Alguns comentários sobre as esquerdas

A sessão da Aula Magna parece ter trazido alguma coisa de novo à esquerda portuguesa. Há muito tempo que se sabe que só é possível construir uma alternativa política de esquerda que recuse a simples gestão do sistema neoliberal, baralhando e dando de novo. Só criando uma convergência de votantes e activistas da esquerda do PS, do Bloco e do PCP é possível mudar o quadro eleitoral e dar espaço à criação de poíticas de esquerda. Este novo polo não tem que ganhar eleições para conseguir mudar a política portuguesa, basta-lhe, numa primeira fase, retirar a maioria absoluta ao PS e pesar mais do que 20 por cento para transformar radicalmente o quadro parlamentar.

A afirmação de Manuel Alegre que esta esquerda alternativa deve ir a votos, consubstancia uma mudança profunda da esquerda em Portugal. A exemplo da Alemanha, uma fatia significativa dos activistas do PS pode preparar-se para bater-se por um programa socialista, podendo abandonar um partido de poder clientelar que, hoje,  nada tem que ver com o seu nome.

O antigo dirigente do  PS Pedro Adão e Silva comentou no Diário de Notícias que esta eventual nova força política só terá como resultado atirar o PS para os braços do PSD e tornar o bloco central uma realidade governativa. É isso negativo? Creio que não. A criação de um grande bloco central significa tornar transparente aquilo que existe em Portugal há dezenas de anos. Somos governados pelo bloco central desde há muito tempo. Alternadamente, PS e PSD fazem as mesmas políticas. A alternância contribui para a ilusão, porque disfarça a continuidade das políticas com o foclore da mudança dos partidos. Na verdade, Portugal é governado pelos mesmos que se acotovelam nos governos, nos bancos e nas grandes empresas. O primeiro passo para ultrapassar esta realidade é torná-la clara para todos. Um governo PS-PSD com a oposição de um novo polo de forças políticas à esquerda tem a enorme virtude de fazer traduzir no campo das escolhas eleitorais as verdadeiras diferenças políticas. Por um lado, temos o bloco central dos interesses e das políticas, por outro lado, a afirmação de uma alternativa da esquerda que, tendo criticado desde sempre as políticas neoliberais, afirma um conjunto de políticas que defendem o primado da sociedade sobre o mercado cego que serve sempre os mesmos.

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TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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