Somos cada vez mais

Eis Alexandre O'Neill

“O Socialismo só poderá chegar [à blogosfera] de bicicleta” José Antonio Viera-Gallo

Com a nova aquisição, o 5 Dias volta, em número de blòguéres a pedal, à camisola amarela da blogosfera socialista, ultrapassando o Arrastão e o Spectrum,  (tínhamos perdido o lugar por causa de uma lesão e de uma transferência).

Bem-vindo, Mark. Na Sexta, às 18:00, há Massa Crítica, uma coisa que não é manifestação, e não é contra ninguém.  Embora pintar aquilo de vermelho?

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26 Responses to Somos cada vez mais

  1. douro diz:

    Boa sorte e boa escrita ao Mark: enche bem os pneus da bicla 🙂

  2. Saloio diz:

    Conheci e aprecio o O `Neill, e não creio que ele andasse de bicicleta (tinha uma Renault 4 L, cinzenta – que mais ninguém tinha daquela cor).

    A foto, belíssima, penso que foi tirada pelo seu filho fotógrafo, que morreu subitamente uns cinco anos depois do pai.

    Aqui populam vários radicais pequeno-burgueses aliados muito transitoriamente ao proletariado, e alguns lacaios revisionistas a soldo do imprialismo soviético. Tudo rapaziada sobre quem o poeta riria a bom rir.

    Mas é tudo malta fixe.

    Muito bem vindo ao “5”, Mark!!!!!!

    Digo eu…

  3. Nuno Ramos de Almeida diz:

    “Imprialismo” soviético – imperialismo soviético à décima imperial
    Fantástico os gajos que actualmente têm procuração para dizer o que O’Neill pensaria.

  4. Caro João,

    Muito bem, apoiado e ia lá se estivesse aí. Mas… Não achas que a massa seria mais crítica se fosse vista todos os dias, como parte de um dia normal?

    Isto é, se esta gente toda pedalasse diariamente no trânsito, banalizando o uso da bicicleta, talvez obrigasse mesmo muita gente a revêr o seu comportamento. É que, parece-me, enquanto acontecer apenas em dias de excepção, organizado e tal, estes bravos do pelotão passam a imagem de excêntricos e acabam por não servir mais que de rodapé de noticiário.

    Penso eu de que e faz o favor de contradizer-me, se for caso disso.

  5. Tiago Mota Saraiva diz:

    Sobre o socialismo deixaria o seguinte desejo:
    Venha como vier, mas que não demore muito mais…

  6. Olá Dorean, respondo à tua questão mais à frente. Primeiro quero asservar que a Massa Crítica não é vermelha nem um evento que se situe facilmente em termos de espectro político. A divulgação do evento que fiz neste post foi mais uma brincadeira que outra coisa.

    Adiante:

    Penso que está uma falácia no teu raciocínio.
    Dizes: “O melhor era que surgisse uma massa crítica a sério, como acontece em copenhaga e começa a ocorrer em Paris, Barcelona e Portland”
    Ora, isto é totalmente verdade, mas não implica a inutilidade do evento “Massa Crítica” às últimas Sextas de cada mês (em Lisboa no Marquês de Pombal às 18:00).

    Pelo que vejo, cada um tem uma percepção diferente do que é a MC, mas eis as três vantagens que pessoalmente sinto serem mais importantes.

    – Para mim pessoalmente, serve principalmente para iniciar algumas pessoas à experiência veicular da bicicleta. O efeito “pelotão” , a “segurança dos números” dá a segurança necessária a quem queira experimentar. Pessoalmente, usava a bicicleta só para ir e vir do trabalho (por ser a forma mais rápida de fazê-lo), na zona oeste da cidade. Depois de participar em algumas massas críticas, comecei a usá-la mais, fui perdendo e ganhando experiência de andar na cidade. Nisto, serve um pouco como incubadora.

    – Permite-nos contactar com outros utilizadores veiculares de bicicletas (veicular significa +- “como meio de transporte”), trocar experiências e dicas. Em Portugal perdeu-se culturalmente os conhecimentos sobre bicicletas (quais a regras de trânsito, como fazer pequenas reparações, onde comprar componentes). A Massa Crítica cria temporariamente uma comunidade em que isto pode ser transmitido de boca em boca.

