“FORA!”

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Pedro Costa, Juventude em Marcha (2006)
Tenho mantido polémicas agressivas ou simples discussões proveitosas com gente das ciências aqui no 5dias: primeiro com Filipe Moura, longa polémica que começou quando num dos meus primeiros posts fui surpreendido com um tonitruante “porque é que julga que aquilo que gosta ou pensa é importante?”; depois, já à volta de Sokal, com Palmira Silva; entretanto, outras discussões de pouca ou nenhuma agressividade, antes esclarecedoras e edificantes com benefícios mútuos (como uma discussão com Luís Rainha, também sobre o mesmo tema: o problema das ciências humanas e a sua “invasão” no domínio das exactas). Entretanto, cientistas (portugueses) em grande número têm colaborado nas minhas caixas de comentários e sempre no mesmo tom, o que me leva a copiar uma resposta dada atrás a Nuno Anjos (a quem agradeço a colaboração), resposta que me posiciona nestas andanças da relação arte e ciência, aqui na blogosfera encarando-a eu como sintoma de outras esferas mais abrangentes.
Disse a Nuno Anjos (transcrevo com alterações)
“Eu nunca discutiria com Sokal. Pura perda de tempo, desinteresse absoluto – gostaria (gosto) de discutir Lacan ou Deleuze e Derrida com quem necessita destes autores, nunca com sokais. Nem, humildemente o confesso, gostaria de ter um autógrafo do indivíduo. O livro dele (com Bricmont) está numa minha estante junto ao tecto, ao pó e à humidade. E está lá bem, graças a Deus.
Mas a blogosfera abriu-me horizontes espantosos.
Vivi mais ou menos fechado no universo das belas-artes mais de dez anos, primeiro como aluno, depois como professor (actualmente). Isto para dizer que nem suspeitava que existia cá fora e no meio da “ciência portuguesa” (sobretudo no IST) uma suspeição e inimizade ou antagonismo (Mao-Tse Tung diria e muito bem, “contradições antagónicas”) tão grandes pela actividade artística e pela experiência estetico-filosófica.
Confesso que não sabia que os “cientistas portugueses” detestavam tanto a arte e o pensamento contemporâneos. Andei pela escola (FBAUL) como estudante, depois pelos círculos do costume, galerias (como crítico e como artista), museus, história da arte, filosofia, estética, depois pela escola novamente como professor, etc. Vivi num microcosmo, sinceramente, muito salutar. Numa escola diferente onde não há nem nunca houve praxes académicas, não há vivência, da parte dos finalistas, de fitas e fitinhas para bênçãos, nunca vi na faculdade ninguém de capinha preta de “estudante”, não há uma tuna da FBAUL, etc, etc. De facto, o meu mundo é diferente do mundo “científico”.


Mantenham-se pois “cientistas” nos vossos rituais que não apreciamos, nada de misturas, portanto. Por mim, antagonismo total, e tudo marchará bem como sempre. Como diria um cineasta de que eu gosto muitíssimo (o Pedro Costa, que realizou um dos melhores filmes internacionais das últimas décadas, o “Juventude em Marcha”): “FORA !”

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