternativo e verdadeiramente livre tem de nascer fora deste espaço pré-codificado – os camponeses de Mao e os zapatistas, por exemplo – e distante do Estado.
Isto é, um movimento livre não “concorre” à perpetuação do Estado capital-parlamentarista, não participará em “eleições” de onde a alternativa que pode resultar é o “mesmo” e fora desse “mesmo” reside sempre o “inimigo” da democracia.

7.
O movimento ou organização livre não “ameaça a democracia” porque não pertence à situação.

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26 Responses to Porque devemos rejeitar de uma vez por todas a democracia parlamentar

  1. m diz:

    Concordo com tudo. Estou desejando votar em pessoas e não em partidos de amigos. Partidocracia foi isso que a democracia parlamentar nos trouxe. Já provámos , não presta , toca de passar para o próximo degrau. Degrau a degrau , um dia ainda chegamos a um patamar minimamente satisfatório para todos.

    ( eu gosto de encarar isto assim como uma espécie de evolução)

  2. miguel dias diz:

    “Raciocínio altamente especulativo sobre o conceito de democracia.”

  3. Carlos,
    Andas a ler o Badiou às escondidas.

  4. Carlos Vidal diz:

    Nuno, quem?
    Estás a referir-te a algum estudioso de Géricault que eu não conheça?

  5. maria monteiro diz:

    ‘Degrau a degrau , um dia ainda chegamos a um patamar minimamente satisfatório para todos’
    Oxalá que cada um seja capaz de ir dando esses pequenos/grandes passos. Livremo-nos das escadas rolantes para caminhar rapidamente na vida… é que por vezes na ambição não se pára nesse patamar minimamente satisfatório para todos.
    Toca a passar para o próximo degrau

  6. maria monteiro diz:

    quem?
    Alain Badiou
    http://www.dailymotion.com

  7. Ricardo Guerra diz:

    Ó Vidal, isso é tudo muito bonito e tal, portanto e que tal você começar a planear a sua mudança para um dos dois paraísos democráticos do planeta? É fazer as malinhas e rumar a Havana ou Pyongyang. Ou esta vidinha de artista micro-burguês, de barriguinha cheia sabe-lhe assim tão bem? Sabe tão bem destilar veneno quando temos a certeza que esta noite não nos vão arrancar da cama de kalashnikov apontada aos miolos para nos depejarem amanhã na vala comum. O parlamentarismo dá mesmo cabo das massas, pá!

  8. Carlos Vidal diz:

    Caro Ricardo Guerra,
    Uma revolução ou um genérico processo de transformação social faz-se sempre para quem mais precisa, para quem nada ou quase nada tem (até o democrata John Rawls sabe isso). Por isso, seja em Havana, seja em Caracas, pode ter a certeza que os que mais precisam não vão acordar com kalashnikoves apontadas.
    De Pyongyang, nada sei.

  9. Carlos Fernandes diz:

    Carlos Vidal, as revoluções (de esquerda ou direita) muito raramente se fizeram para outros que não… os próprios revolucionários. Deixemo-nos de “merdas”, se me permite a franqueza. O povo? Foi sempre o pretexto.

    Sabe o que que dizia Danton (o célebre revolucionário francês, supostamente, tal como os seus pares da altura, democrata), dizia que o povo podia mandar, votar e exprimir-se livremente de tantos em tantos anos, não havia problems, dado que o “rebanho” tinha sempre pastores com os seus cães a conduzi-lo na direcção desejada.

  10. Caro Vidal,
    Julgo que os comentários são uma espécie de falatório. É nesse rol que incluo este.
    Para que queremos o Parlamento?
    O Parlamento pouco importa. Mas deve existir com o exercício dos poderes que neste momento desempenha, ou seja, pouco. Uma democracia com um parlamento cujos parlamentares parlamentem muito (cheguem por vezes a vias de facto – quem não gostaria de ver um Helder Amaral à porrada com o Bravo Nico) e não decidam nada, é mais eficaz que aquele que existe neste momento.
    A história deu-nos a Casa dos Vinte e Quatro e, mais recentemente, a Câmara Corporativa. A natureza lobística era-lhes intrínseca.

    Passados o fervor revolucionário, e a adaptação à democracia, voltou-se aos modelos clássicos de controlo da economia e da política que é sua companheira. A cultura democrática de parlamentares como Natália Correia ou João Amaral cede espaço à cultura da rectaguarda dos jotas todos que, com poucas expectativas, agarram-se à parafernália genital e trazem com ela a velhada em processo de aceleração do tempo (tendo em vista a reforma).

    Votemos em BRANCO. Viva o parlamento!

  11. Carlos Vidal diz:

    Caro Carlos Fernandes,
    Conheço Danton, mas melhor Robespierre, e estou convencido (ou mais do que isso) de que quando este disse “franceses, quereis uma revolução sem revolução?”, clamando pela energia necessária ao seu processo de transformação social, estava seguro de uma adesão do colectivo e das massas, as quais, na revolução, têm inevitavelmente um comportamento imprevisível (uma revolução é sempre um processo inédito). Logo, Robespierre, diferentemente de Danton, contaria com as massas e a sua força incontrolada. Como em Portugal em 1975. As massas tiveram uma força incontrolada. Esse termidoriano chamado Soares refreou as massas com chantagem e medo, esses sim previsíveis.