    – É muito agradável, para qualquer ciclista veicular, haver um momento, duas horas, uma vez por mês, em que é respeitado na estrada. Em que pode usufruir em pleno direito deste espaço que também é seu, ao seu ritmo (e note-se que, no centro da cidade, este ritmo é mais veloz que o dos automóveis). Este momento de acesso ao espaço público é desopilante.

    Agradeço que respondas ao comentário. Que me digas se fui convincente ou não.

    Finalmente: deito-me a adivinhar que vives num país onde é natural não se utilizar o automóvel todos os dias, onde a utilização da bicicleta faça “parte de um dia normal” para uma grande parte das pessoas. Estou certo?

  7. Pingback: cinco dias » Alexandre O’Neill e a Chica

  8. Obrigado pela resposta.
    Antes demais, não quis dizer que o MC ou outras iniciativas do género são inúteis para quem participa, apenas que não sei se será a forma mais eficaz de converter os sedentários.

    Não digo nada que não saibas já: pedalar é visto como um cansaço desnecessário, algumas vezes uma impossibilidade (as famosas inclinações de 6% de Lisboa, as crianças…). Daí que, na perspectiva de esforço, as pessoas, digo eu arrogantemente, sentem-se reconfortadas se se convencerem que toda a gente já o faz. Mas para isso, acho eu, teriam de o testemunhar na rua, todos os dias. Teriam de se convencer que é uma atitude “normal”.
    Claro que não faço a mínima idéia como se consegue esta pescadinha e dos teus argumentos, porque se aplicam sobretudo aos convertidos, o mais convincente será o do MC como uma “incubadora”.

    P.S.: quanto à pergunta final, estás certíssimo; e isto apesar de ser uma capital, com mais ou menos o triplo da população de Lisboa.

  9. Os meus argumentos eram a resposta a “para que serve a Massa Crítica”. E pareceu-me ter deixado óbvio que, na minha opinião, serve principalmente para servir os interesses daqueles que já utilizam a bicicleta.

    Agora a tua questão sobre como converter quem ainda não experimentou, à qual dás uma belíssima e certeira resposta, não tenho muito a acrescentar a não ser que há uma blogosfera luso-ciclista para partilhar experiências pela net: http://planeta.bicicultura.org/

    A mim interessa-me principalmente defender os direitos dos que já usam ou dos que querem usar,e nem me interessa por aí além andar a convencer gente a andar de bina. O máximo que posso fazer é falar da minha experiência “eu uso, eu curto, dá-me um jeitão e as razões são 1 2 e 3 “.

    Mas há realmente malta mais evangélica (a Comissão Europeia, por exemplo) , e há uma série de iniciativas “grassroots” nesse sentido. Vai ficando atento.

  10. Pois a mim interessava. Por variadíssimas razões, também elas óbvias. Olha, por exemplo, se as ciclovias dessem votos já poderiam estar feitas (o que custa uma pincelada no chão, meu deus…).

  11. E obrigado pelo linque. Vou divulgar.

  12. João Branco diz:

    Sobre as ciclovias, ciclopistas, e segregação do tráfego, aconselho este artigo.

  13. Caro Dorean,
    começo por te agradecer – aqui, mesmo – o comentário que deixaste e o email que me enviaste.

    Quanto às ciclovias, vieste bater à porta errada. O nosso João é contra…

    Vou contar uma história que se passou hoje. À saída da rotunda de Gualtar, um ciclista (aluno, provavelmente) sai da da UMinho a toda a velocidade e entra na rotunda de qualquer maneira, sem olhar para os carros. Ia a olhar para o chão, a pensar na vida dele, alheado.
    Um carro ia já na rotunda, e como todos sabem tinha prioridade. De qualquer maneira obviamente travou a fundo. O ciclista quando viu o carro também travou mesmo a fundo e deu uma queda muito aparatosa. Mesmo muito feia. O carro não lhe tocou, mas ele foi projectado para a frente. Felizmente não lhe sucedeu nada e ele ficou ileso. Montou-se na bicicleta e seguiu viagem, mas podia ter sido um acidente mesmo muito feio da forma como ele caiu (principalmente porque ia sem capacete).
    Assim que o rapaz caiu, o motorista saiu logo do carro e veio ter com ele a ver se estava tudo bem. (Eu e um socorrista que estava a passar também oferecemos ajuda.) Felizmente não foi precisa. Mas volto a dizer que podia ter sido uma coisa muito feia, porque o ciclista ia a olhar para o chão, a pensar não sei em quê e a circular em alta velocidade.
    Pois para o nosso João, na eventualidade de um acidente grave (que felizmente não ocorreu), não haveria dúvidas: o culpado seria sempre o automobilista.

