Para quem acha que Manoel de Oliveira “filma mal” aqui vai um autor, muito lá de casa, que pintava MAL, muito MAL, mesmo muito MAL, e era e é um grande chato

El Greco, “Laoconte”.

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41 Responses to Para quem acha que Manoel de Oliveira “filma mal” aqui vai um autor, muito lá de casa, que pintava MAL, muito MAL, mesmo muito MAL, e era e é um grande chato

  1. Luis Rainha diz:

    Para lá do conhecido tema alongamento das figuras/deficiência visual, não consigo mesmo ver em que é o bom do Doménikos pintava “mal”. Na época, ninguém sobreviveria como pintor a enormes e visíveis problemas de técnica.

  2. Luis Rainha diz:

    Isto mesmo antes de perguntar quem é que acha que o MO “filma mal”, seja lá isso o que for…

  3. Eu não sei o que é “pintar mal” (ou bem) – nisso, o Carlos saberá melhor que eu. Sei que não é preciso saber o que é pintar mal ou bem para se apreciar um quadro. Não é preciso saber o que é filmar mal ou bem para se apreciar um filme.
    Eu gosto do El Greco e não o acho nada chato.

  4. Carlos Vidal diz:

    Luís, sinceramente, vês alguma, mínima que seja, correcção anatómica neste quadro?
    Distingues os corpos das nuvens ao fundo? Distingues isso facilmente (cromaticamente é quase impossível)?
    Repara como a carnação é péssima. Repara como a cor da pele a nada de vivo corresponde.
    Achas esta figuração de cânone longílineo correcta?
    Um corpo tem aproximadamente a medida de sete cabeças e meia.
    Agora vê a figura da esquerda: mais de dez cabeças. É obra.
    Poderia dizer mais: a terceira figura a contar da direita não tem um único músculo assinalado.
    O Laoconte torce o pescoço de modo impraticável, etc, etc.
    A questão é esta, como em Oliveira: aqui está tudo errado e “mal feito” – porque será que causou o impacto que causou e ainda causa?

  5. Pedro diz:

    Eu também não sei quem é que diz que o MO filmava mal. Mas dizer que outros dizem isso parece servir a tese do Carlos Vidal, seja ela qual for… a propósito quem é que alguma vez disse que o El Greco pintava mal e que era chato? O Carlos Vidal bem se esforça no último comentário por provar que o gajo pintava mal, mas não convence ninguém. E chato, então, é que não passa pela cabeça de ninguém. Mas o Carlos vai de seguida provar que ele era mesmo chaterrimo. Tá bem.

  6. Carlos Vidal diz:

    Filipe Moura, eu diria mais: não é preciso saber nada.

    Mas continue, continue ………………….

  7. Luis Rainha diz:

    Carlos,
    O inacabado e enigmático “Laocoonte” talvez se destinasse a ser exposto bem acima do ponto de vista do espectador. O escorço estaria então mais do que justificado. Mesmo que assim não fosse, desculpa, mas não encontro nada de “mal feito” por aqui. Nem o pintor foi propriamente o Van Gogh; os seus contemporâneos talvez o estranhassem mas por certo que também o aceitavam. A ideia era provavelmente emular uma escultura descoberta 100 anos antes em Roma; aí , a verosimilhança “naturalista” seria coisa de somenos.

  8. Carlos Vidal diz:

    Luís, este quadro é uma obra esplendorosa, assustadora, imbatível em termos de expressão.
    Eu só estava a aplicar o “critério” do “bem feito” e “mal feito” que vem sendo aplicado a Manoel.
    (PS: o Laoconte grego é a antítese formal deste; no grego há naturalismo exímio e agregação das massas e das formas; aqui não há naturalismo nenhum e há fragmentação das formas – cada corpo puxa para um lado distinto; além do mais, no grego, todos os rostos expressam sofrimento; agora nestes rostos, nenhuma expressão: a expressão é o conjunto, é o todo que é mais do que a soma das partes.)

