Ingenuidades

O meu trabalho é divertido. Posso muitas vezes imaginar o que não sou. Tentar entender outras vidas. Respirar com gente estranha. Tenho uma espécie de vida alugada, às vezes por espaços de mais de um mês. Já fui quase artista pimba. Vivi na pele de um devoto de uma igreja adventista. Pesquei. Andei na guerrilha. Falei com vítimas e com verdugos. Acompanhei polícias, cruzei a noite com criminosos. Deixei a, chamada, grande reportagem e há muito tempo que não tenho esta imersão total nos pensamentos de alguém. Apesar disso, sempre achei que a melhor qualidade de um jornalista era empatia. Não fomos feitos para julgar, mas para perceber e contar. Mesmo no trabalho de investigação é necessário tentar imaginar o que fazem e como fazem aqueles que “seguimos”. Mas, nunca estamos preparados para a verdade. No outro dia, perguntei a alguém com responsabilidades na justiça se não achava escandaloso a falta de condenações por corrupção neste país. A pessoa, em questão, mirou-me como quem vê uma criança ingénua e disse-me que ‘em lado nenhum do mundo os poderosos são condenados. Em que mundo pensava eu que vivia?’
Moral da história, não devia ter esquecido uma velha lição, dos meus tempos de militante: em última instância, quando as coisas são a doer (como na justiça), a democracia tem tendência a sair pela janela e a luta de classes a entrar pela porta.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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