Let’s have a fucking look at you

Não existir, para quem esteja tentado a experimentar, não nos põe a salvo de irritações. Aqui há dias, nos bas-fonds dos comentários deste blogue, uma mulher teve a ousadia de questionar o nariz da Fernanda Câncio e de lhe recomendar rinoplastia. Discutia-se a sua polémica emulação de Zola, mas com tanto argumento por onde pegar, a comentadora preferiu apontar um “j’accuse” ao nariz da jornalista. Mais adiante, a comentadora admitia que podemos perdoar “um nariz disforme” a um homem, o que até pode ter o seu charme. A uma mulher? Não. Presumo que a dualidade de critérios seja extensível a outras imperfeições estéticas: homens obesos, sim; mulheres acima do 38, não; para eles, o charme das cãs; tintas & horas de cabeleireiro para nós. E para narizes fora da norma comunitária, plástica compulsiva com elas. Edificante, sim senhor: dois milénios após o pioneirismo de Cleópatra (dont le nez, “s’il eût été plus court, toute la face de la terre aurait changé”), as mulheres continuam a não ser senhoras do tamanho dos seus narizes. Gosto do nariz da Fernanda, e acho-a, no que não estou sozinha, uma mulher atraente. Mas podia não sê-lo, e igualmente me subiria a mostarda ao nariz ao ler barbaridades daquelas. Acho de um lombrosismo imbecil fazer julgamentos de carácter based on someone’s looks (pelo menos quando não se quer levar a pessoa para a cama), e irrita-me que este tipo de argumento continue a servir sobretudo para desqualificar as mulheres. A coisa, para o meu nariz delicado, fede a estupidez e maldade, capazes de me provocar, culpa de um cristianismo mal abjurado, uma fúria de proporções bíblicas, daquelas do antigo testamento. No espírito da lei de Talião, apetece-me por isso repetir à comentadora ofendida com o tamanho do nariz da f. a fina frase que Sir T., a quem contei o caso (e que não cessa de pasmar com a misoginia do nosso belo Portugal), disse em sua intenção: “Let’s have a fucking look at you, then”.

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7 respostas a Let’s have a fucking look at you

  1. Pedro diz:

    Morgada, em questões de narizes ainda não se ultrapassou a célebre réplica do grand seigneur Cyrano de Bergerac a um impertinente que se atreveu a gozar com o seu nariz. É tiro e queda.

  2. Morgada,
    Apesar das patilhas e da inexistência é um grande texto.

  3. Bem. N deve ser coisa lá muito boa para os próprios. Não é que o Javier Bardem ( o Cara-de-Pão-Caseiro) andou a adulterar o nariz partido ( Lindo!) que tinha …

    Bem. Isto é conversa de postigo entre-aberto … bah!

  4. Maria Bolacha diz:

    Eu acho-a feia. E acho que tem uma personalidade bizarra.
    Porque é que as duas coisas são incompativeis?

  5. António Figueira diz:

    Eu acho que esse comentário não devia ter passado: comentar a forma do nariz de alguém é tão inaceitável como referir a sua cor de pele (ou de cabelo, ou a sua estatura, ou outra característica física qualquer); mas quem nunca deixou passar um comentário foleiro que atire a primeira pedra. (Dito isto: e o que é que tem o nariz da Fernando Câncio? Para o melhor e para o pior, a mim escapa-me, mas desde já aviso que não tenciono discutir mais o assunto).

  6. Cá por mim adoro o nariz da F. Os narizes aduncos e aquilinos sempre me encantaram.
    Acho muito bem que se fale do nariz da F. À falta de melhor.

  7. Morgada de V. diz:

    Aproveito breve janela de oportunidade ontológica para agradecer a todos: Pedro, touché(e); Nuno, des rouflaquettes, je vous assure que je n’en ai pas, mas obrigada novamente for your v kind words; De Puta Madre, conversa de comadres é fazer confusão de narizes entre argumentos e falácias ad feminam; Maria Bolacha, leia, releia & não tresleia: o que é que a beleza tem a ver com as calças?; António, tem razão em tudo (até porque os comentários não são aprovados pelos autores dos posts e uma pessoa distrai-se), mas a pedra na minha funda não era para ninguém em especial, e sim para os maus hábitos dialécticos que empestam as caixas de comentários; miguel dias, a ideia era que as pessoas vissem além da ponta do nariz, seu & alheio. Janelita (ou postigo) a fechar, am out of here.

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