  9. Nuspirit diz:

    QUANDO se viaja por terras da arte, cultivar uma atitude mais leve que o ar representa um sério risco. Talvez o curso da História e a queda de meia dúzia de tabus tenha retirado peso a uma questão que valeu a figuras de proa o ingresso na galeria de proscritos. O gosto pela arte é um trabalho lento, de perseverança e de uma longa aprendizagem. A arte é um sofrimento festivo em que simultaneamente se joga o sentido do belo e o sentido da improbabilidade. Não é coisa de massas, muito menos pitorescas. E será por isso que só hoje se desfruta plenamente do que, outrora, foi alvo de desconsideração estética .Atente-se na espessura dramática, na fantasia do gesto e na profundidade espiritual e concluir-se-á que tabus à espera de uma aragem libertária são coisa que continua a não faltar.

  10. Manuel João Neto diz:

    Caro Carlos Vidal,

    em primeiro lugar, peço desculpa por utilizar este espaço de comentário para um outro fim que não o de comentar o seu post. Efectivamente, o que me leva, neste momento, a escrever neste espaço é o facto de este ter sido o canal mais directo até si que encontrei para fazer um pedido: seria possível indicar-me um endereço de email através do qual ossa contactar consigo? A minha inteñção é convidá-lo para colaborar numa publicação de que sou editor. Se estiver interessado, deixe aqui o seu email ou, se não achar conveniente publicá-lo neste espaço, envie-me um mail para o meu endereço, que julgo estar disponível nos dados que preenchi para fazer o comentário.

    Agradeço-lhe desde já a atenção e cumprimento, já agora, todos os participantes deste blog pelo bom trabalho,
    Manuel João Neto

  11. grim diz:

    Esta discussão parece-me que está muito confusa. 😉

    Como não me parece que o “pintar (ou filmar) mal” se refira a um defeito de técnica formal (nesse caso, não haveria virtude estética que resistisse), mas sim à rejeição de uma técnica mais ou menos “escolar” – mesmo que à custa do favor do publico -, não há necessariamente uma contradição entre esta “pouca arte” e as suas eventuais qualidades estéticas.

    Sendo assim, El Greco e Manoel de Oliveira (dos quais não sou admirador, diga-se) pintariam ou filmariam efectivamente “mal”, motivando o aborrecimento do público. Esta não é uma condição suficiente para que o seu mérito estético (do qual só o tempo é um juiz legítimo) seja diminuído, uma vez que, como é sabido, muitos outros grandes artistas foram mal recebidos na sua época.
    É escusado fazer, com base na “correcção formal” da obra de arte, um juízo de valor sobre as suas propriedades estéticas… 🙂 Se “pintar bem” não faz do artista um sujeito acomodado que o tempo depressa irá pôr no seu lugar devido, “pintar mal” foi muitas vezes uma forma de encontrar saídas novas e impensadas para determinados problemas estéticos daquele momento.
    Por outras palavras: o “pintar mal” – contra o público, se for caso disso – é absolutamente imprescindível para que surjam soluções novas que rompam com os impasses repetitivos que qualquer momento artístico é incapaz de evitar.

    Aqui penso que o Filipe Moura está a incorrer num erro: tal como não se deve exigir a um artista, mesmo que subsidiado, que seja “acessível”, também não creio que alguém exija a um projecto científico que esteja ao alcance de todos; o problema aqui não é o da criação, mas o da divulgação.
    Mesmo assim, não me parece que a divulgação artística esteja tantos passos atrás da divulgação científica, pois é fácil encontrar excelentes manuais de iniciação à pintura (o catálogo da Taschen tem milhentos) ou ao cinema ou à literatura; até me parece que seja mais fácil a um perfeito leigo na matéria encontrar informação sobre as artes e as letras do que sobre as ciências.

    Sem querer fazer um juízo de intenções, não posso deixar de lembrar o preconceito insistente do pessoal das ciências exactas contra as artes e as humanidades: quando percebem o que está em discussão, dizem que são coisas e bagatelas que qualquer um entende e que não justificam grande investimento intelectual; quando não percebem, ai da guarda que os artistas se fecham na sua torre de marfim e se divertem às nossas custas a fazer coisas que só eles entendem. De qualquer das formas, uns malandros cuja fama e proveitos devem ser desmascarados…

  12. Carlos Vidal diz:

    Pois é grim, compreendo-o e estou de acordo.
    O pior é mesmo quando esse pessoal não percebe nem nunca há-de perceber.

