Do pensamento político de Vital Moreira

É sabido que ser-se um ex-militante do PCP não é necessariamente prova que se é de esquerda. Embora compreenda a necessidade de comentadores de direita como Pedro Marques Lopes (no Eixo do Mal) ou Henrique Burnay, em identificarem a escolha de Sócrates como uma concessão à chamada “ala esquerda” para que o PS saia de cima do eleitorado de direita, é pouco compreensível que Ricardo Costa na SIC-N ou o noticiário da RTP difundam a mesma ideia errada.
É certo que Vital foi um excelente deputado do PCP – coisa que alguns só agora repararam, teve um papel muitíssimo importante na elaboração da Constituição e é um académico com um percurso assinalável. Agora o seu posicionamento político deve ser avaliado, não pelo que foi em tempos ou pela sua actividade académica, mas sim pela sua actividade política recente, designadamente, nas opiniões que tem emitido.
Assim vejamos qual é o pensamento político de Vital, a partir dos textos que publica, deixando deliberadamente de fora toda a forma pré-eleitoral ou pré-escolha-de-cabeça-de-lista como tem abordado o caso Freeport:

Sobre as Presidenciais, a disputa Soares-Alegre e Alegre:
O afundamento da candidatura de Manuel Alegre — que era previsível e que as últimas sondagens eleitorais confirmam — são produto exclusivo da sua inconsistência, do carácter errático da sua linha política e da fragilidade dos seus apoios. Mas entendo que não faz nenhum sentido qualquer tentativa de a humilhar por parte do PS nem, muito menos, por parte da candidatura de Mário Soares. Quanto mais não seja, em caso de 2ª volta, Mário Soares precisa dos votos de Alegre, pelo que são de evitar todos os factores que possam causar ressentimento entre os seus apoiantes.
19.12.2005

Sobre a contestação social na função pública:
De facto, mesmo para um olhar desatento, é fácil verificar que a maior parte das greves ocorridas no ano passado foram desencadeadas pelos sectores que gozam de melhores condições laborais e sociais (não faltou mesmo uma greve de juízes!), em reacção contra a ameaça de perda das suas regalias. Nesse sentido, não passam de greves das elites assalariadas em risco de degradação do seu estatuto laboral. Pode dizer-se que, neste momento, as únicas lutas sociais dignas desse nome são as da “aristocracia operária”.
06.01.2007

Sobre as reformas na educação e a contestação dos professores:
“Em seu próprio benefício, os professores deviam tornar-se parte da solução e não parte do problema. Também no interesse da reforma, a ministra da Educação deve trabalhar para isolar os sectores radicais e conquistar pelo menos a compreensão dos sectores mais moderados. Mas, chegada a hora de optar, não pode sacrificar nem adiar a reforma do ensino público de que o país não pode prescindir.”
07.03.2008

e

“Não tendo conseguido evitar a guerra da maioria dos professores contra a avaliação (e contra as demais reformas no ensino), o Governo só tem uma via a seguir, se não a quiser perder — tornar claro que não cede, aguentar firme e ganhar a população a seu favor contra a tentativa de boicote corporativo, invocando o interesse geral (e sobretudo o interesse da escola e dos alunos) contra os interesse sectoriais e profissionais.”
15.11.2008

Sobre os funcionários públicos:
“Os funcionários públicos gozavam de muitos privilégios face aos trabalhadores do sector privado, desde uma maior segurança no emprego até um sistema de aposentação e de pensões muito mais favorável, desde um menor horário de trabalho até um sistema de saúde privativo (a ADSE), desde remunerações em geral mais elevadas até uma generosa abertura à acumulação com funções privadas, etc. Dentro do sector público havia ainda vários regimes especiais que conferiam consideráveis vantagens adicionais, nomeadamente em matéria de cuidados de saúde e de segurança social, como era o caso da justiça, da saúde, das forças armadas, das forças de segurança, da carreira diplomática. Caso especial ainda era o ensino básico e secundário, onde vigorava uma carreira profissional “plana”, sem escalões, e onde em princípio toda a gente poderia chegar ao topo da mesma e à correspondente remuneração (aliás comparativamente elevada).”
27.03.2008

Sobre o referendo ao Tratado de Lisboa:
Qualquer que seja o resultado, o referendo irlandês sobre o Tratado de Lisboa mostra a insanidade política que é submeter a decisão popular um texto incompreensível para quase toda a gente, onde a decisão pode ser tomada com base nos elementos mais aleatórios que se podem imaginar. Parece que um dos argumentos mais bem sucedido da campanha do Não, protagonizado pela direita católica, é o de que a Carta de Direitos Fundamentais da UE, a que o Tratado dá força jurídica, facilitará o aborto e a eutanásia!
11.07.2008

Sobre os adversários do PS:
Manuel Alegre pode encontrar todas as justificações para o seu “flirt” com as operações do BE contra o seu próprio partido. Agora vir dizer que “os adversários do PS não estão à sua esquerda”, como se tanto o BE como o PCP não tivessem elegido explicitamente o PS como inimigo principal, isso é negar toda a evidência.
Nem um nem outro escondem que o seu objectivo primordial é derrotar o PS, mesmo que seja à custa de uma vitória da Direita.

19.12.2008

Sobre os professores e o seu direito de resistência a uma lei:
Mas numa democracia os destinatários das leis não gozam de direito de veto contra elas nem de auto-isenção de as cumprirem, em função dos seus interesses profissionais ou outra razão qualquer.
Invocar a este propósito um “direito de resistência” ou de “desobediência civil”, quando nem sequer estão em causa direitos fundamentais dos protestatários, é brincar com nobres conceitos. Não existe nenhum direito à dispensa de avaliação
.
30.12.2008

Sobre os aumentos salariais:
“Apesar do aumento da assimetria entre as remunerações do sector público e do sector privado, em favor do primeiro, na actual situação de recessão impõe-se a contenção do aumento dos custos salariais (sem prejuízo do aumento já decretado do salário mínimo), sem a qual as empresas ficariam em pior situação para manter o emprego e a economia portuguesa agravaria o seu défice de competitividade internacional e a queda das exportações.”
12.01.2009

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