Top 10 das razões por que Slumdog Millionaire é um filme completamente cretino

Em decrescente, com revelações sobre a história do filme:

10 – Aparentemente tanto o Taj Mahal como os bairros de lata indianos podem ser filmados como se fossem videoclips do Top+ sem que daí venha grande mal ao mundo.

9 – Aparentemente Os três mosqueteiros são uma história famosíssima na Índia, ao ponto de os miúdos dos bairros de lata se baptizarem a si próprios de Athos e Porthos. Suponho que ali no Bairro do Cerco os nomes de guerra mais populares sejam Yudhishtira, Bhima e Arjuna…

8 – … E, no entanto, apesar de ser uma coisa que se ensina nas escolas dos bairros de lata da Índia, o nome dos três mosqueteiros é também a pergunta mais difícil que se pode fazer na versão indiana do Quem Quer Ser Milionário.

7 – Aparentemente, os turistas ingleses que têm dinheiro e cultura para ir à Índia são demasiado cretinos para não distinguirem um miúdo de rua indiano de um guia oficial do Taj Mahal. Até tremo pelos nossos bons algarvios.

6- Já os turistas americanos, apesar de suficientemente ricos para terem um Mercedes com motorista, não têm dinheiro para pôr um alarme no dito Mercedes ou para contratar os serviços de uma agência de turismo respeitável.

5- O apresentador do Quem Quer Ser Milionário indiano, apesar de ter em mãos o concorrente que gera mais publicidade e audiências de sempre, prefere que este perca a aumentar as audiências e as tabelas de publicidade. Precisava de um estágio com o José Eduardo Moniz.

4 – O filme tem um miúdo indiano cego, pobre e analfabeto que não só sabe o nome do Benjamin Franklin, como consegue reconhecer a figura dele numa nota de 100 dólares.

(Ponto a favor de Slumdog Millionaire) – Incidentalmente, o mesmo miúdo indiano cego, pobre e analfabeto consegue receber essa nota de 100 dólares em troca de uma informação que provavelmente também daria por 2 rupias ou por um bocado de comida. Se calhar é porque é um génio e isso explica o Benjamin Franklin.

3 – O irmão do protagonista, Salim, ao longo da narrativa vende o poster autografado do irmão, quase deixa que o ceguem, assassina um homem a sangue-frio, fornica a namorada do irmão, expulsa-o de casa, não quer saber dele durante vários anos, denuncia a namorada do irmão quando ela tenta fugir com este e corta a cara dela como castigo. No entanto, quando o irmão vai a um concurso de televisão, Salim ajuda a namorada do irmão a fugir e, em vez de fugir com ela e viver às custas do irmão para o resto da vida, fecha-se numa casa-de-banho com dinheiro e deixa que lhe abram tantos buracos no corpo como os que há no enredo deste filme. Pressinto aqui uma sequela: Slumdog Psychotic.

2 – Slumdog Millionaire é um filme que tem o seu público em tão boa conta que lhe dá a questão que o filme vai abordar e a resposta implícita na história … por escrito, para evitar aos espectadores o trabalho de terem de pensar no que acabaram de ver.

(Ponto a favor de Slumdog Millionaire) – Por outro lado, tendo em conta tudo o que já escrevi, talvez seja mesmo essa a ideia. Espertos, os gajos do filme.

1- Aparentemente as coisas acontecem no mundo porque “está escrito”. Tal como Jamal se torna milionário porque está escrito, deduz-se que milhões de indianos nascem, vivem e morrem nos bairros de lata de Nova Deli porque “está escrito”. Tanto pior para os planos de combate à pobreza.

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33 Responses to Top 10 das razões por que Slumdog Millionaire é um filme completamente cretino

  1. O problema do filme “Quem quer ser…” é, em resumo, o da sua plausibilidade? Ou percebi mal?

  2. Jorge: Deus sabe como concordo e frimo (fremo?) com 99% daquilo que escreves. Mas, apesar de teres razão em tudo aquilo que dizes, nada do que dizes belisca a qualidade do filme (azarito). Isto porque estás a confundir verdade e verosimilhança ou, melhor ainda, a ignorar o funcionamento desta última numa obra-de-arte.

