O que faz crescer o voto na esquerda?

Perante a subida de intenções de voto no PS, PCP/PEV e BE, tem havido um curioso debate sobre os seus motivos.
Para o Rui Tavares é porque Portugal é o pais com mais desigualdades em toda a Europa Ocidental. O Pedro Lomba reforça a tese, explicando que “os portugueses mal pagos trabalham todos os dias para os portugueses bem pagos“.
Embora nos possa agradar esta ideia, penso que temos de analisar um pouco melhor o nosso espectro partidário e, sobretudo, o PS. Colocando o PS no contexto dos partidos socialistas europeus, o partido socialista português sempre se caracterizou por uma acção mais à direita que os seus congéneres europeus. Nas últimas décadas em Portugal, para o bem e para o mal, tem sido o PS (umas vezes sozinho, outras com o PSD) que tem levado a cabo as iniciativas mais significativas na formatação do nosso regime político. Seja através de construções positivas, seja destruindo tradicionais políticas consideradas de esquerda (lembremo-nos, por exemplo, da reforma agrária), seja dando o seu apoio a políticas de direita (privatizações, etc).
O seu comportamento histórico é de um partido de centro, e não de centro-esquerda, como é comum dizer-se. Aliás, as suas iniciativas políticas, estão bem longe da maioria dos seus partidos congéneres do sul da Europa, como os italianos ou mesmo o PSOE.
Dentro do PS, sempre tivemos figuras emblemáticas que representam simbolicamente a sua esquerda (Alegre, Cravinho, em tempos a JS… ) e figuras que asseguram a sua direita, como as correntes católicas anti-aborto.


Mas nos anos 90 o PS mudou, e muito. Os jobs for the boys foram um enorme chamariz para novos militantes (de que Alegre tanto se queixa) que reorganizaram política e socialmente o partido. Estes militantes que controlam a linha política do partido, têm pouca formação técnica, cultural ou científica, nunca leram Marx nem discutiram política. Entraram e vivem no partido para disputar eleições para as secções, para se inscreverem num grupo ou tendência interna, e servem-se do aparelho de Estado para iniciarem a sua vida profissional, construindo o salto para entrarem com brilhantismo no sector privado. Nutrem asco pela esquerda sentindo-se mais próximos dos outros partidos de direita, mas vão deixando Alegre e outros pulular, conscientes que uma guinada à esquerda em tempo de eleições é o garante de uma vitória eleitoral – aliás, Manuel Alegre ontem na SIC, disse-o de uma forma muito clara, afirmando que ele (Alegre) seria responsável por uma parte dos votos da maioria absoluta de Sócrates.
Ora, neste contexto, é muito mais fácil e natural trabalhar para captar eleitorado à direita do que à esquerda (Canas, Vara, Coelhos ou Lello nada têm para dizer à esquerda), deixando à famosa “ala esquerda” o papel do carro vassoura para recolher um ou outro espírito mais crente na regeneração.
Por isso, não me parece estranho o crescimento eleitoral do PS à custa do eleitorado de direita e o seu esvaziamento à esquerda para o BE e PCP.
Durante o próximo ano, ao BE e ao PCP, mais do que discutirem coligações ou namorarem Alegre e o carro vassoura do PS, compete trabalhar em linhas políticas claras de esquerda com convergências que possam afirmar a política sobre os interesses instalados, combater o discurso da ausência de alternativas ao capitalismo, a impunidade/imunidade dos mais ricos e da banca ou a inevitabilidade da crise e do desemprego dos mais pobres.

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