    É particularmente eloquente a resposta que ele te dá acima: “A mim interessa-me principalmente defender os direitos dos que já usam ou dos que querem usar,e nem me interessa por aí além andar a convencer gente a andar de bina.” O João está só interessado em defender os direitos de um grupo de interesses. Eu reconheço que este é um grupo desprotegido e que precisa que os seus direitos sejam reconhecidos, mas sendo ferozmente anticorporativista não simpatizo minimamente com reivindicações “de grupo”, que só olham aos interesses desse grupo. Parecem-me as reivindicações dos automobilistas vistas ao espelho. Essas reivindicações acabam sempre, num âmbito mais doméstico, de um Mário Nogueira. O meu querido amigo João Branco às vezes parece querer ser o Mário Nogueira dos ciclistas, e é aí que eu começo a divergir um pouco dele, embora apoie em geral plenamente as suas lutas e iniciativas. Eu nesse aspecto sou muito mais “sá-carneirista” (vê lá tu a que ponto eu cheguei!): acredito que hoje nós (os ciclistas) somos muitos, e amanhã seremos milhões. Tenho dificuldade em simpatizar com as reivindicações de um grupo que não quer ser mais amplo do que já é: lá está, passam a ser reivindicações de grupo e não de sociedade.

    (João, desculpa ter estado sempre a falar de ti na terceira pessoa…)
    Abraços.

  14. Não sei porquê, com a intervenção do Filipe, isto começa a fazer lembrar-me uma cena da “Vida de Brian”…
    Até apetece fazer formar uma nova facção, a “indy-cavaquista”: amanhã somos milhões, depois de amanhã seremos todos!. 🙂

    Vou ter de ler com mais atenção o documento a que o João faz referência no comentário mas ao passar os olhos pela diagonal pareceu-me que talvez tenha sido eu a introduzir a confusão (problema de nomenclatura): quando escrevi ‘ciclovias’ já só estava a referir-me à partilha da rua com os carros e não às vias segregadas. Não quer isto dizer que eu seja totalmente contra o conforto de uma pista só para ciclistas mas estava apenas a tentar ser pragmático.

  15. Só uma adenda: não acho que a culpa fosse do automobilista, claro; mas isso das culpas é secundário. O importante é evitar um acidente que é sempre mais grave para o ciclista.
    Recordo que é prática também noutros países a tendência para penalizar o automobilista. É uma forma preventiva de compensar o enorme desiquilíbrio de forças e obrigar o condutor a lembrar que há veículos desprotegidos na estrada.

  16. João Branco diz:

    Caro Filipe:

    Vamos por partes.

    Ciclovias:

    Dizem que os esquimós têm dezenas de palavras diferentes para dizer neve. Um bom paralelo é que em Portugal só temos uma palavra para um espaço marcado de circulação de bicicletas: “Ciclovia”. Como bem explica o artigo do especialista que cite, chama-se ciclovia a muitas coisas totalmente diferentes do ponto de vista da formatação do trânsito. Para compreenderes do que falo, convém leres esse artigo.
    Até lá, deixo apenas uma correcção à tua frase: não sou contra as ciclovias , como sugeridas pelo Dorean, nem sou categoricamente contra a segregação do tráfego. Sou tendencialmente contra esta em ambiente urbano. Eis a rua principal da cidade onde eu viva.

    Ónus da Culpa no mais fraco:
    Pois para o nosso João, na eventualidade de um acidente grave (que felizmente não ocorreu), não haveria dúvidas: o culpado seria sempre o automobilista.
    Tens toda a razão. Isso faria com que os automobilistas circulassem com muito mais cuidado, porque afinal, carregam uma energia cinética perigosíssima, equivalente a uma arma de fogo. Há uma série de especialistas a fazer os maiores esforços para que este regime de “ónus da culpa na parte mais forte”, “loi de badinter” ja em vigor em toda a europa civilizada (na tua querida França inclusivé) seja incluído nesta revisão do código da estrada, que está neste momento em debate na AR. Mesmo que não corra bem, a boa da regulação federal da Comissão Europeia trará de a trazer, mais cedo ou mais tarde, para Portugal.

