A única eleição que não é vital

Num ano com três eleições em seis meses, europeias e legislativas não poderão ser pensadas de uma forma isolada. Só à luz desta ideia se poderá se poderá compreender a escolha de Vital Moreira para cabeça de lista do PS ao Parlamento Europeu.
Não sendo um homem do aparelho (como seria Lello) ou do governo (Amado), a escolha de um indefectível de Sócrates em todas as áreas e de todos os feitios, parece uma inabilidade política, mas até pode não o ser. O tradicional, no PS, recurso a uma figura histórica (Ferro), ainda terá sido tentando mas foi abandonado em benefício de outra estratégia.
Sócrates sabia que, independentemente do cabeça de lista apresentado, seria muito difícil para este demarcar-se das questões de fundo da governação, ao ponto de não ter qualquer reflexo eleitoral.
Neste sentido, Vital, é o candidato ideal para averbar um mau resultado nas europeias que não prejudique a votação nas legislativas (são reveladoras as declarações de Santos Silva ao DN/TSF, ao assumir que o PS não pedirá a maioria absoluta nas eleições europeias).

O socratismo full time de Vital, colocará a governação no centro da discussão, sem expor Sócrates, e com a possibilidade de dar uma oportunidade de voto de protesto ao tradicional eleitorado socialista que se encontra descontente numas eleições que, em Portugal, sempre foram tidas como secundárias – um voto contra para aliviar a pressão. Por outro lado o hipervalorizado estatuto de “independente” de Vital e o facto de não ser um homem da primeira linha política socialista, poderá fazer com que não haja um vaso comunicante entre as duas eleições.
Para Sócrates, uma eventual vitória do PSD é um mal menor. Se em Portugal são poucas as diferenças entre PS e PSD, na Europa essas diferenças são ainda menores e só, ocasionalmente, se vê uma ou outra divergência ao nível das nomeações para altos cargos do parlamento europeu.
Neste contexto importa perceber o que se passará com a esquerda.
A tradicional baixa participação eleitoral, um cabeça de lista do PS que não mobiliza à esquerda, o voto de protesto ou o irreversível divórcio do eleitorado de esquerda que se revia no antigo PS, poderá originar um resultado histórico de CDU e BE.
É aí que está a chave da estratégia de Sócrates.
A partir de um resultado (mais ou menos) negativo para o PS, eventualmente com uma vitória do PSD (ou não), uma histórica subida eleitoral dos partidos de esquerda permitir-lhe-á dramatizar o discurso para as legislativas retirando da campanha conteúdos políticos para, como gosta e sabe fazer, brandir preconceitos e adjectivos.
Sob o cenário da ingovernabilidade e da necessidade da maioria absoluta, Sócrates agitar-se-á contra os perigos do comunismo e da esquerda irresponsável, conquistando votos à direita e arrematando o centro. Sócrates fará a campanha como gosta: afastar-se-á da discussão política, colocando-a no plano da propaganda e de quem mais grita.
E, como já se percebeu, a grande discussão eleitoral vai estar à esquerda.
Se é certo que, pela votação da CDU nas eleições europeias, se poderá medir o volume de perdas do PS de quem, com elevado grau de certeza, não voltará a votar em Sócrates, o mesmo não acontece com a votação no BE.
A estratégia da “esquerda grande” de Louçã, corroborada na aproximação a Alegre e afastamento do PCP, coloca o BE como um partido sedutor do voto de protesto e (até) de militantes socialistas descontentes. Contudo, também o torna num partido com um eleitorado extremamente flutuante. Uma grande votação do BE nas europeias não significará necessariamente a existência de uma base social consolidada com um efectivo desejo de mudança e transformação social. A sua expressão nas legislativas poderá vir a ser muito condicionada, por culpa própria, pelos sinais e gestos do deputado e militante do PS, Manuel Alegre.
Sócrates acredita que mesmo com um mau resultado nas europeias, gerindo o caso Alegre dentro do partido e agitando uma ou outra bandeira de “causas fracturantes” em paralelo com a sobre-adjectivação dos adversários, poderá conseguir minimizar as perdas à esquerda, sem ter de abdicar das suas políticas fundamentais.
A ver vamos.

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1 Response to A única eleição que não é vital

  1. Boa análise (ainda que possa mesmo ter sido 2.ª escolha).
    Com o naipe de candidatos que se perfilam, podia-se aproveitar e concentrar a campanha nos estúdios da SIC-Notícias. Sempre se poupavam uns tustos nas bandeiretas, mupis e demais quinquilharia.
    Com a crise à porta, o exemplo deve vir de cima. Chegou a hora das campanhas 100% sustentáveis!!!

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