    Contrariamente à verdade, que se relaciona com (vá lá, para simplificar) a «realidade» em que vivemos, a verosimilhança numa obra-de-arte (mais concretamente, numa ficção)é um dispositivo mais ou menos complexo que pretende dar a «impressão» ou «ilusão» da verdade. O problema (quando se lê a conclusão titular do teu texto) ou o que é particularmente interessante (quando se frui um objecto estético) é que esse mecanismo ilusório de verdade não se relaciona com o conhecimento que possuímos da realidade, mas com as regras de funcionamento da própria obra-de-arte. Repara: num filme do Harry Potter ninguém vem dizer que aquilo é uma merda porque há tipos a voar em vassouras. A obra-de-arte institui as próprias regras da sua realidade que, no caso do Harry Potter, é o maravilhoso (no sentido que lhe dá Todorov). Ora um dos (poucos) pontos fascinantes do Slumdog Millionaire é a forma extremamente hábil como o Boyle brinca com esse sistema: o filme acumula uma série de inverosimilhanças, para depois, no FINAL, e apenas quando já está a passar o genérico, dar-nos a chave do género em que se enquadra o filme. Estou a falar, obviamente, da inesperada (e por isso mesmo genial) coreografia em que participam as personagens do filme. Ora isto, subverte totalmente as convenções do funcionamento da verosimilhança em que, por norma, se consegue perceber rapidamente se estamos ou não perante um determinado registo. Ora só no final é que é dada ao espectador ao oportunidade de perceber que estamos perante um registo fantástico (seguindo novamente a classificação do Todorov, na medida em que acontecimentos inverosímeis surgem num mundo facilmente identificável como o nosso). Ou seja: eu nem gostei muito do filme, mas as razões que apontas são exactamente as mesmas pelas quais ainda o achei inovador e divertido.

  3. Jorge diz:

    Eu acho que o filme tem imensos problemas. Para mim os maiores são a mensagem que quer passar, a falta de lógica interna, a inconsistência das personagens e o completo absurdo de toda a premissa.
    Porque é que suspeito que um adolescente nascido num bairro de lata saiba o nome da figura que está nas notas de 100 dólares e é normal que um miúdo mais novo, cego e ainda mais desgraçado saiba?

  4. Luis Rainha diz:

    Esqueceste-te de mais um ponto: em que país é que aquele concurso é transmitido em directo? Em nenhum.

  5. Luis Rainha diz:

    Quanto a isso do combate à pobreza, lembra-te que ele não é preciso na Índia: a metempsicose trata de acertar essas minudências sociais todas.

