Um dos lugares mais sórdidos do mundo: recordar a prisão israelita de Khiam (porque é preciso não a esquecer)

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Deveria falar, por exemplo, de Abu Ghraib?
Não leitor, apesar do que foi esse nome e lugar trágico não creio que se possa comparar com o que sabemos de Khiam, no sul do Líbano.
Poderia falar de Guantánamo? Não leitor, quanto a prisões sórdidas e abjectas creio que pouco ou nada se pode comparar ao campo de detenção e tortura israelita de Khiam. Evoco aqui Khiam, por várias ordens de razões – porque os crimes de guerra cometidos ao longo de décadas por Israel não devem ser esquecidos. O Médio-Oriente terá de negociar um futuro, qualquer que ele seja, sem esquecer o passado.
Evoco Khiam porque creio que, neste momento Israel, e creio-o convictamente, não pretende derrotar o Hamas, mas humilhar a comunidade palestiniana de Gaza por inteiro. Ora tal humilhação, deverá ser seguida, é norma nestes casos, por uma forma qualquer de ocupação e “monitorização”, e isso só se possibilita com uma guerra de propaganda e violência que levará tarde ou cedo à criação de outros lugares como Khiam, a Khiam do sul do Líbano – aparecerão outras “khiams” para combater quem não se deixa tomar ou quem se alia a quem não se deixa nunca tomar (e “tomar” é mais certeiro que “ocupar”, pois Israel não pretende ocupar, mas “tomar” uma comunidade cancelando a sua existência o mais possível). É neste sentido que evoco Khiam, o campo israelita de detenção, terror e tortura no sul do Líbano, instrumento que foi de uma outra invasão e ocupação. Pois só se pode ocupar, ou “tomar”, com muitos “khiams”, e outros ainda nascerão por certo. Seguidamente, em Gaza.
Edward Said visitou com a família (filho e filha e respectivos noiva e companheiro) o sul do Líbano já liberto de Israel em 2000. Descreve deste modo a visita a Khiam: “Em primeiro lugar visitámos a [entretanto abandonada] prisão de Khiam, o que nos causou uma terrível impressão. Vi muita coisa desoladora ao longo da minha vida, mas este lugar foi provavelmente o pior que visitei. As celas de confinamento solitário, as câmaras de tortura. Os instrumentos de tortura ainda estavam nos seus lugares, todos os instrumentos eléctricos que eles usavam. O lugar exalava abusos de toda a ordem e um intenso cheiro de excrementos humanos. Poucas palavras expressavam o terror desta visita, tanto assim que a minha filha se prostrou num pranto soluçante” (1). Vamos ler e ver o “resto”.

Israel ocupou o sul do Líbano entre 1982 e 2000. Nesse período de tempo criou o campo de detenção, tortura e morte de Khiam na povoação com o mesmo nome. O campo foi desde logo considerado um dos lugares prisionais mais tenebrosos do mundo. Antes, nesse tempo, foi portanto um lugar de tortura e morte, hoje é um monumento à barbárie e ao desprezo pelo humano (não posso neste momento precisar, mas creio que Israel tentou danificar estes seus restos de inumanidade nos bombardeamentos de 2006 – creio que não apagou quase nada, ou melhor, como veremos, não apagou nada, porque quase tudo se conhece sobre Khiam).
Como se sabe, nesta invasão do Líbano de 1982 o exército israelita foi comandado por Sharon (ministro da Defesa). De imediato apoiou uma milícia obediente em tudo, o chamado “Exército do Sul do Líbano”. Foi com este ESL que Israel montou e “geriu” o campo prisional de Khiam.

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 A norma “arquitectónica” das celas e dos corredores de Khiam era a da “promoção” de um estado confusional que mantinha os seus internos numa indeterminação da percepção – não havia dia nem noite.
Nestes termos, as celas de Khiam não recebiam qualquer luz e possuíam apenas um pequeno buraco no tecto (respirador e / ou entrada de luz, ou algo que se aparentava com luz). As grades de cada porta de cela (ferro) eram tão justas que quase nem deixavam passar a escassa ou inexistente “luz” dos corredores interiores, ou seja, não permitiam sequer aceder a essa confusão perceptiva entre o dia e a noite.
Havia celas de isolamento, de interrogação e colectivas de punição. Em cada cela punitiva individual apenas cabia uma pessoa ajoelhada, nada lá mais cabia. A punição neste espaço, a obrigação de lá permanecer durava sempre mais do que dez dias (de cada vez – depois, mais dez ou, de novo, mais dez dias).

