Eu voto no Manoel!

O Francisco José Viegas critica que seja atribuído financiamento público a Manoel de Oliveira para este fazer os seus filmes. E João Tordo afirma que não se pode fazer arte com o dinheiro daqueles que não a querem apreciar.
Sete razões por que discordo:

1 – O programa eleitoral do PS já previa o apoio a produções cinematográficas “de qualidade reconhecida por júris competentes” e não o apoio a produções que a maioria do público queira ver. Se aceitarmos que os filmes de Manoel de Oliveira têm qualidade, então a maioria (absoluta) dos portugueses votou em financiar os filmes deste realizador, mesmo que não os veja.

2 – Manoel de Oliveira já recebeu mais de 50 prémios dos mais prestigiados festivais internacionais de cinema. Se o João Tordo tivesse ganho o Nobel da Literatura mas ninguém lesse os seus livros, teria alguma lógica que os deixasse de publicar? E, já agora, como é que filmes que ninguém quer ver conseguem arrecadar tantos prémios?

3 – Manoel de Oliveira não faz fotocópias de fotocópias de clichés americanos, faz obras cinematográficas internacionalmente reconhecidas, baseadas em livros dos maiores escritores da língua portuguesa, como Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Padre António Vieira, Agustina Bessa-Luís, etc., muitas vezes abordando questões da identidade portuguesa. Que sentido faria o Estado não apoiar uma obra que enriquece e promove a cultura portuguesa no estrangeiro?

4 – Uma parte significativa das obras artísticas e literárias mais marcantes do mundo tiveram pouco ou nenhum sucesso popular. O Mundo a Seus Pés, só para citar o filme americano mais consagrado de sempre, foi um fiasco de bilheteira e Orson Welles nunca mais teve condições para fazer os filmes que ambicionava fazer. Imagine-se se tivesse.

5 – Ao contrário dos livros, em Portugal os filmes não são uma área artística em que seja possível investir em obras para minorias. Ou seja, pode-se publicar um livro para os trezentos leitores de poesia em Portugal e cobrir os custos, não se pode fazer um filme para 10 ou 20 mil espectadores e não perder dinheiro. E é por isso que o Estado deve intervir, garantindo a existência de cinema de qualidade em Portugal –e não apenas telenovelas e telefilmes – até ser possível criar um grande público exigente que viabilize a produção auto-suficiente de cinema português.

6 – No dia em que vir um monumento a fazer filmes, a dar entrevistas e a fazer manguitos a autarcas oportunistas, até sou capaz de reconhecer que Manoel de Oliveira seja um monumento. Mas até lá, caro Francisco, quer goste ou não dos filmes do homem, dê a Manoel de Oliveira o benefício de pensar que este senhor tem suficiente vida e inteligência para usar guarda-chuva e limpar os acidentais dejectos de pássaro do ombro. Caso contrário, arrisca-se a que o veterano realizador ache que os seus textos do Correio da Manhã são escritos por um fax.

7 – E sim, eu sou da ala Manoelista do 5dias!

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