  13. Pedro diz:

    Pintar mal, assim como filmar mal, não tem nada a ver com ser chato. Eu posso considerar os quadros monocromáticos do Yves Klein chatos (ao contrário dos quadros do El Greco, que me podem fazer olhar para eles durante um longo tempo, para os do Klein, se olhar cinco minutos faço já um esforço imenso), e no entanto, considero esses seus quadros perfeitos.

  14. Carlos Vidal diz:

    E quanto ao Klein estamos de acordo Pedro. E estamos de acordo quanto à situação de olhar durante pouco tempo para uma coisa e ficar convencido. O crítico Michael Fried tem belas páginas sobre essa ideia da convicção como factor determinante do juízo de valor.

  15. É uma pena o Carlos não ter respondido ao comentário das 16:27 do Pedro. Bastante esclarecedor. Ninguém aqui falou em “pintar mal” ou “filmar mal” tirando o Carlos, justamente porque, como diz o Pedro, convém à sua tese.
    Esta discussão está confusa. Mas as discussões com o Carlos Vidal são sempre confusas. O Carlos Vidal antes dizia que uma obra de arte “não pode nem deve estar acessível”. Lá em cima já diz que “deve estar acessível”. Não adianta discutir.
    Grim, não percebeste bem a minha ideia, desculpa. O artista não deve nunca falsear o seu trabalho de modo a este ser acessível a todos (tal como o cientista). Desta forma não se obteria nem arte nem ciência. O que eu quis dizer foi que o trabalho de um artista deve estar disponível para todos os que o queiram ver (algo que é contradito pelo Carlos Vidal). E que é possível (e desejável) educar as pessoas para que gostem de arte (tal como de ciência). Embora reconheça que há pessoas que não gostam de arte, não me conformo que esta seja só para uma minoria. A arte a procurar as pessoas não tem necessariamente de significar tornar a arte fácil. Compreendido?
    Sabes o que eram os Encontros ACARTE? Sabes quem era Madalena Perdigão? Por acaso era licenciada em Matemática.

  16. k.r. diz:

    Lição de arte ao fim/começo de noite….(relida)
    adquiri nova prespectiva…da arte. Para o que necessário for…

  17. Almajecta diz:

    Non Sequitur Carlos, isto está a ficar especializado e patrulheiro no seguimento da condenação das paixões e do perigo causado pelas emoções. Tranquiliza cada vez mais os estudospesquisa e especialização na profissão mais antiga do mundo.
    Este post não é sobre Lessing?
    Queres um nome? Aí vai de do século XVIII, para friccionar aí as hostes.
    Jean-Batiste Du Bois.

  18. grim diz:

    Filipe Moura, parece-me claro que uma educação para a arte é possível e desejável, e nem sequer implica a especialização em cursos de artes ou letras. Longe disso. Nem me parece que a “comunidade artística” vire as costas com desprezo aos “estranhos” que manifestem interesse pela suas obras. Pela minha experiência, acontece precisamente o contrário…

    O problema é outro. Eu não trabalho nas actividades culturais, mas a minha irmã trabalha e conta histórias de estarrecer. Fala-se muito por exemplo dos subsídios, mas ninguem dá conta das discussões à volta da sua atribuição. Se o filme subsidiado tem pouca bilheteira, é “hermético”, “lento” ou “artístico” (!), nesse caso as chefias dizem que é um desbarato dos dinheiros públicos que só agrada à capelinha de iluminados que fazem filmes uns para os outros; se o filme tem sucesso comercial, então pergunta-se de imediato para que é que precisaram do subsídio, uma vez que as despesas de produção podiam ser perfeitamente cobertas pela receita do público (um disparate completo em Portugal, mas a condizer com o nível da discussão…).
    Os dados históricos mostram que, tal como as ciências, as artes precisam de uma qualquer forma de patrocínio. Mas não é a primeira vez que uma proposta de colaboração submetida pela “comunidade artística” é recusada pela “comunidade científica”; muitas vezes pelo preconceito que já referi, outras vezes pelo receio (admito que fundado) de que colaborar com “artistas” possa colocar em risco os projectos da sua pŕópria área.
    Não me parece que tal aconteça por falta de divulgação adequada das actividades artísticas. Como disse, qualquer pessoa interessada pode com facilidade consultar manuais de iniciação à pintura ou literatura ou cinema, saber a sua história, ter uma noção básica das suas técnicas (foi assim que eu fiz). Eles existem em praticamente todas as línguas, num preço mais do que razoável e numa linguagem bastante depurada. Quem quiser saber algo mais sobre El Greco, por exemplo, pode comprar o manual da Taschen: é bastante acessível, rigoroso qb, e não deve custar mais de 10 euros.

