Três dias no Norte e na Galiza – I

Sexta-feira fui com D. Manuel III visitar as províncias do Norte & a Galiza, questão de mostrar a Sua Alteza toda a extensão dos seus vastos domínios (a famosa Monarquia do Norte). Fui de carro, Winterreise, auto-estrada à chuva, auto-estrada à chuva, D. Manuel ora conversa ora dorme, nos intervalos my mind is elsewhere. Escolhemos Guimarães pelo patriotismo, Compostela pelo exotismo, e foi judiciosa a escolha. A Galiza é exótica qb, com o seu português escrito à espanhola (porquê o acento em “rúa”?, porquê o éne com til em vez do éne agá?) e com o seu galego falado à castelhana (eu percebo que dizem “muito” em lugar de “mucho”, mas tiro a palavra galega de uma gestalt castelhana, porque a prosódia, o acento, o sotaque castelhano invade tudo, passa-se o mesmo com o catalão e até com o basco, os espanhóis falam sempre espanhol em línguas diferentes). Sábado à noite, a selecção galega de futebol (não-oficial) jogava a sua partida anual, desta vez com o Irão; o mesmo jornal que pedia a institucionalização da dita (“podíamos chegar ao Mundial”) embevecia-se, duas páginas à frente, com os feitos do “Spanish Liverpool”, campeão de Inverno em Inglaterra. Apeteceu-me dizer: decidam-se – mas obviamente não disse nada; em vez disso, bati em retirada para Guimarães, em partes iguais vila medieval, remake do Estado Novo e património da Humanidade. Acabei o périplo em S. Miguel de Seide (ou Ceide, não cei), a ouvir uma minhota de metro e meio que me mostrou a casa declamar Camilo, páginas inteiras de Camilo, dichotes de Camilo, palavrões de Camilo (o que ele chamava de “polémicas”): uma graça. Em casa do meu excelente primo V. – o único membro da família que mora a Norte do Tejo – bebi um apoteótico Soalheiro (Alvarinho) e um glorioso Brites d’Aguiar (15º, mas não parece); depois dormi, fiz-me à estrada e cá estou eu outra vez.

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SEXTA | António Figueira
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