    O João está só interessado em defender os direitos de um grupo de interesses.
    Completamente (e se não te conhecesse diria maliciosamente) tirada do contexto. E ainda por cima vais fazer o paralelo com algo que não tem nada que ver.
    O que estava a dizer é que não é minha intenção fazer lobby para que mais gente ande de bicicleta, mas sim para que haja condições para que quem anda o faça em segurança e tranquilidade. Isto em resposta ao Dorean que imputava à MC um objectivo evangelizador.

    Quanto às minhas ideias de tráfego, que penso que no espaço urbano deve ser muito suave, principalmente no país que lidera destacado o número de crianças mortas per capita na estrada, em que a grande parte dos atropelamentos são nas passadeiras, essas minhas ideias ao ser implementadas até reduzem a velocidade média a que se anda de bicicleta, vê lá.

    A tua proposta, a da proliferação urbana das ciclovias segregantes, parece-me a mim muito mais corporativista (não foi à toa que foi inventada pela alemanha na alemanha nazi): em vez de se mudar o transito para servir melhor a todos, cria-se umas vias ao lado para servirem só os ciclistas.

  17. Ainda sobre a acusação de “corporativismo” fica sabendo que, não sendo evangélico sobre que tipo de transporte cada pessoa deve usar, penso que as condições estruturais e legais, devem ser criadas para tornar fácil, agradável, útil e segura a movimentação:

    1 em primeiro lugar : A pé. Com protecção e cuidado especial para idosos deficientes físicos e crianças.
    2º por transporte público

    estes meios de mobilidade devem ter prioridade total em deterimento dos demais. devem por isso encontrar-se destacadíssimos.

    3º – veículos de mobilidade suave (até 30 km/h) motorizadas de pequeno porte e baixas velocidades , bicicletas , cadeiras de transporte eléctricas (aqui não se vêem mas na europa civilizada os idosos usam-no por todo o lado – eis um exmeplo)

    O automóvel individual, por representar uma ocupação de espaço e um perigo em termos de energia cinética transportada enorme, deve sofrer sérias restrições num espaço urbano dominado pelo peão

  18. “Completamente (e se não te conhecesse diria maliciosamente) tirada do contexto.”

    Francamente é como vejo a tua posição – a defesa (legítima) de um grupo de interesses.

    “Isto em resposta ao Dorean que imputava à MC um objectivo evangelizador.”

    Se calhar preferia que a MC tivesse um objectivo evangelizador.

    “essas minhas ideias ao ser implementadas até reduzem a velocidade média a que se anda de bicicleta, vê lá.”

    Isso sei eu! E é por isso que eu, ciclista, estou contra elas. O teu único objectivo é a diminuição das velocidades, seja dos carros, das bicicletas ou dos transportes públicos. Eu não estou de acordo, e nem isso é compatível com os dias de hoje (e não é qualidade de vida para ninguém). Por mim os peões estavam nos passeios, os ciclistas num tipo de faixas, os autocarros noutras. O objectivo é justamente o de maximizar as velocidades, que é o que qualquer pessoa quer.
    Já agora, sou inteiramente favorável às leis que proíbem os ajuntamentos de peões no passeio. Perturbam a circulação dos restantes peões.

    “O automóvel individual, por representar uma ocupação de espaço e um perigo em termos de energia cinética transportada enorme, deve sofrer sérias restrições num espaço urbano dominado pelo peão”

    Eu não quero um espaço urbano dominado pelo peão. Isso é bom na aldeia. Nas cidades as pessoas precisam de se deslocar. Só uma minoria de privilegiados (que vive no centro das cidades) pode defender “um espaço urbano dominado pelo peão”.