    Muitas vezes tenho a impressão de que se criou um dogma entre as ciências, as engenharias e as economias contra as artes e as letras que tem menos a ver com a realidade do que com a necessidade de ter um “rival” fácil de abater e rebaixar. Lembro sempre aqueles economistas que, quando falam do desperdício dos dinheiros públicos, dão logo como primeiro exemplo a arte “subsidiodependente”, omitindo no entanto que, mesmo que tal fosse um desperdício, seria sempre uma parte quase invisível do défice.
    Contra isto, não há educação para a arte que resista, e acabo por compreender a reacção defensiva do Carlos Vidal. De facto, sabendo que há todo um ambiente montado para que a arte seja mal recebida, por que razão se deve sustentar a ilusão de que ela possa ser apreciada por todos? Nunca se trata de bloquear o caminho aos curiosos, mas sim de reconhecer que, dentro do status quo, uma arte “feita por todos e para todos” é uma ilusão perigosa.

  19. “Filipe Moura, parece-me claro que uma educação para a arte é possível e desejável, e nem sequer implica a especialização em cursos de artes ou letras. Longe disso. Nem me parece que a “comunidade artística” vire as costas com desprezo aos “estranhos” que manifestem interesse pela suas obras.”

    Não é o exemplo que temos aqui neste texto. Mas o Carlos Vidal não é representativo, e ainda bem.

    “Os dados históricos mostram que, tal como as ciências, as artes precisam de uma qualquer forma de patrocínio. Mas não é a primeira vez que uma proposta de colaboração submetida pela “comunidade artística” é recusada pela “comunidade científica””

    É natural; são duas áreas completamente independentes. O que é que a ciência teria a ganhar em colaborar com as artes? Eu sou cientista e digo: nada.

    “Não me parece que tal aconteça por falta de divulgação adequada das actividades artísticas.”

    Não é verdade. A divulgação da arte fala uma linguagem hermética. Volto a dizer: não é adulterar a arte que se pretende (nem torná-la fácil). É chamar as pessoas, torná-las interessadas. Só assim é que consegues ter visitantes nos museus e nas galerias. Foram os exemplos que dei. A ciência faz isso todo o tempo e não deixa de ser ciência de altíssimo nível. E não julgues que não existe um ambiente montado contra a ciência: basta leres os textos do Rui Curado Silva.

    “De facto, sabendo que há todo um ambiente montado para que a arte seja mal recebida, por que razão se deve sustentar a ilusão de que ela possa ser apreciada por todos?”

    Não vejo outra maneira de desmontar o tal ambiente para que a arte seja mal recebida.

    Desculpa lá, mas se os artistas querem dinheiro vão ter que se mexer para o arranjar. É o que os cientistas fazem, e podes crer que têm que vencer obstáculos dificílimos (não só financeiros mas principalmente de mentalidade). Os artistas têm que fazer o mesmo. Não são mais que os outros. Agora atitutdes como a do Carlos Vidal de facto não ajudam nada.

