Cinco passos de dança

No princípio está essa meritória instituição, tantas vezes por mim elogiada, chamada Livros Cotovia, por via das quais conheci em 2007 Bernardo Carvalho e agora, na passagem de 2008 para 2009, com muitos de anos de atraso sobre o calendário ideal mas faz-se o que se pode, descubro Sérgio Sant’Anna e “Um crime delicado”, presente de Natal do meu irmão P., inspirado sabe-se lá por quem. Depois está o Sérgio Sant’Anna ele próprio, do qual, depois de “Um crime…”, li também “O Monstro”, apenas para consolidar duas impressões aliás três, de que o autor possui uma estranha propensão para as vítimas com deficiência (coxa, uma, cega, outra) e de que, por vezes mais palavroso do que devia, tem mais graça por aquilo que conta do que pela forma como o faz (a terceira impressão, consolidada, é a de que, em qualquer caso, lê-lo vale bem o tempo que demora). Seguidamente, a descoberta, no terceiro dos contos que compõem “O Monstro”, da definição de “lança-perfume”: “-O que é lança-perfume? -Era. Agora está proibido há muito tempo. Era um frasco com éter, que as pessoas compravam durante o Carnaval, principalmente. Os mais inocentes usavam aquilo para lançar éter perfumado geladinho na pele dos outros, nos bailes e nas ruas. Era até um modo de homens e mulheres se cortejarem . Outros […] injectavam a substância num lenço para cheirá-la.” Em quarto e penúltimo lugar, a lembrança por isso do velho “Lança-Perfume” de Rita Lee e, por causa dele, do divertido disco-sound brasileiro dos meus dezasseis anos (“lindo, leve e solto”, diziam elas). Last but not least (descobri porquê entre os segundos 35 e 38 do vídeo que ides ver, se aqui clicardes), uma versão João Gilberto do grande hino de Caetano Veloso a São Paulo – Sampa – que só me dá vontade é de ser paulista e cometer crimes delicados. Ita missa est, amusez vous bien, have a nice Sunday.

PS Champanhe no lugar de champagne não me incomoda, claro, sutiã em vez de soutien já me chateia um bocadinho, penhoar por peignoir é uma agressão visual – e, não sei se é de propósito, mas as personagens de S.S. passam a vida a usar a p-word.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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4 respostas a Cinco passos de dança

  1. Paula Telo Alves diz:

    Gostei às carradas dessa versão delicada da Sampa. Que bela maneira de começar um domingo.

  2. Pedro Ferreira diz:

    António, deixas-me com vontade de descobrir esse autor, a tua descrição faz-me pensar no Rubem Fonseca e do seu extraordinário personagem Dr Mandrake que descobri graça a ti.

  3. Gralha!: “ItE, missa est”.

    Duvidoso, Dorean: consultei o meu irmão latinista e ele deu-me as duas opções.
    AF

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