    Eu quero um espaço urbano onde possam coexistir peões e transportes ecologicamente sustentáveis (transporte público e bicicleta) – carro, só em último recurso (o seu uso deve ser fortemente desincentivado). As tuas ideias do “espaço urbano dominado pelo peão” são lunáticas (desculpa…) e, se tomadas a sério, são um insulto aos suburbanos que todos os dias têm que vir (de carro, autocarro, barco ou comboio) para a cidade trabalhar.

    “Mesmo que não corra bem, a boa da regulação federal da Comissão Europeia trará de a trazer, mais cedo ou mais tarde, para Portugal.”

    Bastante estatista (de um Estado Europeu). Ainda bem.

  19. Filipe disse:
    “Eu não quero um espaço urbano dominado pelo peão. Isso é bom na aldeia. Nas cidades as pessoas precisam de se deslocar. Só uma minoria de privilegiados (que vive no centro das cidades) pode defender “um espaço urbano dominado pelo peão”.”

    Eu quero. A cidade é para os seus cidadãos, não para quem escolheu ir para lá de carro. Desculpa dizer-to assim mas a tua noção de privilégios está um pouco antiquada: o país tem um PVP automóvel 20% mais alto que a média europeia e não é só a baixa cilindrada que invade as ruas da cidade.
    Isto de viver no centro também é uma opção de quem não quer gastar dinheiro com um carro e se está nas tintas para qualquer status. E para estes é bastante frustrante ver depois o passeio da porta ocupado com sanga-yongas de três toneladas que ninguém multa ou reboca.

    “Eu quero um espaço urbano onde possam coexistir peões e transportes ecologicamente sustentáveis (transporte público e bicicleta) – carro, só em último recurso (o seu uso deve ser fortemente desincentivado).”

    Mas isto *é* um espaço urbano dominado pelo peão… 🙂

    Agora, essa do insulto só pode ser brincadeira. Fica para mais tarde que tenho de ir fazer o jantar (também troco receitinhas com quem quiser).

  20. miguel dias diz:

    Felipe Moura:
    Do comentário anterior depreendo que vives em Braga, não por acaso a cidade portuguesa com o maior número de mortes por atropelamento (per capita).Ora, Braga representa tudo o que de errado pode haver em termos de política de mobilidade.
    Décadas de planeamento pensadas única e simplesmente na lógica do automóvel. Décadas de investimentos faráonicos em túneis, viadutos e vias rápidas que esventraram o centro, ao arrepio do que deveria se o desenho de uma rede viária concomitantemente com outros aspectos da qualidade de vida do ambiente urbano e que tivesse em consideração quer a existência de outros meios de mobilidade, desde logo o pedonal. Uma política que potenciou exponencialmente o tráfego de atravessamento em ambiente urbano, e que curiosamente culminou na construção de uma circular muitos anos e milhões de euros depois, o que, apesar de tudo, permitiu introduzir alguma racionalidade ao sistema.
    Ao mesmo tempo, cuidou-se da jóia da coroa, o centro histórico, como se de um ilha fosse: extensas áreas pedonalizadas e gigantestos parques de estacionamento subterrâneos que mais não fizeram do que, para além, de atrair mais carros, provocar uma descontinuidade absurda entre a cidade antiga e a cidade de formação mais recente (e já agora serviram para capitalizar um senhor chamado Domingos Névoa à custa do bem público, permitindo-o vir à conquista da capital dos mouros, tal D. Afonso Henriques do parque de estacionamento).
    Estas questões não podem ser reduzidas a maniqueísmos simplistas, sou contra os carros e a favor das bicicletas, sou contra ou a favor de ruas pedonais. Necessitam sempre de ter uma visão mais integrada, jã que englobam para além da mobilidade muitas outras questões, entre as quais há que encontrar muitas vezes soluções de compromisso.

  21. Caro Miguel Dias, cheguei há poucos meses a Braga. Braga não é exemplo para nada em termos de planificação urbana. Ainda estou à espera de encontrar um parque com árvores nesta cidade – é a única que eu conheço que não o tem. Ao lado, Famalicão tem-no.

    Concordo que “estas questões não podem ser reduzidas a maniqueísmos simplistas”.