  20. Almajecta: explica-me lá esse código como se eu fosse uma miúda de 5 anos.
    …………..
    CV… ehe ehe eh tu ainda perdes tempo como de capa y espada a decifrar o desvelar dos infinitos deleites que fruimos ao dominarmos linguagens que nos proporcionam puros gozos de bem sentir o tempo … Ma quem é que tem estrutura para sentir o Estalo de cada verso de António Fraco Alexandre. A vírgula colocada ali e não acolá, as “…” etc já para não falar nas sombras y clarões y graduações de luz no uso que dá as palavras … Pois é! O Francisco José Viegas è p-o-e-t-a o Fernando Pinto Amaral é P-o-e-t-a o Pedro Mexia é p-o-e-t-a o Gonçalo M Tavres é e-s-c-r-t-o-o-r F-se! Vou ali já venho

  21. Nuspirit diz:

    A massificação destrói a “aura” que envolve as obras de arte. Enquanto objectos individualizados e únicos, a massificação destitui a obra de arte do seu status de raridade. E, a partir do momento em que a obra fica excluída da atmosfera aristocrática e religiosa, que fazem dela uma coisa para poucos e um objecto de culto, a dissolução da aura atinge dimensões sociais. Provocando-se a queda da aura, promove-se a liquidação do elemento tradicional da herança cultural.

  22. Carlos Vidal diz:

    Alma, é isso mesmo, o Lessing deve ser aqui convocado. Acima das paixões está o medium, pois, há que tranquilizar o pessoal.

    A polémica Winckelmenn / Lessing era mais ou menos esta, atenção De Puta Madre – Winckelmann elogiava o Laocoonte grego por ser uma escultura de expressão de sofrimento, mas de uma harmonia formal que tudo dizia sem necessitar de “gritar”. Virgílio, por seu lado, no mesmo tema, necessitou de “gritar”. Condenado foi por Winckelman. Mas Lessing dizia que Winckelmann tinha de ter em conta o medium que cada um utilizava: uma coisa é a escultura, outra a poesia: o medium não pode ser desconsiderado.
    Portanto, pessoal da condenação das paixões, atenção que o medium está acima de tudo. E o medium são substâncias químicas (era bom para vocês, ó químicos, não era?)
    O Greco conseguiu quase o mesmo que a escultura grega, apesar da desagregação compositiva. Há ali uma homogeneidade cromática que põe os corpos nas nuvens e as nuvens nos corpos.

    De Puta Madre, de acordo, só que eu retirava da tua lista maldita o Gonçalo M Tavares – aquilo é muito bem feito.
    Abraços para os dois.

  23. grim diz:

    Filipe Moura, se os manuais da Taschen ou, vamos lá, a História da Literatura Portuguesa do Óscar Lopes parecem “herméticos” e motivam desinteresse, bom, nesse caso acho que o problema é mais da pessoa do que dos divulgadores! Eu não tive qualquer formação em pintura e sou um leitor fanático desses manuais.
    Eles têm até um aspecto gráfico excepcionalmente cuidado e convidativo, o que, passe a maldade, não é de forma alguma uma característica dos livros de ciência…

    (mas devo acrescentar uma coisa: ninguém fica diminuído por não gostar de arte! As neurociências talvez tenham uma conclusão fundamentada sobre isto, mas parece-me crível que nem todos os seres humanos estejam hardwired para chegar à dita “experiência estética”. Educação para a arte significa também reconhecer que há pessoas que não gostam de arte e nunca vão gostar, outras que gostam assim-assim, outras que gostam muito e uns tantos que até davam a vida só pela dita)

    Sobre a questão dos patrocínios, acho também que seria uma perversão fazer da corrida pelo dinheiro uma parte integrante e essencial da actividade artística.
    É verdade que as artes “públicas” como o cinema, o teatro e a arquitectura precisam de “patrocínios” elevados, tão elevados como os das ciências, pelo que terão sempre de envolver um elemento de “angariação de fundos” e um certo compromisso com o público.
    Mas as artes como a literatura e, em certo sentido, a música (a sua composição), que não precisam – no limite – de mais do que papel e caneta, têm de facto um “direito divino” sobre a sua criação e divulgação. O mesmo acontece com a pintura, embora precise de um pouco mais do que papel e caneta (exceptuando as obras de “encomenda”): uma vez que os seus “patrocínios” são habitualmente muito menos elevados, e o espaço físico que ocupa muito mais reduzido, não me parece que estas considerações monetárias devam ser essenciais.

