O Auto-Cidadão

O auto-cidadão pesa uma tonelada e ocupa 4 metros quadrados, precisa de espaço.
O auto-cidadão tem fome e sede. Em Portugal a sua fome é de um terço do défice comercial.
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O auto-cidadão é furioso, e morrem mais que 2 pessoas por dia às mãos de cidadãos-automóvel.
O auto-cidadão precisa de espaço, muito espaço. Em Lisboa há 30% de auto-cidadãos, mas a maior parte do espaço público, passeios incluídos, é seu.
O auto-cidadão é egoísta,e todos os dias atrapalha os outros auto-cidadãos, irrita-se, discute com eles, mas, apesar de tudo, tem-lhes respeito.

Nada enfurece mais o auto-cidadão do que ver qualquer coisa que não outros auto-cidadãos ocupar o espaço que é dele, que foi construído para ele. Atrasar o seu movimento é impedir a mobilidade, é atrasar o próprio progresso. O seu movimento, perigoso, pesado, exigente, açambarcador, é um direito.

O seu direito de ocupar e utilizar espaço está acima de qualquer outro, seja ele o de manifestação ou um evento de fim de semana.

O auto-cidadão recusa-se a ver os limites dos seus direitos e recusa-se a aceitar que haja na sociedade quem não seja auto-cidadão. E que essa maioria também tem direitos.

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8 respostas a O Auto-Cidadão

  1. Pedro diz:

    Muito bom!
    Pena que, de vez em quando, se tenham de repetir “posts” como estes.
    Se eu, enquanto cidadão, fosse reclamar cada vez que passo por um carro estacionado num passeio (que é a minha “faixa de rodagem”) não faria outra coisa…

    Como diz, e muito bem, o João Branco é preciso que todos vejam os seus direitos e que tenham um pouco de bom senso antes de “reclamar”.

  2. Valupi diz:

    Excelente, João.

  3. Hoje mesmo vi, numa rua do Porto, um deficiente em cadeira de rodas literalmente encalacrado. Um automóvel em cima do passeio, claro, e o pobre homem não conseguia passar. Ficou encaixado entre o carro e a parede. Literalmente.
    Nada de novo, claro. Vivo numa casa que se encontra à face da rua. O passeio terá cerca de um metro. Ao lado de minha casa, uma padaria e dois cafés. São às dezenas os carros que todos os dias estacionam em cima do passeio, em cima da minha janela e da minha porta. Já me aconteceu não conseguir sair de casa, por ter um carro mesmo em frente à porta.
    Mas quantas vezes é a própria Polícia a dar o exemplo???

  4. Su diz:

    Eis como, tendo por base uma crónica parvinha, se escreve um texto de superior ironia!

  5. miguel dias diz:

    …há coisas que poluem muito mais que os automóveis, como as chaminés. Para ajudar a sensibilizar para isso, criar-se o “Dia Europeu Sem Cozinhados”, com todas as pessoas obrigadas a comer sanduíches e bebidas frias. A melhoria que isso não traria ao ambiente! E como não falar nos enormes benefícios para o aquecimento global, a crise petrolífera e as limitações energéticas de um “Dia Europeu Sem Electricidade”?…

    Ora aqui esta’ uma boa ideia. De facto uma churrascaria ou uma sardinhada na brasa poluem muito mais que um carro. Ainda por cima, como todos sabem, ha muito mais churrascos que carros.

  6. Sérgio diz:

    Excelente!
    E, por falar em auto, preciso de mudar a corrente da minha bicicleta. 🙂

  7. miguel diz:

    4 metros quadrados?! Isso é quanto ocupa um smart! Literalmente, não estou a exagerar.
    E o problema não é o espaço só do carro, é que ele estacionado ocupa uma área bem maior! Para um estacionamento de 100 smarts, 400m² não são de modo nenhum suficientes… Eu diria pelo menos o triplo (e já tive ideia para um post).
    E quando estão a andar é bem pior!!
    E é por isso que do reduzido espaço urbano, sobra umas caganitas para passeios, jardins, praças, etc. O espaço urbano é quase só alcatrão.
    O congestionamento, as brutais infra-estruturas necessárias (pontes, AEs, etc.) só existem porque o auto-cidadão acha que tem o direito de ocupar muito mais espaço do que os outros.

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