  6. Não consigo concordar com quase nenhum dos «argumentos» contra o filme. A questão de saber se ele «mereceria» ou não o óscar em função da sua profundidade narrativa e versomilhança parece-me um pouco bizantina. É raro ver obras-primas a receber oscars da academia. Relembre-se que «Forrest Gump», que era um pouco a versão americana disto, recebeu 6 óscars 6 (seis!!!).
    Os primeiros 5 argumentos valem para quem nunca foi à Índia.
    – Sim, é possível filmar o Taj Mahal e bairros de lata como se fosse um videoclip («Cidade de Deus», remember?).
    – Sim, algo que é ensinado em escolas de bairros de lata pode ser considerado difícil para adultos. Note-se que grande parte da população em idade adulta nunca frequentou qualquer tipo de escola e mesmo hoje em dia, em várias zonas do país (e até em certos bairros de bombaim), pôr os filhos a estudar é considerado um luxo
    – Sim, os turistas ingleses (e europeus em geral) que se encontram na Índia (pelo menos em Goa) aparentam ser burros o suficiente para aceitar por guia um miúdo de 5 anos, encolher os ombros e comentar qualquer coisa como «isto na índia deve ser mesmo assim…».
    – O mercedes dos americanos era evidentemente alugado e não há agência de viagens que possa garantir que uma coisa daquelas não acontece. Relembre-se que os americanos tinham pedido ao miúdo para lhes mostrar «a verdadeira face da índia». No fundo, estavam mesmo a pedi-las.
    Tudo o resto pode ser forçado, é até por isso que se usa a expressão “a minha vida dava um filme indiano” sem correr o risco de ser (demasiado) racista, mas cinematograficamente plausível, num filme que não se propôs ser uma viagem à «verdadeira face da índia», mas uma fábula europeia em contextos asiáticos.
    O apresentador do programa representava o pobre que ascendeu a rico e se sente incomodado a ver alguém repetir o mesmo percurso improvável (note-se que na Índia a mobilidade social não é propriamente encarada como um valor consensualmente positivo e que a expressão «igualdade de oportunidades» é geralmente acolhida com cepticismo).
    O miúdo cego era evidentemente um prodígio a reconhecer notas pelo ruído do seu dobrar e, possuíndo uma memória cinematográfica, sabia perfeitamente que as notas de 100 dólares têm a figura de Franklin.
    E se o irmão não fosse tão perfeitamente mau e a sua redenção tão dramática, a coisa não funcionava lá muito bem (a parte de ele sacar-lhe a miúda talvez seja um pouco exagerada, mas a verdade é que ele tinha acabado de a salvar de arma na mão e sentia-se um grande herói).
    E é isto. Para piscar o olho ao público indiano sem deixar de competir nos mercados europeu e americano, tinha mesmo que resultar num certo pastiche, mas isso foi acolhido por Hollywood como sinal de cosmopolitismo, numa época em que o «hibridismo» se tornou o espírito do tempo.
    Não sendo genial, o filme está longe de merecer o ódio geral. A não ser para quem acredita que os óscars existem para distinguir o grande cinema do resto.

  7. jcd diz:

    Bem, lá terei que ir ver o filme. Com uma crítica destas, já acredito que talvez seja mesmo bom.

  8. Luis Moreira diz:

    Acabei de levar uma sova das boas com o Wrestler .Ainda hoje choro as horas que passei a ver os dramalhões do Ingmar berman, ali num cinema no Chile. Já percebi que não quero ser bimilionário. A idade ensinou-me algumas coisas, uma delas é que dramas bastam as da vida.Não, obrigado!

  9. esquerda n-caviar diz:

    “Tanto pior para os planos de combate à pobreza.”
    Ninguém leu.

  10. rb diz:

    Aparentemente, o cinema só vale quando é realista (verosímil).

  11. PALINHOS!!!!!!!!!!!!!!
    Nã percebeste a “moral” da Coisa!! Caramba!
    Eu explico-te:
    As pessoazinhas ( todinhas!) gostam de OUVIR UMA BOA HISTÓRIA!
    O que é que acontece aos contadores de História??? Vá, pensa lá um bocadinho???!!! EMBONECAM a coisa para a gente se sentir entretido, né?
    Pois. Vai lá reciclar o teu ohar bisturí. Neste filme não interessa nada, pois a Moral é o OUVIDO, o fascínio de ouvir ( ali aconteceu a gente ficar a ver!!!)! Percebes agora?
    Vale.

    PS.: Já Twittas? Estou twitt-adicta.

  12. renegade diz:

    ao ler o texto tambem me ocorreu essa da verosimilhança. e tambem acho um argumento fraco. apesar disso, em termos pessoais, acho que tudo é justificável: eu achei o fabuloso destino da amelie poulain uma cretinice. não tenho estomago para filmes tematicos sobre gansgsters, mafia e que em geral encenam a violência made in usa e vibro com um bom western…
    isto para dizer que, apesar de todas as regras da arte ainda há espaço para o eu decidir em função do que sente e do seu contexto. andar a procura de “obras de arte” é um bocado morder o proprio rabo.