    Mas a questão dos patrocínios, dos subsídios e dos mecenas merece uma discussão em separado. Estamos a falar do modo, creio que profundamente errado, como o mundo o mundo artístico é normalmente entendido.
    O que julgo insuportável é a atitude sobranceira de outras áreas que entendem as artes e as letras como uma espécie de idiotas da aldeia, que servem para entreter o pessoal ou então como um alvo conveniente sobre o qual podem despejar a sua “superioridade intelectual”; esta atitude tornou-se muito comum, e não tem nada a ver com as dificuldades (certamente imerecidas) que a investigação científica encontra (pelo menos, não creio que alguém queira fazer da física teórica o tal “idiota da aldeia”).
    Perante isto, não vale a pena começar um diálogo que ou é recusado ou então é manipulado de forma a inferiorizar a própria arte…

  24. Carlos Vidal diz:

    Bons comentários.
    Destaco (de Nuspirit):
    «A massificação destrói a “aura” que envolve as obras de arte.»
    É verdade, um cientista enfadonho não sabe o que é massificar, mas é o que deseja – sem saber que o deseja e sem sentir nada perante uma obra (ou julgar que sente, entende, percebe, gosta – termos ignóbeis estes, aliás ….)
    destaco (de grim):
    «O que julgo insuportável é a atitude sobranceira de outras áreas que entendem as artes e as letras como uma espécie de idiotas da aldeia»

    Grato aos dois: não é de facto preciso muito para se perceber o essencial. Está dito por vocês.

  25. Almajecta diz:

    Tenho andado distarído, havia esquecido o contributo de Burke, deveras importante, não só pelo trabalho que desenvolveu na caracterização das distinções entre as tais formas artísticas, como pelo relevante trabalho que desempenhou em termos epistemológicos. Ao reabilitar o sublime e ao privilegiar a poesia afectiva sobre a imitativa, promulga a teoria do valor associativo da linguagem ultrapassando o conceito lockeano da linguagem como produtora de imagens. Coloca assim o enfase maior na estrutura-dispositio, e considera que as palavras não causam imagens mentais das coisas, mas sim associações de emoções, não podendo servir de substitutos pictóricos do mundo visível.

  26. Almajecta diz:

    Descobri, descobri, eureka.
    Nuvem=Juno, Juno=Núvem
    e foi com este governo e seus apoiantes.

  27. Caro grim,
    não conheço esse livro do Óscar Lopes.
    Os manuais da Taschen não são herméticos, porque não são feitos por portugueses. O problema que refiro é essencialmente português. É da secção de artes dos jornais.

    Quanto ao resto, é um problema dos artistas. Agora eu, como contribuinte, não estou disposto a financiar algo se não tiver nada em troca, isto é, se me for vetado o acesso ao resultado do meu investimento. Mesmo que não seja para mim. A maior parte da arte não é para mim, provavelmente. Mas a física fundamental também não é para toda a gente, e os resultados estão disponíveis para quem quiser. A questão é esta: para quem quiser. Eu quero ter acesso à arte se eu quiser. Ninguém tem o direito de vedar o acesso à arte paga pelo dinheiro público. Isto é essencial.

  28. Carlos Vidal diz:

    Óscar Lopes, esse desconhecido – a sua história da literatura, então: alguém a leu, alguém a viu no Chiado, na Bénard, na Tasca do Chico ??
    Ai o “dinheiro público”, esse malandro que anda a pagar estudos a malandros que nada sabem, sabendo, ao invés, de quase nada.
    Diz F Moura: “Ninguém tem o direito de vedar o acesso à arte paga pelo dinheiro público.”

    Pois eu pago a minha arte do meu bolso e nunca admitirei a entrada de F. Moura numa galeria onde tenha obras minhas expostas. Isto é irrevogável, caríssimos.

  29. Carlos Vidal diz:

    Almajecta, boa lembrança o nosso Burke. Autor proibido nas escolas de ciência.
    O homem que inventou o “terror deleitável” que incapacita a razão.

    Boa lembrança ó alma. Essa da oposição entre infinito e grandeza, essa excitação da dor e do perigo, com isso o bom do Burke transfigurou o seu antecessor, o pseudo-Longino, e acabou a influenciar os “prosthetic gods” do século XX: os surrealistas ortodoxos (Breton) e os dissidentes (Artaud, Bataille), mais o nosso amigo do “The Sublime is Now”. Ideias perigosas, alma, ideias perigosas.

