Um tiro na cabeça à queima-roupa

[…] o relatório pericial à roupa do morto compromete o agente da PSP.

A quantidade de vestígios de pólvora no gorro do casaco da vítima, apurou o CM, dá à Judiciária a certeza de que ‘Kuku’ foi abatido com um tiro a cerca de dez centímetros da cabeça. À queima-roupa.

A semana passada um miúdo de 14 anos foi abatido com um tiro na cabeça por um agente da PSP. No comunicado de imprensa a polícia justificava-se:
“Perante a ameaça com que o elemento policial se deparou e após esgotadas as advertências e avisos necessários à extinção do perigo iminente, foi necessário fazer recurso à arma policial”

Não acreditei nesta versão, por 5 razões:

1- Implausibilidade do conteúdo. O cenário de um suspeito em fuga não é coerente com “após esgotadas todas as outras hipóteses” no sentido em que há sempre a hipótese de deixar o suspeito fugir.

2- Forma. Demasiado parecido com um cópia-cola dos textos de procedimentos.

3- História recente de comunicados por parte da polícia nestas situações cuja versão inicial é rapidamente sujeita a sucessivas correcções. Exemplo disso foi a morte a tiro de uma criança por parte da GNR este Verão. A versão inicial foi de que foi aberto fogo aos pneus em legítima defesa para evitar um atropelamento e no final apurou-se que o veículo já ia em fuga quando se deram os disparos.

4- História documentada de tendência para o descuido e atitude irresponsável na utilização de armas por parte das forças policiais (que, como disse o Inspector-Geral da Administração Interna Clemente Lima há cerca de um ano:

“Há por aí muita cowboyada de filmes americanos na mentalidade de alguns polícias […] Temos tido a esse nível casos recorrentes. Mas a repetição de casos isolados preocupa-me.”

5- Finalmente, porque esta é a versão de quem matou, de quem tem razões óbvias para fornecer declarações que lhe sejam favoráveis. Não desconfiar da veracidade das declarações de um suspeito de homicídio que se declara inocente seria ingenuidade.

Foi-me chamada a atenção (com razão) que, até serem apurados mais factos, deveria, no entanto, dar o benefício da dúvida.

Agora a PJ apurou mais factos: o polícia que matou o jovem faltou realmente à verdade, tanto na sua primeira versão (em que disse que matou o jovem a uma distância de 2 metros) como na segunda (em que reduziu esta distância para meio metro). Afinal, diz a PJ, matou-o com um tiro na cabeça à queima-roupa.

[Ps.: Um comentador alerta para uma manifestação de pesar pela morte do rapaz. Não estou a par do horário, mas é amanhã em Casal da Boba, e o motivo parece-me nobre.]

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