O mais recente disco de Anne-Sophie Mutter: um Bach insuportável e uma excepcional Gubaidulina

O último registo discográfico de Anne-Sophie Mutter, violinista mítica ou mitificada (apresentou-se com Karajan e a Filarmónica de Berlim aos 13 anos), é dedicado a Bach e Sofia Gubaidulina, ligados por um nexo de espiritualidade de fundamentos discutíveis. Sempre ouvi a música instrumental de Bach (dos Brandenburgueses à Arte da Fuga) como experiências cerebrais ou conceptuais intensas, por vezes a raiar a mais pura abstracção (que há quem defenda não precisar de interpretação sequer!) como naquilo que se chama o seu “testamento musical”, composto pela Arte da Fuga (BWV 1080), a Oferenda Musical (BWV 1079) e a Missa em si menor (BWV 232, de que saiu há pouco uma portentosa realização por Mark Minkowski e os seus Les Musiciens du Louvre, Ed. naïve, 2008). É talvez esta equivocada leitura da espiritualidade de Bach que torna as abordagens de Mutter ao mestre alemão completamente – peço desculpa – intragáveis: o Bach de Mutter, como antes o seu Vivaldi, são insuportáveis (e se me engano é porque sou crítico de arte, enfim). De Bach, com os seus habituais companheiros Trondheim Soloists, Mutter interpreta dois concertos para violino: o BWV 1041 e o BWV 1042. Mutter diz algures que a sua abordagem ao barroco tem evoluído, mas não creio: aqui tenta o arco barroco, mas recusa as cordas de tripa no violino, mas se as usasse nada melhoraria. Mutter faz uso equivocado do rubato (foge de staccatos, etc, tudo é adocicado), exagera sentimentalmente em legatos e vibratos (e, por vezes, incómodos – para mim pelo menos – glissandos), saindo o seu som romântico e, como sempre, alheado do fraseamento barroco. Os solistas de Trondheim são no barroco de Bach (e antes Vivaldi) frios e inexpressivos, “máquinas de debitar notas”, uma perfeição técnica sem sentimentos. Mas ainda assim o disco deve ser adquirido, por causa de Sofia Gubaidulina e do seu concerto In tempus praesens (2007), com a Sinfónica de Londres e Gergiev (que já tinha gravado a Paixão de S. João da mesma Gubaidulina, com a sua Orq. do Mariinsky, em 2000, para a Hänsler Classic). De seguida, dois clips: a menina Mutter, aos 13 anos com Karajan (!!) na famosa Meditação do 2º Acto da Thaïs de Massenet e, depois, num excerto do concerto de Gubaiduliana (e a música contemporânea é um terreno em que Mutter é “rainha”, de Berg a Wolfgang Rihm):

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2 respostas a O mais recente disco de Anne-Sophie Mutter: um Bach insuportável e uma excepcional Gubaidulina

  1. Carlos Fernandes diz:

    Excelente, ou, no meu sofrível Deutsch, sehr sehr gut. Ann Mutter ist ein Musik Stern.

  2. Pingback: cinco dias » E o barroco é para quem sabe e quem pode: para Giuliano Carmignola, por exemplo…

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