A verdade, só a verdade e nada mais do que a verdade: a treta do Sokal explicada às crianças

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(Sub-título alterado, 20:26 – onde se lia “a porcaria do Sokal” passou a ler-se “a treta do Sokal”: permite menor dispersão)
A foto é de Heidegger vagueando pela Floresta Negra. E quanto eu o invejo, podendo meditar (certamente) sobre aquilo que é verdadeiramente importante.
Note-se que este post não é uma resposta ao de Luís Rainha em baixo, mas antes a alguns comentários que lá podemos encontrar, juntos aos meus. Há lá três tipos de comentários: um, de um físico que vem dizer que é físico (bom trabalho); outro, que recorre ao insulto (na minha direcção, o que é normal); por fim, o terceiro tipo, aquele que acha que não é preciso conhecer Lacan para saber que este usa a matemática como um “analfabeto matemático” (mas, invertendo a coisa, Sérgio Lavos, protagonista do terceiro tipo de comentários, não vem dizer que não é preciso conhecer a matemática para saber se Lacan é ou não um analfabeto matemático: é uma circularidade absurda, no mínimo: é preciso conhecer a matemática para dizer que Lacan é um analfabeto matemático, mas para afirmar tal de Lacan não é necessário conhecer Lacan: em que ficamos?). E porque é que eu não junto aqui as considerações do Luís como inutilidades? Não é certamente por ambos sermos melómanos, mas porque o Luís escreveu um post interrogativo sobre Sokal, promovendo uma conversa e discussão que foi sabotada pela má-fé (digo eu).
Voltemos então àquilo que Heideggar deve estar a pensar na foto (onde eu gostaria de estar): na linguagem como “a casa do ser”, na esperança derradeira de salvação do humano pela palavra sagrada do poema ou na obra de arte como uma clareira, obra que dá a ver a “terra” depois de instituir ou nela instalar um “mundo”. Heidegger refere-nos dois exemplo de “mundos” que dão a ver a terra: um par de sapatos pintado por Van Gogh e um templo grego. Heidegger, então, n’ A Origem da Obra de Arte sobre o templo:

Ali de pé repousa o edifício sobre o chão de rocha. Este repousar (Aufruhen) da obra faz sobressair do rochedo o obscuro do seu suporte maciço e, todavia, não forçado a nada. Ali de pé, a obra arquitectónica resiste à tempestade que se abate como toda a violência, sendo ela quem mostra a tempestade na sua força. (…) O seu seguro erguer-se torna assim visível o espaço invisível do ar. A imperturbabilidade da obra contrasta com a ondulação das vagas do mar e faz aparecer, a partir da quietude que é a sua, como ele está bravo. A árvore, a erva, a águia e o touro, a serpente e a cigarra adquirem uma saliência da sua forma, e desse modo aparecem como o que são. (…) Chamamos a isso a terra.

Qualquer obra de arte é um mundo que se instala num lugar – a terra – que se esconde. O mundo que é a arte instala-se e irradia a sua abertura em todas as direcções. A obra ilumina o que está à sua volta. A terra, precisamente, o seu fechamento, aquilo que rodeia o “estar-aí” do templo. Este templo é um mundo que faz vir à luz algo que existia soterrado, algo que se fecha por sua natureza intrínseca, ou porque a sua natureza intrínseca não se deixa ver sem a proximidade da obra de arte que é uma espécie de luz. A este dar à luz, a este deixar ver ou ressaltar a terra, refere Heidegger, chamavam os gregos physis.

Bom, isto é mais complexo evidentemente. Corri o risco da simplificação. Está corrido o risco, mas o resultado aonde quero chegar é este: imaginemos que agora, diante da prosa prosa heideggeriana (e eu não digo que a partilho ou que deixo de a partilhar), aparecia alguém, uma “autoridade”, um geógrafo ou um geólogo, dizendo – “mundo” e “terra” não podem ser usados desse modo. Um infeliz como Sokal, digamos, o Sokal da geologia (porque não?) aparecia para dizer que mundo e terra não podem significar o que Heidegger pretende, que este é completamente ignorante sobre os termos ou conceitos que emprega e,  por conseguinte, é uma espécie de impostor, é um impostor intelectual. É um exemplo caricato, ou melhor, é um exemplo extremo, mas é a situação em que Sokal coloca o uso da matemática por Lacan.
Qual é o mérito do Luís nesta discussão? Grande, claro. É o de abrir a discussão sem ter dado aquilo que eu chamo o “passo sokaliano”; que consiste no seguinte: Lacan usa a matemática incorrectamente, outros também o fazem, logo são “impostores intelectuais”, precisamente o título do livro de Sokal e Bricmont. E são impostores porque usam a matemática para embelezar o vazio do seu discurso: precisamente o que Heidegger faz com os termos “mundo” e “terra”. Ou não será? Ora, se o emprego da matemática por Lacan é uma impostura, porque é que o emprego dos termos “mundo” e “terra” por Heidegger estariam “correctos” ou podem ser admitidos como possibilidades?

 

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28 Responses to A verdade, só a verdade e nada mais do que a verdade: a treta do Sokal explicada às crianças

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