Anti-pop

Nas duas vezes que morei em Bruxelas, morei sempre na comuna de Ixelles, um antigo arrebalde da capital que se tornou um bairro seu e está ligada ao centro da cidade por uma rua comprida, a Chaussée d’Ixelles, que a minha amiga S. insistia em chamar a Calçada de Chelas. A coisa irritava-me; fazia-me lembrar a malta que escreve ‘bora aí, ganda nóia e coisas parecidas: pareciam-me herdeiros da antiga república coimbrã do Prakistão, que eu sempre contei que a Índia amiga um dia fizesse desaparecer, e antepassados da malta dos chats, esse-éme-esses e quejandos, que encheram o português de kapas, como em Destak. Descobri pela S. que detesto a língua pop e hoje acho que todos os telemóveis deveriam vir acompanhados de um exemplar da Estilística Portuguesa, do Prof. Rodrigues Lapa, para evitar mal entendidos.

Ontem, por acaso, vi os Gatos Fedorentos na televisão. Às vezes sorri, mas rir, nunca. Pelo contrário, hoje pensando nisso, dou comigo até com pena. Deve ser uma maçada a vida dos piadistas, sempre engraçados, sempre em festa. Parece que não percebem os prazeres da condição séria.

Para quem trabalham eles? Quem é o destinatário imaginário das piadas que eles dizem? Sim, não é preciso ser Barthes para perceber que escrevemos sempre com um leitor ideal em mente (e daí o embaraço quando há outros que também nos lêem), se não estávamos quietos e calados, ou guardávamos tudo na arca, como o outro, em vez de escrevermos em blogues (eu, por exemplo, quando estou a escrever isto estou obviamente a pensar em si).

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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