  30. CV: “aquilo é muito bem feito”! Os plagios não é? Pois tb concordo que estão muito bem feitos y bem misturados, o problema é que como andei a ler os originais, não fico a gostar muito daquelas coisas – bem feitas y misturadas, sim!, há que reconhecê-lo, embora não esqueçamos que sempre pioradas. Engraçado. O ano passado li um artigo no El País sobre o Rapaz! O espanholito estava meio aborrecido, pois ao ler a ” biblioteca” ( n lhe decoro os títulos) lamentou o moço … que não tinha colocado as aspas .. não se perceia ( no mau sentido do termo, claro!) onde começa o texto dele y o dos outros senhores. ( Um segredo 😉 eh ehe ehe eh – Eu y o GMT – temos o mesmo Leitor … Eu ainda sou lida, que classe! que honra! que Orgulho! Fico muito Peneirenta … Vê lá se aqueles 4 marmelos – juntos! têm estaleca para um http://mapas-de-espelho.blogspot.com/2008/10/mapas.html … tem 7 anos … y já sou outra personagem …

  31. k.r. diz:

    Pois, eu estava aqui atenta ao que diz o ‘Alma’. Boa alma, obrigada.

  32. Carlos Vidal diz:

    O Alma sempre teve visão cirúrgica, k.r.

    Ó De Puta Madre, não estamos de acordo em relação ao GMTavares.
    Não mesmo.

  33. Eu fiz uma Promessa (!!!!): Nunca mais voltar a desconstruir o GMT ( coisas! … meio “religiosas”). Contudo, remeto-te para o 2+2=5, João Meneses Resende… (n creio que ele se dê ao trabalho de escrever uma linha sobre o G…, tal a repugnância que lhe ficou …); Mas é a única pessoa que encontrei até hoje que tendo um conhecimento atento, profundo y substancialmente crítico sobre literatura que da sua intolerância ao desplante de fazer passar por coisa sua o que a outro pertence é feroz no situar do grau de analfabetismo y cobardia literária a que os críticos literários jornaleiros chegaram para branquear um trabalho que garrafalmente tratam como original, sendo este mero decalque tosco y empobrecido de quem realmente escreveu… É engraçado ver o João furibundo assinalando passo-a-passo o desleixo indiciador de Leitura de Autores por muita gente da profissão que com os elogios que tecem ao GMT só revelam que para alem do nome y dos dados biográficos dos referidos grandes, nunca lhes leram uma página. Assim é! Se leres o Francis Ponge, p. Ex., descobres que todas a originalidades sobre – p. ex – as “mãos” do GMT são ali introduzidas como coisa novíssima! Pior! ( É, especialmente isso que a mim me faz rir y ao João agonia até à fúria … a lavagem despudorada de uma “literatura” traficada!).
    Ok! Cv… Não tenho nada contra os Enlatados … como sou do campo y do mar gosto das coisas deles, apanham vento, chuva y relento, remoinhos de mar que almareiam os peixes na sua dança e etc etc y eu vou lá com gelatina de morango y anzol na cana y era uma vez um peixe no prato … é! gosto muito de dançar (nadar!) com o meu jantar …
    …………….

  34. Filipe…
    “O problema que refiro é essencialmente português. É da secção de artes dos jornais.”

    Sugiro que compres ” Das Paixões Passadas” do Javier Marías ( 5 Euros!!!! relógio d’água). Tem lá um artigo ” Dos que fazem Cultura”. Uma delícias. Y atendendo ao teu comente – acho que irias ficar viciado no senhor …

  35. Carlos Vidal diz:

    De Puta Madre, com os dados que disponho vejo-me obrigado a reafirmar as qualidades de GMTavares, sobretudo do “Aprender a Rezar na Era da Técnica”.
    Depois falamos melhor.

  36. Lá me Bateu o Remorso da Promessa. Bem: o GMT … mesmo assim não é pindérico y lamechas! Coisa rara! por cá … Sim. Os outros é que não mesmo …

  37. Carlos Vidal diz:

    Ah bom, De Puta Madre, estava a ver que não.

