Os professores reclamam de barriga cheia?

Há um dichote famoso sobre a Estatística que assevera que um homem com o cabelo a arder e os pés congelados pode ser visto como estando à temperatura normal… A Fernanda Câncio parece ignorar essas minudências pacificamente. Com a aparente missão de demonstrar que os professores são na realidade uns calaceiros habituados ao privilégio, esta cronista lança mão de um estudo da OCDE recentemente apresentado. E respiga várias conclusões a la minuta, invariavelmente retratando os nossos professores em situações de grande conforto e pouco trabalho.
«A nível do ensino básico, o ratio professor/estudante é de um para 11, abaixo da média da OCDE (16); e no secundário é o mesmo, também abaixo da média (13) – com a curiosidade de no privado haver um ratio superior.» Pois. Mas atente-se à realidade: Portugal oscila entre zonas despovoadas, com baixa densidade populacional e efectivos escolares mínimos, e os grandes centros, onde se concentra a maioria dos alunos. Portanto, trata-se de um dado que, em bruto, pouco ajuda a perceber (daria jeito conhecer o desvio padrão respectivo).
Mais: «o tempo total de trabalho exigido aos professores portugueses (1440 horas/ano) está mais de 250 horas abaixo da média da OCDE». Note-se que não se trata de “tempo total”, mas sim de horário laboral, ignorando o tempo empregue fora da escola na preparação de aulas e correcção de testes, só para citar duas ocupações comuns. E o número de feriados em Portugal também ajuda ao caso. Por outro lado, a quantidade de horas de aulas por docente está bem acima das médias da OCDE e da Europa a 19.
Mesmo em relação aos vencimentos, a Fernanda encontra por cá um panorama rosado, embora não se perceba como: só no topo da carreira ultrapassam as médias europeias. E, mais uma vez, os vencimentos máximos têm uma relevância proporcional à percentagem de profissionais que os alcançam; faltam dados para poder tirar daqui slogans ou grandes revelações.
Mas nada disto parece bastar para impedir um veredicto sem apelo: «dificilmente o retrato de uma classe mártir e explorada. Antes pelo contrário.» Voltando ao princípio: a Estatística, bem manuseada, serve para quase tudo…

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