Natal no hospital

Entrar nas Urgências do S. Francisco de Xavier é visitar uma zona de guerra. As obras de remodelação esventraram paredes, tectos, divisórias. Deixando cabos pendurados a esmo, espaços retalhados, zonas de circulação amputadas. Após a triagem, os infelizes que ali vão parar amontoam-se em salas de espera minúsculas, duas das quais são contentores adaptados.  Minutos ou horas depois, são chamados para um “balcão de mulheres”, um “balcão de homens” ou um ominoso “balcão de trauma”, que felizmente não me foi dado ver por dentro.
Nas tais salas, os pacientes por vezes nem têm espaço para se encostar a uma parede, quanto mais um lugar sentado. Amontoam-se as macas com gente que vomita, urina, sangra. Há quem seja algaliado mesmo ali, a centímetros do parceiro de desdita do lado.
O civismo das gentes não ajuda: continuamos a rumar às Urgências ao primeiro sinal de constipação, pois, como berrava ontem um imbecil qualquer, “pagamos impostos como os outros”. Vi sair dali um jovem todo ufano porque só lhe tinham receitado batom para o cieiro – imagino a gravidade da maleita que ali o levou às tantas da noite. Quem tem doenças a sério que se lixe, perdido no meio da confusão.
E este cenário dantesco não representa um pesadelo apenas para os pacientes. Nem consigo imaginar o que é passar ali doze horas, ou coisa que o valha, de banco.

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