  13. Luis Moreira
    Não acredites no que dizem. Vai por mim. É como se a tua avó tivesse voltado para te contar uma história. Vai ver com esse espírito.
    Ou então que fosse uma estória contada por um amigo ( q toda a gente tem um) que gosta de empolgar a realidade. No fundo de verdade, eles gostam de recriar ambientes com telescópios para agente ver melhor a grandiosidade da coisa. Vale.

  14. Jorge diz:

    Um de cada vez.

    João Pedro da Costa:
    Consideras que estou a dizer que o filme não tem qualidade porque não é verosímil.

    Não. Afirmo que o filme não tem qualidade porque não tem (entre outras coisas) coerência interna. Pedem-nos que consideremos verosímil que um concorrente seja torturado porque não pode saber responder àquelas perguntas. Mais à frente temos de acreditar que no mesmo universo ficcional é normal que um miúdo pobre e cego saiba uma dessas respostas e logo aquela que é mais estranho que conheça.

    Seria como no Harry Potter dizerem-nos que a vassouras voam e mais adiante, sem qualquer explicação, uma vassoura não voar.

    Rick Dangerous:
    >- Sim, é possível filmar o Taj Mahal e bairros de lata como se fosse >um videoclip («Cidade de Deus», remember?).

    Pois é, mas isso não demonstra um menor desrespeito por aquilo que se filma. Como classificarias um cozinheiro que temperasse de igual modo a carne, o peixe e a salada?

    >- Sim, algo que é ensinado em escolas de bairros de lata pode ser >considerado difícil para adultos. Note-se que grande parte da >população em idade adulta nunca frequentou qualquer tipo de escola e

    O teu raciocínio implica que o protagonista tenha tido uma infância favorecida em relação aos adultos que vão normalmente ao concurso, enquanto todo o filme nos diz que aquele protagonista, com o background que tem, não tem qualquer hipótese.

    >- Sim, os turistas ingleses (e europeus em geral) que se encontram na >Índia (pelo menos em Goa) aparentam ser burros o suficiente para >aceitar por guia um miúdo de 5 anos, encolher os ombros e comentar >qualquer coisa como «isto na índia deve ser mesmo assim…».

    Que eu saiba, os personagens idiotas chapados são apanágio das comédias adolescentes, das telenovelas portuguesas para crianças e do Benny Hill. Quando pago para ir ver um filme premiado com um Óscar espero algo um bocadinho melhor.

    >- O mercedes dos americanos era evidentemente alugado e não há >agência de viagens que possa garantir que uma coisa daquelas não >acontece. Relembre-se que os americanos tinham pedido ao miúdo >para lhes mostrar «a verdadeira face da índia». No fundo, estavam >mesmo a pedi-las.

    Parece-me que o motorista era indiano, pelo que devia conhecer “a verdadeira face da índia” e tomar as devidas precauções, mas suponho que continuas a achar normal que o filme trate todas as personagens secundárias como idiotas ou malucos.

    >O apresentador do programa representava o pobre que ascendeu a >rico e se sente incomodado a ver alguém repetir o mesmo percurso

    Ou então foi outra maneira pobrezinha para justificar que acertasse na pergunta.

    >O miúdo cego era evidentemente um prodígio a reconhecer notas pelo >ruído do seu dobrar e, possuíndo uma memória cinematográfica, sabia >perfeitamente que as notas de 100 dólares têm a figura de Franklin.

    Estás a dizer que é lícito acreditar que um miúdo cego pobre e cego indiano costuma receber notas de 100 dólares (cerca de 5000 rupias, quase 3 salários mínimos indianos) em quantidade suficiente para já ter tido o interesse de pedir a alguém que lhe descrevesse a figura que está na nota, memorizar essa descrição e descobrir alguém com conhecimento suficiente da numismática ou historiografia americana para lhe dizer o nome da figura.
    Ah, bom!