    Ludivine, bom tema proposto à discussão.
    Quando achamos um processo exaurido (a democracia parlamentar), devemos escolher o voto em branco ou a não comparência?
    Sempre achei que era a não comparência, pois o voto em branco é ainda um comportamento “alinhado”. Mas esta discussão pode arrastar-se e ter muitas variantes.
    Como neste momento, acho que é preciso expulsar da governação o sr. J. Sócrates, não opto nem pelo voto em branco nem pela abstenção militante e crítica. Acho que qualquer coisa vale mais que Sócrates e o PS. Portanto, e de acordo com as minhas ideias de sempre, participarei votando PCP.
    Parece contraditório, mas não é.

  12. miguel dias diz:

    “…é preciso colocar a questão que é, é bem verdade, o grande enigma do século: porque é que a subsunção da política sob a figura do laço imediato (as massas) ou mediato (o partido) induz no final o culto do Estado e a submissão burocrática? Porque é que os mais heróicos levantamentos populares, as mais tenazes guerras de libertação, as mais indiscutíveis mobilizações em nome da justiça e da liberdade se saldam, é verdade que para além da sua sequência interiorizada, por construções de Estado opacas, em que já nada é distinguível do que deu sentido e possibilidade à sua génese histórica?…”

  13. Luís Antunes diz:

    Viva o ricardo guerra! Esses conceitos de discussão sobre democracia não fazem grande sentido , actualmente. Cunhal ? É o tal que acreditava que o futuro estava no gulag e no kgb? Grande pensador e grande democrata !

  14. almajecta diz:

    Isto já não vai lá com democracia parlamentar.

  15. Pingback: Dos parlamentos « BLASFÉMIAS

  16. “Uma revolução. Mas a maioria da população sabe bem o que é justo, só que está conspurcada pelas ideiazinhas parvas da democracia liberal. Logo que a revolução venha, toda a gente vai apoiar.”
    “Ou seja, vais obrigar pela violência a que os outros concordem contigo e esperar que depois até gostem do remédio.”
    “Ora, vamos lá cortar isto desde já: estás a entrar nos joguinhos ‘concordo, não concordo’. É um jogo interno das democracias parlamentares, a que eu não me obrigo a jogar. Objectivamente, a democracia como está impôs e protege um sistema injusto. Há que acabar com ela e com esse sistema e fazer qualquer coisa de melhor. Tu, a defenderes este sistema que temos estás a ir pelo caminho da mediocridade e da reacção.”
    “Olé! Ouve-me bem: o que temos hoje não é perfeito e há muitas coisas a mudar. Mas com revoluções só vamos andar para trás. Ora se nem nós os dois conseguimos chegar à conclusão do que é melhor! Vamos acabar com uma ‘democracia de revoluções’, em que os vários sistemas se confrontam à base de pancada e não de diálogo. Se não chegamos a acordo sobre qual é o sistema ideal, é o que vai acontecer…”
    “Se não chegamos a acordo, não tenho culpa disso, eu sei muito bem o que é preciso, é fácil. Lá por haver quem não queira ver, não vamos deixar de avançar e criar esse outro mundo de que parece teres tanto medo.”

  17. JPRibeiro diz:

    Dito simplesmente, que você quer, noutras palavras é: “ou fazes o que eu digo ou levas um tiro na nuca”.

    Já vimos esse filme. Chama-se tirania, ainda que escondida, como sempre, detrás de belas frases.

  18. Luís Antunes diz:

    Só vejo duas formas de governo possíveis : a anarquia e o Evangelho . Duas utopias . No século vinte , as utopias custaram milhões de mortos.

  19. Luís Antunes diz:

    Muito bem , JP ribeiro ! Essa gente está mas é a pedir uma viagem sem regresso rumo à “democracia” da Coreia do Norte!

  20. Colectivismo nunca mais! diz:

    ui… o que é isto? a encarnação de marx?

  21. Carlos Vidal diz:

    Encarnação de Marx?
    Quem me dera!…..

  22. Luís Antunes diz:

    Estou farto de ouvir falar mal de Portugal a torto e a direito ! Compadrios? Miséria? Corrupção ? Provavelmente , ninguém ouviu falar do Zimbabwe e da família Eduardo dos Santos! Aquilo é que é bom , não é?

  23. Luís Antunes diz:

    Cassete Vidal , fala -nos mais da “democracia” versão K.G.B…..Viva o Contra -Informação !

  24. Nik diz:

    Há muitas espécies de fascismo e de marxismo. A tua tese inclina-se para o marxo-fascismo. Trocando meia dúzia de palavras, passa-se de um texto fascista para um marxista e vice-versa.

  25. francisco diz:

    De onde saiu este “doido” varrido? Será influencia da narcocomunismo? Ou de um qualquer regime despota e torcionario?
    Apelo que seja claro e que afirme o que pretende em substituição da democracia.

    lenine

  26. mariahenriques diz:

    mas é claro que sim-hoje em dia para matar a democracia basta ser muito meiguinho.

    http://apombalivre.blogspot.com/2010/03/mas-e-claro-que-sim-hoje-em-dia-para.html

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