Abuso de confiança

Segundo “A Bola” de hoje, o primeiro-ministro “emocionou-se” com a distinção atribuída ontem a Cristiano Ronaldo, de melhor jogador do mundo. A qualidade que eu mais prezava no primeiro-ministro já era a autenticidade; imaginar a “emoção” genuína que José Sócrates deve ter sentido neste momento importante da história nacional só reforça a excelente opinião que tenho da personagem. Mas o primeiro-ministro, levado certamente pelo seu empolgamento, não mediu bem as palavras e exagerou: ainda segundo “A Bola”, terá feito saber (sim, que isto das emoções não são para se esconder) que telefonou ao craque dizendo que “todos nós portugueses vibrámos [de] orgulho quando soubemos da sua escolha”; ora sucede que eu sou português, contribuinte e eleitor, que ontem à noite eu jantei, fumei um cigarro, bebi um copo, fiz dois telefonemas, li umas páginas e disse uns disparates, mas “vibrações” népia, não senti nada. Se o senhor primeiro-ministro insiste em “vibrar”, peço-lhe a fineza de passar a vibrar sozinho ou en petit comité; invocar para o efeito “todos os portugueses”, incluindo os que não lhe passaram procuração para fazer figuras tristes, parece-me um abuso de confiança.

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SEXTA | António Figueira
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