Espanto, espanto é quando estão todos

Manuela Ferreira Leite deve ser muito ingénua. Ou pretende passar essa ideia. Ou então está muito afastada da realidade da vida política. A líder do PSD ficou indignada por ter constatado que 30 deputados do seu partido faltaram à votação que poderia determinar o fim do processo da avaliação dos professores. Caso não o tivessem feito, teriam provocado uma tal mossa política no PS que a própria direcção socialista seria obrigada a tirar as devidas ilações. E provocaria um sério hematoma na já mal-tratada ministra da Educação. Mas não. 30 deputados do PSD faltaram.
O que espanta nisto é a própria indignação de Manuela Ferreira Leite que até pediu explicações ao líder parlamentar como se se tratasse de um caso virgem e fazendo-o com estrondo. A novidade no Parlamento, a verdadeira notícia, é quando estão todos os deputados. Faltar aos debates e às votações; assinar nas comissões e depois fazer-se à vida para outros lados; chegar tarde aos debates; sair cedo; e entrar mudo e sair calado faz parte da rotina parlamentar da esmagadora maioria dos deputados sobretudo nos grupos do PS e do PSD.
Além disso, a bancada social-democrata foi escolhida, quase a dedo, por Pedro Santana Lopes. E essa escolha reflete bem o autor da selecção: é só vê-los – quando isso é possível – nas últimas bancadas: a rir, a ler jornais, em amenas e, deduz-se, divertidas cavaqueiras, e a sair e a entrar na sala. Só há uma regra sagrada que nenhum deles se esquece de cumprir: assinar o ponto.
Manuela Ferreira Leite deveria fazer um estágio no Parlamento. Em especial, assistindo, nas galerias e nas comissões, ao desempenho dos seus deputados. Se o tivesse feito, antes de se atirar à liderança, talvez tivesse ficado em casa. E poupava-se à vergonha. *

*Publicado em correiopreto.blogspot.com

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5 Responses to Espanto, espanto é quando estão todos

  1. Tiago Mota Saraiva diz:

    Lembro-me uma vez, de estar nas galerias a assistir a uma discussão, e ver Santana Lopes a entrar por uma porta, assinar o livro e sair por outra. Foi uma risota que os polícias logo mandaram calar.

  2. Luis Oliveira diz:

    Queria aqui assinalar uma discordancia formal importante: nao percebo porque e que este post tem dois asteriscos!

  3. Bem dito. Infelizmente, o género de comportamentos que descreveu não sucedem só nas últimas bancadas nem entre os medíocres escolhidos por Santana Lopes. Pessoas mais inteligentes e com mais peso político fazem a mesma coisa. Uma professora contou-me que há anos levou os alunos numa visita de estudo à AR, num dia em que se discutia uma legislação qualquer sobre a toxicodependência, e que faltavam imensos deputados e que a maioria dos presentes, enquanto alguém discursava, conversava, ria, lia o jornal, falava ao telemóvel… No final, os deputados do partido do orador aplaudiram mecanicamente e os outros continuaram na mesma. Depois foi um orador de outro partido e tudo se repetiu, mudando apenas a bancada que no final aplaudiu mecanicamente.
    Nomes: Pacheco Pereira, Paulo Portas, Manuel Alegre, Odete Santos… Sejam quais forem as nossas convicções políticas é preciso reconhecer que eram (e alguns ainda são) deputados relevantes e trabalhadores (dos poucos que merecem o que lá ganharam ou ganham).
    É triste, não é? Tem a ver com aquela velha ideia que as nossas elites não são grande espingarda, mas se calhar não é só isso… Aquilo não poderia funcionar doutro modo?
    Os alunos que iam na visita de estudo foram arrasadores nos relatórios da visita e dois ou três disseram “se calhar é por causas destas coisas que o meu avô tem saudades do Salazar”. O problema com estas atitudes dos deputados é que, além dos problemas imediatos (não conseguir suspender a porcaria do actual modelo de avaliação), contribuem para descredibilizar a democracia.

  4. clara martins diz:

    Você também é, com todo o respeito, tão ignorante como Ferreira Leite, porque:
    1º Não é líquido que os deputados faltosos do PSD votassem todos como você prevê. Consta que muitos faltaram para não ter de votar contra a direcção da bancada.
    2º Tratava-se de uma “recomendação ao governo para que suspendesse a avaliação” o que não obigaria, de forma nenhuma, o goveno a segui-la.

  5. Emídio Fernando diz:

    Tem razão, Clara Martins, não obrigava. Seria apenas um sinal. E, como tal, com ilações políticas. Mas a questão do fundo não é essa: os deputados deveriam lá estar. É para isso que são pagos. E com todo o respeito, se a Clara não percebe isso é porque não lhe sai nada do bolso, ou seja, não paga impostos. Ou não se importa de colaborar na arte de ser parasita. Especialmente, a arte que permite a muitos deputados não fazer nada numa sexta-feira em véspera de um fim-de-semana alargado. Percebeu? Sexta-feira + feriado = mini férias. Feito o desenho que a Clara certamente necessita, dê lá outra leitura no post. Vá lá, não custa nada e pode ser que compreenda qual é o cerne da questão.

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