A chateza está nos olhos de quem vê


Dizes tu, Filipe, que «Manoel de Oliveira é tão chato que nem sequer me consegue fazer dormir». Imagina que tenho uma novidade para ti: os filmes dele não são chatos. Nem deixam de o ser. A coisa funciona assim: uma obra de arte não opera no nada, entretida a maravilhar Deus ou o vácuo quântico. Não; ela é ela mais o seu espectador. E pode assim ser muitas coisas quando mudam as suas circunstâncias – de tempo, de cultura, de local.
Essa sensação de profundo tédio que te assalta sempre que te vês à frente de um filme do homem nasce em ti, não provém do celulóide – é uma reacção tua ao convívio com um objecto que te é, e continuará a ser, inapelavelmente exterior. Haverá quem ache que “A Caixa” é um filme esplêndido; eu nem o vi até ao fim. Mas esta apreciação é minha e talvez diga mais sobre mim do que sobre a obra. Aliás, nada me impede de supor que ela tem tremendas qualidades – não são é as qualidades certas para me tocar. E aí o problema será meu, que sou incapaz de me emocionar com inúmeras obras-primas; basta dizer que não consigo gostar de Mozart nem de Chopin. Serão eles chatos ou imprestáveis? Não me parece.
O mais certo é, repescando a tua analogia dos seminários, estares a ser exposto a coisas que nem entendes. Como se eu caísse numa palestra sobre teoria das cordas. Ou num recital de poesia albanesa. A impossibilidade de estabeleceres um contacto frutuoso com este autor fica assim dividida a meias: ele não se esforça por usar uma gramática visual fácil, tu não te dás ao esforço de o entender. O que não faz dele “chato” nem de ti “tonto”, apenas criaturas separadas por diferenças irreconciliáveis.
Mas também é isto que faz da Arte coisa merecedora de todo o tempo e energia.

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