Da conflitualidade social

Vale a pena ler os comentários às postagens do Cinco Dias, e não somente as postagens propriamente ditas. Muitas vezes nos comentários travam-se debates interessantes.
Houve quem achasse um “disparate” eu ter afirmado que “a pluralidade de opiniões é desejável, a conflitualidade social não é”. Eu afirmei: “Conflitualidade social é algo que é legítimo, necessário por vezes, mas não é desejável. Eu pelo menos penso que não. O que não quer dizer que use esse argumento para a combater (isso seria antidemocrático). É justamente em essa conflitualidade não ser desejável que reside a força dos que a promovem.” Ou seja, um governo tem de estar preparado e saber lidar com a conflitualidade, mas essa conflitualidade não deve ser procurada nem deve ser tida como um objectivo, quer pelo governo quer pelos agentes sociais. Não pretendo com isto que os governos não tomem medidas impopulares: a função principal de um governo é cumprir o seu programa. Também não pretendo de forma nenhuma (deixem-me enfatizar este ponto) que os agentes sociais deixem de protestar quando acharem que tal se justifica. Sejam sindicatos, a defenderem os trabalhadores, sejam… patrões (esta última hipótese é académica e infelizmente parece risível, mas no meu governo ideal os patrões teriam muitas razões para protestar). Mas só quando acharem que tal se justifica: a contestação social não deve ser um objectivo a priori, e não pode ser um objectivo a priori de quem queira participar num governo. Uma esquerda que queira estar preparada para governar, que queira fazer parte de um projecto de governação, não pode afirmar que a conflitualidade social é desejável.

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7 Responses to Da conflitualidade social

  1. LR diz:

    Se algo é «necessário por vezes», certamente que poderá ser «por vezes desejável».
    Quanto ao resto, quando um gajo tem de escrever muito para justifcar o que escreveu, o mais certo é não ter saído coisa famosa logo da primeira vez. E estou aqui a meter-me não só contigo, mas também com o Carlos 🙂

  2. “Se algo é «necessário por vezes», certamente que poderá ser «por vezes desejável».”

    Não concordo nada. Esta é mais uma das nossas divergências semânticas :). “Necessário” é bem diferente de “desejável”. Há coisas que são necessárias mas que gostaríamos que não fossem. Essas não são desejáveis.
    Acho a questão levantada neste post importante e relevante para discutir num post (tinha surgido num comentário). Não estou a justificar nada do que escrevi.

  3. Luis Rainha diz:

    Olha que “desejável” não é o mesmo que “apetecível”, como pareces pensar. E claro está que é diferente de “necessário”, evidência que não contrariei.

  4. Luís, dizer-se num dado contexto que UMA contestação social seria desejável ainda pode ser admissível. Mas do que falo no meu texto (e do que se falava nos comentários) não era num dado contexto: era A contestação social, por si só, em abstracto, out of the blue. Dizer-se que a contestação social em abstracto é desejável, para mim, é o mesmo que dizer que é apetecível. É a isso que me refiro.

  5. Luis Rainha diz:

    «contestação social em abstracto» quer dizer absolutamente… nada.

    Repara: sem essa contestação, não teríamos tido a revolução francesa. Era necessário e desejável tal evento? Atrevo-me a dizer que sim. Mas seria apetecível, para os seus protagonistas? Tal como em transformações similares ao longo da História, palpita-me que não.

  6. Luís, Luís, por favor poupa-me… Toda esta série é “em democracia” (ok, não escrevi explicitamente neste texto, mas escrevi implicitamente ao recusar um cenário antidemocrático: está lá). Tudo começou com o post “da desobediência”… em democracia (esse era explícito – e sem desobediência não teríamos tido o 25 de Abril). Este é “da conflitualidade social”… em democracia! Não me venhas falar da monarquia absolutista francesa.

  7. Luis Rainha diz:

    Filipe,
    Agora, estávamos apenas no reino da semântica. Não reparaste? Mas que me dirias de um surto de conflitualidade social que tivesse arrancado o Hitler do poder mal ele lá chegou? Não tinha sido fixe?

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