Pacheco Pereira tem e não tem razão

Pacheco Pereira tem razão: encontrar nas operações de resgate do BPN ou do BPP a prova de um “regresso de Marx” é puro disparate: se alguma coisa estas operações provam antes, é a permanência de Marx (e de Lénine) e do capitalismo monopolista de Estado: a intervenção dos poderes públicos na economia tem obviamente sentidos diferentes consoante a natureza de classe do Estado e o Estado português que José Sócrates representa, para utilizar a linguagem “sem ironia” de Marx, não está a construir o socialismo, está a servir o capital.

Mas Pacheco Pereira não tem razão: como ele não pode deixar de saber, o pretendido “regresso a Marx” não se esgota nestes casos mais ou menos anedóticos, nem noutros semelhantes mundo fora, longe disso: o cíclico “regresso a Marx” tem que ver com a natureza igualmente cíclica das crises de sobreprodução do capitalismo e com o seu carácter contraditório, que pode assumir (e assume) facetas novas, mas resulta sempre, em última instância, da famosa contradição principal entre a apropriação privada dos meios de produção e o carácter social da produção.

Pacheco Pereira pergunta porquê regresso a Marx e não a Proudhon, Bakunine ou Leão XIII, mas Pacheco Pereira sabe a resposta: porque para perceber o capitalismo e as suas crises todos estes são irrelevantes e Marx não é.

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SEXTA | António Figueira
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