  38. Ò grim … O Grim tem o pacote! o Embrulho y as coisas dentro do embrulho que nos saldos custam até menos que 10 euros … ma falta aí uma coisa … não sei se lhe conseguirei explicar … mas vou tentar …
    Por exemplo: esse livro não traduz a espessura nem a textura do que quer que seja… Um elemento que ficamos em falta, uma precariedade à partida. Depois tem a luz y sombras do próprio enquadramento. Ou seja: imagine que volta à terra daqui a 400 anos … que o Object -quotidiano-jornal ( que todos os dias manuseamos de trás-pra-frente y vice etc. mais a intensidade da escolha de colocar a pequena foto do Cristiano Ronaldo no lado esquerdo da primeira página ( quando o jovem senhor por mérito ganhou a bola de Ouro) y se preferiu colocar em grande plano uma Mega Foto a da Ministra da Educação a sairda 27 reunião com um dos Sindicatos de profs… … ( y etc. estes exemplos são arbitrários!!!! É só boneco…) aqui y ali as coisas vão variando … conforme o jornal … Pois. mas vai dai a 400 anos o Jornal só existe enquanto peça de museu. Disponibilizam uma peça faz de conta para a gente ter uma noção da coisa … o resto a gente imagina. Mas o domínio sobre o jogo y o detalhe de cada coisa… o que até significa o nome de cada gajo que assina aquele texto y n outro y etc… para não falar do cheiro y as lareiras acesas y o embrulhar as coisas nas mudanças y outras coisa … daqui a 400 anos é só coisa de relato, sem a fruição do facto.
    Num filme, quadro, poema etc … a gente tem lá tb este espírito … o tempo, luz y perspectiva com que um realizador resolve tratar um objecto, voltar recorrentemente a ele ou esquecê-lo ou até nesse exercício inicial de abertura revele o ritmo y compasso de todo o filme, dado à narrativa y etc… …. Bem já estou à beira de começar no “sei lá”, mas vou dizer “bicicletas entornadas” um excerto de um verso do António Franco Alexandre isto porque o quadro de o Greco me atirou para uma certa ideia de “carnes entornadas” … Ora, como nós – prevenidos – que nem tudo o que existe é por saúde bom de ter o Formato-Telenovela a tempo inteiro, dispomo-nos a conceder nesta espécie de melhoramento progressivo das regras do “jogo” de descodificação-cifração do mundo a que nesta área de “lazer” intelectual dão o apelido – grosso modo – de artes y coisas delas … y ultimamente até ampliar as possibilidades dos suportes é uma bênção ….

    Ou seja, Grim … o Grim ocorreu aí – por portas-y-travessas num erro altamente ameaçador de perigoso-infeccioso que poderá ser … É! Essa história dos “subsídios”. …Parece que a gente pode concluir, ou melhor, somos empurrados para o facto de que o Correctíssimo era : O Estado subsidiar o Lá Feria ( Ou a Revista à Portuguesa com os seus 50 anos de tradição. Não esquecer Camões y os seus anos todos na tradição y o que lhe aconteceu nos programas curricular, onde os jovens tugas aprendem esta coisa de usar a língua y o nosso património de pertencer a um bando de gente que andou a fazer coisas pelo mundo fora. É! Isso. Equacionar este dois fenómenos y depois, só depois, por pura tolice se defenderá a R. à Portuguesa …) …

    Resumindo … é fundamental o tempo, a elasticidade do tempo, o demorar os olhos … Depois, … chega o tempo do Jogo … do Artista y seu espectador … y é tão bom qd a parada vai aumentando … às vezes é um simples “de” entre vírgulas …
    ………………
    ……………
    …….

    CV. Pois. Mas é uma concessão como que “pessoal” … n é literária! …

  39. k.r. diz:

    Tomar a nuvem por Juno….

  40. Almajecta diz:

    Ando por aqui a fazer comparações com a eloquência a dilucidar oxímoros, ekfrasis e tal e apenas muito recentemente me apercebi que a artista morta encontra escultor, vivem em herdades cheias de animais, à vista dos agricultores destroem as ceáras e jamais serão felizes para sempre. Bravo Carlos.

  41. K.r
    Obrigada. Fiquei a perceber metade … …O Almajecta é uma espécie de Esfinge, para mim.

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