Por falar em convergência de esquerda

Todos parecem falar em convergências quando se preparam para divergir a grande velocidade. As bandeirinhas falam mais alto do que as necessidades políticas. É preciso perceber que uma grande coligação eleitoral entre Bloco, PCP, alegristas , outros sectores de esquerda do PS e independentes não significa que não se mantenham profundas diferenças. Apenas significa que a grande divisão eleitoral se faz entre aqueles que querem gerir este sistema, tal como ele está, e um conjunto de forças que aposta numa política social e numa aposta no sector público que faça a diferença no combate às desigualdades e à total desregulamentação do neoliberalismo selvagem – este deve ser um programa mínimo da unidade das esquerdas.
A ideologia não se esgota nas eleições. Nem as urnas encerram toda a política. Esta coligação apenas significa a negação da política do quanto pior melhor, e a afirmação da necessidade de uma alternativa de esquerda que ambicione mudar o poder e a governação num determinado sentido: é preciso ter a ambição de melhorar a vida das pessoas no presente.
Todas as coisas que se ouvem falar aos dirigentes do PCP e do Bloco não se inscrevem nesse objectivo de criar um polo eleitoral com a ambição de ganhar, mas apenas criar pequenas vantagens eleitorais, com a suprema ambição de derrotar as forças de esquerda mais perto de si. Sempre que o Bloco fala de convergência, quer todas as convergências para o Bloco derrotar o PCP. Jerónimo Sousa faz o mesmo, com a agravante que o PCP ainda não percebeu que a CDU não é convergência nenhuma. Coligar significa trabalhar com gente livre que pense diferente, não com funcionários do partido travestidos de ecologistas, que depois de uma comissão de serviço, voltam ao partido.
O BE e o PCP podem crescer eleitoralmente sem que nada de diferente aconteça. E sem sequer merecerem. A única diferença que pode acontecer é se vai aparecer eleitoralmente, saindo do PS pela esquerda, uma força política que queira criar essa diferença, e que com a sua existência possa abrir o caminho a uma convergência das esquerdas. O mundo não acaba nas próximas eleições. Se for possível conseguir que a esquerda do PS vire as costas ao partido dos tachos, dos interesses nebulosos com o sector privado e de, como dizia o ministro Santos Silva, da “governança”, já se conseguirá algo de estratégico para a renovação da esquerda.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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