Mas onde estava esta gente, agora tão activa, há uns anos?

41704071

Edward Kienholz, The Illegal Operation

Lê-se o que os responsáveis de uma tal Federação Portuguesa pela Vida escrevem e dizem por estes dias e não se acredita.
«De facto, as grandes vítimas da liberalização do aborto são as mulheres. Aquilo que todos os dias encontramos são mulheres com depressões, arrastadas, pela situação do aborto», garante Isilda Pegado. Mas como era antes da legalização da IVG? Corria tudo melhor às mulheres por abortarem no meio de baratas? Ficavam menos deprimidas quando se viam presas? Ou quando chegavam ao hospital para raspagens de emergência e ainda eram insultadas pelos profissionais de saúde mais beatos?
Mas é um outro ideólogo da coisa, Pinheiro Torres, a ganhar o prémio da sugestão mais cruel e alucinada: «é um direito das mulheres, que ao menos sejam confrontadas com aquilo que representa uma gravidez. Façam a ecografia e mostrem-na.» Como é típico de quem quer impor as suas ideias sobre vida, morte e moral a toda a gente, este senhor confunde um direito com uma obrigação. E toma as mulheres por imbecis incapazes de perceberem o que estão a fazer sem antes verem uns bonecos. Só faltava mesmo a quem já está prestes a passar por um dos momentos mais difíceis da sua vida ter de levar com malta desta aos urros, com um crucifixo numa mão e um porta-chaves do “Zezinho” na outra.
Antes do referendo é que estava tudo bem; ou, pelo menos, bem melhor que agora: «Os senhores da liberalização herdaram um país com as mais baixas taxas de aborto da Europa, como agora se comprova…» E até a fuga do ogre Jardim ao cumprimento da lei é tida por exemplar, estando mal quem impôs a legalidade: «A Região Autónoma da Madeira, durante meses, resistiu à aplicação da lei – folhetim que demonstra bem a prepotência do poder central.»
E que bem se estava antes, quando só as senhoras de posses podiam enviar as filhas para o estrangeiro a fim de se livrarem dos incómodos. Quando ninguém sabia ao certo quantos abortos eram executados ou em que condições. Mas não me recordo então nem destes senhores a vociferar contra a barbárie nem de ver molhadas de associações de ratos de sacristia a alastrar como cogumelos bafientos.
Este agrupamento, em particular, diz que «Portugal, através da Federação Portuguesa pela Vida acaba de subscrever um pedido dirigido às Nações Unidas» blá, blá. Vejam se entendem: ninguém vos mandatou para servir de veículo à vontade do país. Para saber qual ela era, tivemos um referendo. Subscrevam o que quiserem em vosso nome. Mostrem ecografias às vossas filhas. Proíbam as vossas mulheres de abortar. Deixem as restantes pessoas em paz com as suas consciências e com as suas acções.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

11 Responses to Mas onde estava esta gente, agora tão activa, há uns anos?

  1. Pingback: O aborto ataca de novo « Solstício

Os comentários estão fechados.