O poder da palavra

Ontem fui à bola: cartazes cheios de logótipos – Ministérios, Câmara, Carris, Metro, Benfica & Sporting, por uma vez unidos – todos apelavam a que eu, e os outros como eu, deixássemos os carros em casa e fôssemos para a Luz e para Alvalade, respectivamente, de transportes públicos. Transbordante de espírito cívico, acedi – na expectativa de que haveria de facto transportes públicos para me levar e para me trazer. Mentira: o número de metros, postos em circulação para trazer as vinte e tal mil pessoas que estavam no estádio, parecia exactamente igual ao que habitualmente circula aos sábados à noite, e por isso esperei, esperei, esperei (esperámos, esperámos, esperámos), acabei a viajar como sardinha em lata e, obviamente, da próxima vez volto a ir de carro. Parece evidente que o dinheiro gasto a fabricar cartazes cheios de logótipos seria melhor empregue a providenciar de facto transportes, mas também parece claro que as entidades envolvidas – Ministérios, Câmara, Carris, Metro, eventualmente Benfica & Sporting – acreditam mais nas virtudes salvíficas das simples promessas que fazem do que na prova provada que consistiria na sua efectiva realização: eis uma crendice nacional que me impressiona mas não me comove. Outro exemplo: a reciclagem. Montes de massa, anúncios em prime time televisivo, folhetos, animações, para nos convencer a reciclar, e a saber de cor a que é que corresponde o azul, o amarelo e o verde, e depois os depósitos sempre a transbordar, uma cagada geral que parece que não há vontade nem o mínimo de capacidade de organização necessário para evitar. Apetece perguntar: E se prometessem menos e fizessem mais? – Mas isso, desculpa (explicou-me a este propósito um amigo meu), seria desconhecer o poder extraordinário que a palavra continua a deter entre nós. – Queres mais exemplos? – perguntou ele; – Não, chega – respondi-lhe eu, desmoralizado – já estou a ver o filme todo.

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SEXTA | António Figueira
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