    >E se o irmão não fosse tão perfeitamente mau e a sua redenção tão >dramática, a coisa não funcionava lá muito bem.
    Não pago 5 euros para ir assistir ao trabalho de argumentistas preguiçosos ou sem imaginação.

    >E é isto. Para piscar o olho ao público indiano sem deixar de competir >nos mercados europeu e americano, tinha mesmo que resultar num >certo pastiche, mas isso foi acolhido por Hollywood como sinal de >cosmopolitismo, numa época em que o «hibridismo» se tornou o >espírito do tempo.

    Olha, obrigado, acabaste de verbalizar mais uma razão para eu não gostar do filme: o de ser o equivalente fílmico das bandas de pop-opera, pop-gregoriano ou tecno-pitoresco em que tudo é reduzido à mesma batida monótona e insípida. Os Gregorian devem estar a preparar-se para o Grammy.

    De Puta Madre:
    >Eu explico-te:
    >As pessoazinhas ( todinhas!) gostam de OUVIR UMA BOA HISTÓRIA!

    É verdade. Quando tinha 5 anos gostava de histórias incoerentes e com morais ultra-óbvias e reaccionárias. Mas mesmo assim não me lembro de a meio da história o lobo mau se tornar no defensor suicida do Capuchinho Vermelho – a não ser em paródias.
    Talvez seja esse o problema. Se o filme fosse vendido como uma comédia absurda, talvez eu tivesse gostado mais.

    H. Ramos
    >És um idiota.

    Há anos que não ouvia um argumento tão fundamentado e convincente. Aliás, desde o tempo em que ouvia a história do Capuchinho Vermelho.

  15. Sinceramente, Jorge, se eu quisesse fazer um comentário com um título destes – ‘Top 10 das razões por que Slumdog Millionaire é um filme completamente cretino’ – teria falado de cinema. Um filme que começa com um puto a atirar-se para um charco de merda por causa de um autógrafo aguenta bem com ausências de alarmes em mercedes, cegos a reconhecer notas de 100 dólares, mosqueteiros heróis de bairros de lata indianos e irmãos fechados em casa de banho (para acabar, eu e o filme, como comecei).

  16. Jamal diz:

    Que grande cretino que és.

  17. Não vou tão longe, mas não gostei nada do filme. Uma banalidade.

  18. Não iria tão longe ao ponto de elaborar uma lista assim, mas também achei o filme uma banalidade.

  19. patricio diz:

    E que tal ter posto um aviso de spoiler?
    Só para me vingar digo-vos que o Darth Vader é o PAI do Luke!

  20. Jorge: obrigado pela resposta.

    Quando dizes

    «Seria como no Harry Potter dizerem-nos que a vassouras voam e mais adiante, sem qualquer explicação, uma vassoura não voar»

    estás precisamente a tocar no fulcro (palavra horrenda) da questão: se isso acontecesse num filme do Harry Potter não estaríamos perante o género «maravilhoso», mas perante o «fantástico», género em que se enquadra o Slumdog. No «maravilhoso», todo o universo referenciado remete para uma realidade alternativa onde, por exemplo, há vassouras que voam sem mais nem menos. No «fantástico», a realidade é em tudo semelhante à nossa, mas determinados acontecimentos fogem dessa concepção criando espanto. É isso que acontece nos contos do Lovecraft, por exemplo.

    Também afirmas que o filme não tem coerência interna. Mas o que apontas no teu post são incoerências perante a nossa realidade e não aquela que é construída pelo filme.

  21. Jorge diz:

    >Comentário de patricio
    >E que tal ter posto um aviso de spoiler?

    No topo do post falo em “revelações”, que me parece a palavra portuguesa mais apropriada para “spoiler”.

