Ora vamos lá comemorar a Poesia

ottdix1
Otto Dix (1924)

BELA INFÂNCIA

A boca de uma rapariga que passara muito tempo no canavial
estava tão roída.
Quando lhe abriram o peito, o esófago estava todo esburacado
Finalmente, num caramanchão sob o diafragma
encontrou-se um ninho de ratinhos.
Um dos irmãozinhos estava morto.
Os outros tinham vivido do fígado e dos rins,
bebido o sangue frio e passado
aqui uma bela infância.
Mas depressa tiveram também uma bela morte:
Deitaram-nos todos à água.
Ah, como os pequenos focinhos chiavam!

GOTTFRIED BENN
(trad. V. G. Moura)

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14 Responses to Ora vamos lá comemorar a Poesia

  1. almajecta diz:

    coisa de médico Carlos, expressioneirismo radical tambem está bem, o absoluto é que está apenas na voz e no próprio o que dá para duvidar. Queres abordar o tema que faz aumentar os comentários, é?

  2. CV, fiz de uma frase do Almajecta o ote para o meu Post Para o dia da Poesia. Por acas gostava que tomasses conhecimento dele. Obrigada.
    http://f-se.blogspot.com/2009/03/f-se-sombras-das-sequoias-so-crescem.html

  3. Olha, não conhecia esse do Dix. …

  4. catarinahenriques diz:

    Foda-se!

  5. Carlos Vidal diz:

    catarina, muito bem, foda-se, mas de certo modo, porquê?
    Isto não tem nada a ver com Gottfried Benn: mas vamos imaginar a humanidade reduzida ao osso pelo capital. Mesmo depois disso, há-de haver sobreviventes que se alimentarão dos restos. Estes são normalmente os que costumam ganhar eleições, e são esses que temos de varrer para um rio sem regresso. Mas muito antes deste raciocínio “utilitário” sobre a realidade, já tinha este poema como um dos meus eleitos de Benn, o médico precisamente.

    Ó Grande Alma, queres mesmo saber qual é o tema que faz disparar os comentários e sobre ele queres conversar? Bom, estamos no ponto em que nos deixou Marx, com o “Manifesto”. Ou seja, continua a pairar sobre nós o espectro do comunismo. Sem dúvida.
    Por isso o tema que faz disparar os comentários é o comunismo, sobretudo se tratado com toda a seriedade e consequência.

    Entretanto, e já que estamos a falar de poesia, parafraseando catarinahenriques, foda-se, foda-se para os últimos 4 anos de políticas culturais invisíveis.
    É o que eu digo: mais 4 anos destes gajos e é exílio certo.

  6. almajecta diz:

    a atmosfera sob a qual vivemos pesa várias toneladas – mas será que todos a sentem?
    Vamos então eleger os homens de vanguarda (a velha toupeira que sabe trabalhar a terra com rapidez, aquele valioso pioneiro) para resolver as contradições da modernidade.
    Sai um manifesto com todos e o seu contrário.

  7. Carlos Vidal diz:

    Sim, sim, vamos aos homens de vanguarda e aos protovanguardistas, como o grande Arthur Cravan, o escritor e o boxeur. Depois, sim, poder para Marinetti, Ball, Schwitters, Popova e o grande proto-impressionista, como diria o nosso amigo, José Malhoa.

  8. almajecta diz:

    Andre Sardet pode ser classificado de vanguarda revolucionária, porque se supunha não haver sido tocado pelo beijo da morte da modernidade. É claro que uma tal procura se vê condenada à futilidade; ninguem no mundo contemporâneo é ou pode ser marginal. Para os radicais que compreenderam isso, ainda que levassem a sério o paradigma unidimensional (uma falta grave a da inauguração da exposição da colecção de electrodomésticos), a única válvula de escape foi a futilidade e o desespero.

  9. Carlos Vidal diz:

    Ora bem, Grande Alma, eu prefiro sempre o desespero.

  10. almajecta diz:

    Pois sim, a angst mais a tod do expressioneirismo do vibrato, são os nervos dos desejos e impulsos insaciáveis da perpétua criação mais a felicidade nacional e a sua antítese radical, niilismo, trituração e horror.

  11. Carlos Vidal diz:

    Sim sim, movemo-nos na noite sem saída e somos devorados pelo fogo.

  12. almajecta diz:

    e continua mais do mesmo a Realeza era um
    fetiche respeitado pelo terror das forcas e a aris-
    tocracia exhibia-se em uma prostituição galante.
    Era um meio excellente para a indignidade cam-
    pear infrene, nunca para se crearem concepções
    artísticas ou se revelarem génios fecundos. Um
    povo sem opinião, submisso a um regimen que
    corta toda a manifestação do pensamento acerca
    dos actos do governo descricionario, os espectá-
    culos destinados a desviarem as attenções da
    causa publica, as ideias consideradas como um
    perigo social, tudo impellia para o cretinismo,
    para a idiotia, a degradação. Esta
    decadência nacional aggravava-se mais com os
    desvairamentos de um rei epiléptico, faustoso
    como Luiz xiv, devasso como Luiz xv, fanático
    como Pilippe ii; tal era D. João V, que o seu
    contemporâneo Frederico ii, o violador da Pra-
    gmática Sancção, e portanto seu inimigo, retra-
    tava em phrases sarcásticas: «Ses plasirs étaient
    des fonctions sacerdotales ; ses hâtiments des
    convents; et ses années des moines et ses mai-
    tresses des religieuses». Isto dá o sentido das pa-
    lavras do Padre Theodoro de Almeida, na Oração
    inaugural da Academia das Sciencias de Lisboa
    em 1779.

  13. CV: ODEIO-TE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    Não há letras maiores.
    Pois devias ter lá ido Ler Para não falares no vazio! Terias factos Concretos, pelo menos… para ver como este sistema É de M-rd-!!!
    ZANGADA!!!

  14. almajecta diz:

    Ummm… devoristas e braços no vidrão isso sim, nesta primavera do bolor do trigo roxo e do mal dos ardentes com os focinhos a chiar. A do caramanchão foi uma indirecta, não?

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