1, 2, 3, lá vamos nós outra vez

Uma reportagem em que uns quantos professores se entretinham a cantarolar qualquer coisa como «um, dois, três, já cá estamos outra vez» encheu o prato a muito fabricante de opiniões, talvez por mostrar umas criaturas estranhamente alegres – muito pouco estalinistas e sisudas para marionetas do PCP.
Fernanda Câncio, por exemplo, deu voz a uma suposta maioria silenciosa: «sim, lá estão eles outra vez, pensa uma parte não negligenciável das gentes, saturada de protestos professorais». E parte para uma curiosa análise da coisa: «chama-se ao processo eleitoral processo de legitimação democrática por alguma razão. E a última vez que olhei para as eleições os professores não se tinham candidatado a governar». É o ponto de vista já aqui expresso pelo Filipe: o governo manda e os burros baixam as orelhas. E «é altura de pararem para contar quem têm do lado deles»: a oposição, com claro destaque para o PCP.
Há uns tempos, aquando da provocadora visita aos nossos mares do barco da Women on Waves, já a Fernanda não se mostrava tão preocupada com isso da legitimação. Depois, até se imaginava a dar razão a quem «tentar impedir um navio baleeiro de matar uma baleia ou caçadores de focas de as espancar até à morte», por mais governos democráticos que tais enormidades tivessem autorizado.

A distinção entre legítima desobediência civil e comportamento antidemocrático depende assim de um curioso fenómeno: quanto mais perto de uma causa estamos, mais ténue e difusa nos parece a linha fronteiriça.

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