  22. Jorge diz:

    Caro João Pedro da Costa,

    Não concordo. Penso que o filme tenta juntar dois universos díspares. Um universo que consideramos real, embora seja na verdade televisiva, de concursos, de bairros de lata, de conflitos religiosos, de violência policial, de miséria terceiro-mundista, e um universo de conto de fadas dickensiano. Esta conjugação não é em si original, pois já temos o realismo mágico latino-americano.
    Só que esta combinação tem intuitos meramente comerciais, de suscitar a lagrimazinha em relação ao desgraçadinho e em relação ao final feliz. Não servem para se ajudar a compreender mutuamente (como acontece no bom realismo mágico) nem criam um universo consistente.
    Pior ainda, e é isso que critico, é que esta combinação serve apenas para legitimar saltos preguiçosos de lógica narrativa, num jogo conveniente entre realidade e fantasia. No filme pedem-nos para acreditarmos que cegam crianças na Índia para ganharem mais dinheiros de esmolas. Nós acreditamos. Logo a seguir pedem-nos para acreditar que uma criança cega indiana recebe rotineiramente notas de 100 dólares, que as sabe identificar pelo aspecto físico do homenzinho que lá está e que até sabe que esse homenzinho do século XVIII que viveu do outro lado do mundo se chamava Benjamin Franklin. Em que é que ficamos? Isto é fantasia mágica ou é realidade televisiva?

  23. Não, Jorge, ainda não estás lá. Continuas sempre a explicitar incongruências referenciais da obra. E depois vais para questões teleológicas que não passam de especulativas («intuitos meramente comerciais»). E, desde quando, um filme que junta dois universos tem de ter como função «ajudar a compreender» dois (ou mais) universos? Há aqui muito ideologia na crítica que fazes ao filme. O que é válido, claro, mas apenas aflora a concepção estética da obra.

  24. Jorge diz:

    Um filme que junta dois universos tem a obrigação de construir um único universo ficcional coerente que assente num conjunto de referenciais apresentados de forma convincente de modo a gerar a “willing suspension of disbelief”.
    Isto é, gera-se um pacto entre o autor da obra ficcional e o seu consumidor, em que o segundo aceita que a narrativa relatada não se conforma ao seu conhecimento do real, desde que o autor se comprometa a não violar as leis do verosímil.
    Ponto prévio – a partir do momento em que o consumidor não exerce o seu papel de “willing suspension of disbelief”, tal pode dever-se a duas razões: 1) porque o autor não cumpriu correctamente a sua tarefa (que é aquilo que eu quis demonstrar com o post); 2) porque o consumidor tem razões para não cumprir o seu papel (que é o que estás a tentar provar).

    As leis da verosimilhança são coisas um bocado complicadas, que Diderot define como sendo as exigências necessárias da própria história, mas que para Todorov também podem ser os efeitos retóricos que o autor consegue construir para mascarar a fuga à realidade e às exigências narrativas. O que ficou demonstrado neste post é que o filme não consegue criar uma narrativa “verosímil”, porque não tem uma construção persuasiva suficientemente boa e porque os saltos convenientes entre universos parecem batotas para contornar as exigências da própria história. E é por isso que o filme como objecto narrativo (onde incido a maior parte das minhas críticas) é mau.

    E, já agora, como é que se faz crítica sem ideologia? Todo o julgamento estético implica inevitavelmente um julgamento moral, já dizia Keats.

    Eu percebo que estejas a tentar demonstrar que não gostei do filme por motivos ideológicos. Mas isso é maioritariamente errado. Não gostei do filme porque estava mal-feito e me insultou a inteligência. Há filmes cuja ideologia me desagrada profundamente mas cuja construção estética me fascina (os de John Ford e Lars von Trier, só para citar dois casos que me vêm agora à ideia).

  25. Jose Rodrigues diz:

    O filme tem muitos estereotipos (Bolly-Hodywoodescos). É verdade. Mas a pobreza que mostra é bem real. Isso é muito importante. O filme mostra o que as castas altas não mostram ao mundo nem à própria India: a miséria atroz e as desigualdades que o “capital” tão bem aproveita para investir aproveitando a sua mão de obra quase – escrava. As castas mais altas “típicas representantes do terceiro – mundismo patriótico” sentiram-se ofendidas com o filme porque ele expõe o resultado de essa estratificação brutal e obsoleta que corrói esse país. Estas castas querem o povo alienado com filminhos típicos de Bolly(Holly)wood. Muitas críticas feitas ao filme são válidas mas não foi isso que ofendeu às altas esferas dessa Índia tão estratificada. Gostei por isso do filme.