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Obviamente para ingressar em Khiam não havia “necessidade” de mandados de detenção e sabe-se que entre 1987 e cerca de 1995 os presos não contactaram as suas famílias nem praticamente ninguém do exterior.

Um caso conhecido.
Ryadh Kalekesh foi preso na Primavera de 1986. De imediato foi torturado: de mãos e pés algemado, foi obrigado a nomear “sabotadores” (ou seja, libaneses no seu próprio país, pois todos os libaneses eram “sabotadores”), foi mantido durante mais de sete horas de pé, colapsando a intervalos de quinze em quinze minutos.
Os prisioneiros eram obrigados a urinar e a defecar sempre nas suas celas. Regra geral podiam estar entre quinze ou vinte dias sem defecar, pois os seus carcereiros raramente lhes davam qualquer coisa de comer. Choques eléctricos na língua e genitais eram muitíssimo frequentes, e se os presos resistiam à tortura esta alargava-se frequentemente à sua família (só por ser família, gente próxima).
Em 1993, Adel, irmão de Kalekesh foi preso em Khiam, apenas por ser irmão de Kalekesh. Adel foi um dos muitos que suportaram todas as torturas possíveis (como muitos outros não suportavam e faleciam, não raras vezes). Por isso, os israelitas prenderam a sua mulher. A mulher de Adel estava grávida e a estratégia dos carcereiros era a seguinte: faziam-na ouvir, permanentemente, os gritos do seu marido e do seu cunhado sendo torturados e brutalizados. Suspendiam-lhe eléctrodos nos mamilos e só por ser cunhada de um pretenso “suspeito” (e “suspeito” apenas por ser libanês, era, claro está, razão suficiente) foi mantida durante mais de três meses em “isolamento”, sujeita a tentativas de violação vindo a perder o filho em Khiam.
Um dos métodos de tortura mais conhecidos de Khiam era o “poste”. O preso era colocado de pé numa rigorosa verticalidade, os seus braços e mãos eram ligados, juntos e ao máximo esticados. Podiam ficar assim esticados e pendurados (apenas com os dedos dos pés aflorando o chão), nus, durante cerca de dez dias. Um dos presos, S. Ramadan, teve de amputar um dos seus braços.
A todos os presos era permitido um banho em cada quarenta dias e um recreio de quinze minutos por semana. Apenas quinze minutos de luz por semana – não era um “procedimento” de tortura, era a regra do campo de detenção.

 

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O perímetro exterior da prisão estava completamente minado, qualquer tentativa de fuga terminava em morte quase certa (era impossível uma fuga “bem sucedida”), e ainda hoje nunhuma árvore pega naquele terreno circundante.

Mais detalhadamente, as celas punitivas tinham pouco mais de 1.80 por 1m. Como disse, pouca ou nenhuma ventilação e nenhuma casa de banho, nenhum espaço para necessidades. Estas celas punitivas “solitárias” e de “isolamento” (quando de “isolamento” já eram as celas “normais”) destinavam-se a represálias que podiam obrigar o preso a permanecer lá por semanas ou mesmo vários meses.

Outras celas podiam albergar cerca de seis pessoas em áreas de, mais ou menos, 2.25 x 2.25m.

Ser nesse tempo aprisionado pelos israelitas em todo o sul do Líbano, ou ser levado expressamente para Khiam, significava naturalmente para uma qualquer família uma absoluta incógnita sobre o futuro do seu ente. Por exemplo, Feyrouz Hanzi, mulher do professor Abdullah Hanzi, esteve algum tempo sem saber para onde os israelitas levaram o seu marido. Esteve três semanas em dúvida sobre o seu paradeiro, quando logo no início dessa contagem de tempo ele já tinha falecido em Khiam.

Em 2000, Khiam deixou de existir como campo de detenção, tortura e morte, quando os israelitas abandonaram o sul do Líbano. Quando foi possível, locais e outros populares dirigiram-se para Khiam para libertar os sobreviventes. Mas, sobre Khiam muito mais haveria a dizer, muitos mais casos a relatar. Por agora por aqui ficamos.

Até à próxima “Khiam”, na Faixa de Gaza talvez.

Segue-se um documentário sobre o local, a vila e a prisão.

Nota: (1) Edward W. Said, Power, Politics, and Culture: Interviews with Edward W. Said (Gauri Viswanathan, org.), Nova Iorque, Random House, 2001, p. 445.

 

 

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