Mitomania

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Francamente, invocar Zola e o Caso Dreyfus a propósito do nosso rasteiro escândalozito de umas luvas que terão ou não sido pagas à conta de um shopping de arrabalde parece ideia descabelada. Nem a Fernanda Câncio nem José Sócrates terão estatura para tais papéis. Nem se imagina como é que um passado recente de acusações vigorosas e assertivas veio agora descambar neste calimerismo de ocasião. Há uns meses, a mesma cronista apontava o dedo à invocação que Santana Lopes fez do seu pai, a propósito das embrulhadas do Casino de Lisboa: «é uma interessante linha de defesa, que apenas peca por dois pequenos defeitos. O primeiro é não esclarecer nada quanto ao fundo da questão – seja o caso do casino de Lisboa, seja outro qualquer.» E o dedito acusador lá seguia, embora sem a franqueza elegante de um Zola: «a ausência de decência de que já fez uso em relação aos seus opositores é afinal o espelho da forma como trata aqueles que mais respeito e resguardo lhe deveriam merecer» (sounds familiar?).
Hoje, as invectivas já não se viram contra os poderosos que adoram queixar-se de metafóricos pontapés em incubadoras ou de campanhas negras de nevoenta origem e maléficos propósitos. Não. Hoje, quem mal anda é essa «gente que, quiçá imaginando-se da estirpe do autor de J’accuse, se compraz em funcionar como guarda avançada» de uma tal «instrumentalização da verdade» – sendo que esta expressão nem sequer se entende; a verdade deixa de ser verdade quando é usada seja para o que for? As voltas que o mundo dá em tão pouco tempo.

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