    J. R.

  26. tania diz:

    achei simplesmemte fantástico a discussão que aqui se gerou.. jorge e joão pedro da costa, muito bem, é com gosto e diversão que vejo o vosso ferveroso diálogo (que nem estudante que em vez de ter vida própria vem para bloges alheio falar de coisas que lhe nao dizem respeito)

    eu gostei do filme e nao vou argumentar. gostei porque sim!

  27. Jocamoca diz:

    Jorge,

    como eu gostava de cada vez que fosse ao cinema, pagasse 5 euros e saísse a dizer foi o melhor filme da minha vida! Já viste como seria!?
    Das duas, uma, ou nunca ia ao cinema, ou então tinham de estar sempre a lançar grandes filmes…
    Aposto que o teu filme favorito é o “Gomorra”…

  28. Mia diz:

    Começo com um comentário para esclarecer quem pensa que não, na Índia não se cegam crianças dos bairros de lata para que consigam mais esmolas… Vi uma vez um documentário sobre a Índia e os seus bairros paupérrimos e uma das coisas que mais me marcou foi o facto de o rio Ganges ser usado como depósito para membros, inferiores e superiores, de crianças que são amputadas para terem mais ‘sucesso’ nos seus peditórios, apesar de serem perfeitamente saudáveis. Se acham que isto não acontece, então não é o filme que anda fora da realidade, mas vocês mesmos… Quanto ao filme, eu gostei, amei, adorei e é um filme que vou querer ver novamente, sem dúvida! É uma obra de ficção baseada em alguns aspectos de uma cultura que não conheço bem, por isso não vou comentar a verosimilhança de algumas situações do filme. É óbvio que a parte do concurso e a maioria das perguntas que são feitas são completamente fora, mas a história de vida do Jamal poderia bem ser a história de muitos meninos indianos… E já agora, se vão ver uma obra de ficção, não estejam o filme inteiro à procura de incongruências, dessa forma nunca poderão desfrutar da obra como deve ser. A mim faz-me muito mais confusão como é que um guerreiro sozinho, no meio da selva, ferido e a esvair-se em sangue consegue acabar com exércitos inteiros armados até aos dentes! Ou o lutador que passa meia hora a levar pancada no ringue e está prestes a desfalecer quando, de repente, sobe-lhe uma força pelo corpo acima, vinda sabe Deus de onde, e dá cabo do adversário… Ou os filmes de terror, cheios de almas penadas e espíritos do outro mundo!… Ou, ainda, os filmes de acção em que os carros quase voam em perseguições loucas e nunca se estragam nem estampam. Mas mesmo quando vejo estes géneros de filmes consigo abstrair-me um pouco da realidade e tento entrar na história e perceber a mensagem que se quer passar. Ou apenas divertir-me, caso não haja mensagem alguma. Obviamente que há filmes intragáveis. Mas respeito completamente a opinião de quem deles gosta, como a opinião de quem não gosta de filmes que eu considero bons.

  29. Helder diz:

    Nao sei se sabes distinguir um filme social, a um filme veridico…
    Mas só tenho 2 comentarios a fazer.te:
    1º Es muito mau a fazer criticas “destrutivas”, sao pessoas como tu que fazem com que o filme seja muito bom. Vao na “desilusao” de ver um filme cheio de criticas e saem radiantes.
    2º Só, e repito “só” foi eleito o filme do ano pela academia de oscares.

    Agora das duas, tres. . .
    Ou es fã da marvel, ou entao tens olho para o cinema.
    Btw sou um simples “desempregado”, amador de cinema.

  30. Yapë QdM diz:

    és um corno sem vida!!!

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