    Dorean, um “espaço urbano dominado pelo peão” é um espaço em que o peão pode atravessar a rua irresponsavelmente porque sabe que nunca será responsabilizado por nada. É isso que o João preconiza (ainda não percebi o que tu defendes). Num espaço desse género não podem certamente coexistir pacificamente peões e transportes – os primeiros sobrepõem-se sempre. Nem sequer podem existir ambulâncias! Mesmo mantendo-se a lei de que toda a gente se teria que desviar para as ambulâncias, a ausência de vias para carros levaria (como o João reconhece) a uma diminuição drástica de velocidades e, em particular (necessariamente) a uma diminuição da velocidade das ambulâncias (um carro desvia-se mais depressa do caminho que um grupo de peões). Consequentemente lá ia ao ar a tão desejada diminuição do número de mortes por atropelamento – os feridos (e outros doentes) passavam a morrer nas ambulâncias, a caminho do hospital, porque a rua é sempre para os peões.
    Para pessoas com formação básica em física – e vocês têm-na -é óbvio: se querem reduzir as colisões, uniformizem o livre percurso médio. Ora é absurdo (menos para o João) pretender que um livre percurso médio de um peão seja o mesmo de um ciclista ou de um automobilista (que pode ser um autocarro). Como obviamente tais livres percursos médios são diferentes, a única solução para os uniformizar é separar os diferentes tipos em vias diferentes. A tal “segregação nazi” de que fala o João. A Física Estatística é nazi, pois.

  22. Ah, Dorean: não estou interessado em receitas do país onde vives…

  23. Desculpem lá, mas eu só disse asneiras (fisicamente) no comentário anterior. Era do adiantado da hora sem beber. Agora, que já jantei e bebi uns copos, posso corrigir.
    Obviamente que se não queremos colisões temos que tornar o livre percurso médio infinito! O que devemos uniformizar é a velocidade de circulação. Assim, no meu comentário acima onde se lê “livre percurso médio” deve ler-se “velocidade”. A ideia da “segregação nazi” é óbvia: separar velocidades diferentes em vias diferentes. A teoria cinética é nazi, sem dúvida. O Boltzmann até era austríaco.

  24. miguel dias diz:

    Caro Felipe Moura:
    a dsicussão parace centrar-se em saber se pode haver vias segregadas ou espaços partilhados ( e repara que utilizo o termo espaço). Ora tanto uma solução como outra são adequadas em funçao do contexto concreto em que se aplicam. Um exemplo: na Avenida da Liberdade em Lisboa ter uma plataforma partilhada na faixa central é absurdo, mas já não o é nas faixas laterais junto aos edifícios (julgo que se trata aliás de uma das propostas do Plano de Urbanização), precisamente porque quando acedes de carro a estas faixas não pretendes atravessar a avenida, mas aceder a um edíficio, parque de estacionamento,estacionar, etc., e portanto praticas velocidades reais que com ou sem segregação, são perfeitamente compatíveis com os peões e os ciclistas. Ao defender plataformas partilhadas nestes casos, o que se pretende é priveligiar a mobilidade dos peões, instituindo que ali se trata de um espaço de peões onde se permite carros, e não o contrário,

  25. miguel dias diz:

    ó diabo enviei o comentário anterior sem querer…

    Mas dizia eu… outro exemplo de como a solução de plataforma partilhada funciona muito bem é aqui no Porto a Praça da Batalha, onde peões, carros, eléctricos e autocarros (pasme-se) convivem saudávelmente, sem que haja notícia de atropelamentos mortais (ou outros). Nestes casos de plataforma partilhada em que o número de configurações é maior, e remetendo para a tua formação de fisico, a lógica da entropia é invertida, existe muito mais ordem.

    Já um exemplo completamente errado da mesma solução é a que se apresenta em frente ao museu soares dos reis, onde se fez uma suposta plataforma partilhada à saída de um túnel rodoviário (mas diga-se de passagem que é o túnel que está mal e não o contrário).
    As reivindicações de cidadãos como o João Branco, são perfeitamente legítimas, e visam inverter a lógica com que se tem desenhado a cidade: passar do minímo necessário para os peões e o máximo possível para os carros, para o contrário, minímo necessário para os carros maximo possível para os peões. Se existem associações (muito poderosas por sinal) de cidadãos automobilizados a fazerem lobi pelos seus interesses, não vejo porque não possa haver associações de peões e ciclistas. Por mim faria parte de ambas.

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