É preciso desabituar o olhar

É preciso desabituar o olhar. Esta manhã saí de casa ainda não eram oito, e eles davam especialmente nas vistas porque pareciam estátuas negras postadas às esquinas, junto às carradas de obras que há pelo bairro todo, história de transformar de vez a zona num gueto burguês. É claro que eles também lá estão lá nos outros dias, só que a gente não os vê, vêm cedo e saem cedo (comem ao meio-dia como os cantoneiros) e depois recolhem-se lá para os sítios onde moram – sítios que a gente não conhece mas de cuja absoluta fealdade suspeita, porque sabemos que Portugal é um país muito bonito excepto onde a maioria das pessoas, pretas e brancas, mora. Também se vêem aos domingos, vestidos à domingo, sozinhos na rua – e isso é o mais triste de ver. É preciso procurá-los, não nas sombras, mas onde há luzes que não os deixam ver. É preciso impedir a visão de ser parcial e a memória de ser selectiva: eu, de Lisboa, quando era pequeno, lembro-me sem esforço do Saldanha na sua antiga regularidade, dos passeios sem carros tão arrumados que eles eram e da Baixa toda arranjadinha – não me lembro dos estropiados a pedir como em mais lado nenhum da Europa havia, das velhinhas a pedir à porta da Igreja dos Mártires a quem a minha mãe dava esmola sem sequer olhar para elas, tão natural aquilo era, nem dos desgraçados que vinham pedir à porta de serviço. É preciso, por exemplo, olhar para as Amoreiras onde estou agora e para o caos urbano que existe aqui à volta, imaginar aqueles casebres por dentro e, à falta de melhor, ter um bocadinho de pudor.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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