O Mestre

Le Maître. Era desta forma que o director do cinema Odyssée de Estrasburgo – cidade onde vivi quatro anos – se referia a Manoel de Oliveira. O Odyssée fazia questão de apresentar as estreias nacionais do Mestre, convidava actores, realizadores, críticos e a première de um Oliveira era sempre uma soirée especial. Foi nessa altura que percebi a verdadeira dimensão internacional da obra de Manoel de Oliveira, que só tinha paralelo entre os autores portugueses no cinema de João César Monteiro. Na prática, para o resto do mundo estes são os únicos realizadores portugueses que existem. É uma pena, mas espero que as carreiras de João Botelho, de Joaquim Sapinho ou de Pedro Costa me desmintam um dia.

Para além da qualidade do cinema de Manoel de Oliveira, há outra característica que aprecio no autor: a sua permanente capacidade de deslumbramento. Num país que é diariamente bombardeado pelas crónicas da escola de Vasco Pulido Valente, o narrador omnisciente enfadado, que já sabe tudo o que aconteceu, o que acontece e o que acontecerá, dá-me um gozo bestial este jovem de 100 anos que faz um manguito a esse estado de espírito e que continua a entusiasmar-se com o que extrai da literatura, das vidas das jovens mulheres e de gandas malucos como o Pedro Abrunhosa. Este vídeo em que Wim Wenders filma Oliveira a imitar o Charlot é um exemplo perfeito desse jovem Oliveira entusiasta, humorado, que continua a apreciar cada segundo de vida.

Agustina e Leonor
Estas são as duas grandes mulheres que contribuíram em parte para o sucesso do Mestre. A qualidade dos romances da Agustina Bessa-Luís e a interpretação de Leonor Silveira, que na minha opinião é de longe a melhor actriz portuguesa, são a base do melhor que Oliveira produziu para a sétima arte.

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6 Responses to O Mestre

  1. Pelo que me apercebi, o Manoel de Oliveira está para ti como o Mário Soares está para mim. (O César Monteiro já morreu, tal como o Cunhal. Mesmo internacionalmente só estes estavam ao nível daqueles.) Dá-me muito gozo ver um jovem de 84 anos, feitos há quaro dias, como a ti te dá ver um de 100. Mas olha que vejo mais sucessores para o Manoel de Oliveira do que para o Soares…

  2. António Figueira diz:

    Rui,
    Em que anos viveste em Estrasburgo? Também lá vivi (2002-2005) e lembro-me bem do Odyssée e dos seus ciclos de cinema português – vi lá O Delfim, do Fernando Lopes. A Leonor Silveira, para além de ser muito bonita, é também uma bela actriz – por isso fiquei tão triste quando a ouvi ontem na rádio, a propósito do Oliveira, falar em “cumplicidades” (que como se sabe é a palavra mais pirosa que Deus ao mundo deitou).

  3. Vivi no turno anterior: 1998-2002 😉 Ainda apanhei o Le Pen a passar à segunda volta…
    É verdade, o Odyssée passava umas quinzenas especiais dedicadas ao cinema de um país. Também assisti a uma quinzena do cinema português. O director era um fã do nosso cinema.

    Pois, isso dava um excelente título para uma notícia do Destak: “Cumplicidades entre Oliveira e Leonor Silveira”.
    Gosto muito da Leonor Silveira na pele daquelas personagens femininas da Agustina que dominam o orgulhoso macho lusitano sem que este se aperceba, como a Ema “Bovarinha” do Vale Abraão. Concordo, é muito bonita, o que ajuda a carregar mais o traço das personagens da Agustina.

  4. grim diz:

    Não sou um admirador convicto das qualidades do cinema do Manoel de Oliveira, e praticamente deixei de o ver desde a Viagem ao Princípio do Mundo.

    Do que vi, julgo que o que confunde mais os espectadores de Manoel de Oliveira é a abundância inédita de cenas e diálogos non sequitur. Ao contrário daquele preceito segundo o qual uma espingarda que aparece no primeiro acto deve disparar no último, nos filmes do Manoel de Oliveira há sempre um número extraordinário de elementos que não têm uma relação lógica com cenas e diálogos anteriores ou posteriores. Isto resulta bem naqueles filmes dos anos 70 e 80, como a Benilde, a Francisca, o Amor de Perdição, o Passado e o Presente, em que é muito forte um certo sentido absurdístico da vida ou uma humildade reverencial perante os “desígnios insondáveis da Providência” (deve ser por isso que falam de um cineasta “católico”). O Francisca então é um daqueles filmes raros: tal como não conseguimos imaginar o século XVIII ou Roma da mesma forma depois de ver o Barry Lyndon ou o Satyricon, também é muito difícil, não obstante os muito medíocres “valores de produção”, voltar intactos (palavra traiçoeira, eu sei) a Camilo ou Júlio Dinis, em suma, ao séc. XIX português, depois do Francisca.
    Bom, também já era difícil voltar à ruralidade portuguesa sem algum pânico depois de ver A Caça…

    No entanto, depois de Os Canibais e sobretudo desse fiasco colossal que foi o Non, parece-me que essa integridade “original” da obra de Oliveira se esfumou e por isso os non sequitur são cada vez mais rebarbativos. Fiquei por vezes com a impressão de que havia apenas “tiques de estilo”, uma repetição um pouco deslavada dos processos que havia aplicado nos seus filmes maiores. Sonolentos não digo, mas os últimos filmes pareceram-me bastante comodistas. 🙁

  5. bloom diz:

    Odyssée que tem a vantagem de ser uma sala lindíssima.

  6. António Figueira diz:

    Tem piada – eu cheguei a Estrasburgo exactamente no dia em que o Le Pen passou à segunda volta, e soube da notícia quando aterrei…

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